De repente uma coreografia labial nervosa denuncia um circunstancial desconforto. A boca... seca balbucia palavras de apoio. O coração, descompassado, anuncia acelerado batimento. A testa recepciona exagerado suor. Os olhos, marejados, despacham copiosas lágrimas na face ruborizada pela presente emoção. As pernas, obedecendo à convocatória do chão, indicam imediata urgência para recuperação do equilíbrio. Qual sucede nos primeiros anos escolares, experimenta momentos de difícil lição.
Governada pelo flagrante incômodo, impiedoso pensamento visitava-a. A avó maternal sendo consumida pelo mal de Alzheimer. O maldito alemão vitimava, numa impiedosa gradação, uma incansável credora da arte de amar. Apesar de datar trinta anos, a imagem, fiel à emoção da perda, projetava particulares momentos da amistosa convivência. Pela doença da avó, interpretava, na brevidade da vida, doloroso aprendizado da experiência humana. Ou melhor, representava quão válido fora viver em companhia dela. Conciliar diferenças, como esperar e esperançar.
Perceber a inutilidade de julgar os outros, ainda mais sob a ótica condenatória da subtração. Amar, sem o ônus do apego. Servir, sem cobrar impostos de reconhecimento. Auxiliar, sem apresentar faturas de suposta superioridade. Perdoar, isentando-se de solicitar petições de elevada auto-estima. Respeitar a opinião alheia, sem agiotar condicional pretexto. Valorizar a importância de ser fiel à recôndita intuição. E, independentemente da bagagem para o necessário aprendizado, na condição de hóspedes, desta hotelaria chamada Vida, reconhecer que, assim como na chegada há quem traga um pouco para nós, na partida, há quem leve um pouco de nós.
E neste ir e vir, a Saudade, com alvará, funciona. Nobre, como definir um sentimento capaz de nos matricular nas classes mais afetivas da nossa consciência? Seria um amor ficante, ou uma espécie de amor imperecível? Curiosa esta teimosia pela definição. Qual razão buscar o racional para explicar o emocional? Qual motivo teorizar algo restrito à prática?
O escritor Rubem Alves,certa vez, afirmou sobre o assunto: “A saudade é o bolso onde a alma guarda aquilo que perdeu.” Genial! Resolvido. Agora em diante, colocar a mão no bolso será buscar, inadvertidamente, aquela conversa esquecida na cozinha, verdadeiro útero da casa, por fecundar desejáveis receitas, suculentos pratos. Será recorrer à fragrância do perfume borrifado, na menina casualmente paquerada. Será sonhar - por que não ? - com beijos molhados com intenção de pecado, pelo prazer gos-to-sa-men-te tentador. Será, enfim, sentir o abraço matinal da mãe a rogar bênçãos ao filho para esperada avaliação escolar. Visitar as juras matrimoniais de amor eterno. O ciso do riso fácil de um aniversariante. O afeto gerador do feto, parte de um parto legitimamente inesquecível.
O autor é educador universitário de Língua Portuguesa. Especialista em Redação. Doutorando em Letras pela Unicamp.