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Entre as definições de amor platônico, uma pode ser a relação estreita vivida entre duas pessoas, porém, sem manifestações de carinhos físicos. Você já teve um amor platônico? Acredita nele ou ao menos conhece alguém que tenha vivido uma relação amorosa nesses moldes?
“Ele era casado. Nunca nos tocamos. Mas nos amamos. E com muita intensidade”. Aos 80 anos de idade, dona Liliane decidiu abrir o seu coração, e a gaveta de cartas, para contar uma história de amor platônico. Mais do que isso, para contar a história da sua vida. A pedido da entrevistada, que procurou o JC para abrir seus sentimentos, os nomes aqui citados são fictícios.
Os nomes podem não ser os verdadeiros. E não são! Mas a história, garante a senhora de gestos delicados, é legítima em cada palavra por ela falada, em cada memória que vem à tona e em cada sorriso que as lembranças ainda nela despertam.
Tudo começou na primavera de 1975. Era setembro e as flores davam ainda mais charme a uma turística cidade entre as montanhas paulistas. A sala de TV de uma colônia de férias foi o cenário do “amor à primeira vista” entre a bauruense Liliane, então com 39 anos, e o paulistano Kassab, na época com 48 anos.
“Estávamos na sala vendo televisão. Não havia outras pessoas naquela hora. Conversamos um pouco e ele me convidou para um passeio de carro na manhã seguinte. No início, achei que ele pudesse se aproveitar de mim, uma mulher sozinha naquela cidade turística, mas desejei o passeio”, assume.
No dia seguinte, às 9h, ele já a esperava na frente da colônia com seu Volkswagen. “Andamos uma quadra e ele parou o carro para me mostrar uma glicínia florida. Descobri nossa primeira afinidade: o amor pelas flores”, lembra Liliane, com riqueza de detalhes, e brilho no olhar.
Desde então...
Um amor platônico que ultrapassou as décadas teve início. A pousada passou a ser o ponto de encontro do “casal” que se via ao menos duas vezes por ano. Os encontros, segundo Liliane, eram regados por muitos passeios ao ar livre, sorrisos soltos e horas e horas de conversas cheias de afinidades.
“Bom, aquele primeiro passeio durou cerca de três horas pelas estradas montanhosas. Paramos em um parque e sentamos no gramado junto a um lago. Eu estava atraída por ele, é evidente, mas ele me confessou ser casado e ter cinco filhos com a esposa. Há uma espiritualidade muito viva em mim. E isso me impediu de cair em seus braços”, narra.
Por três dias, Liliane e Kassab andaram juntos. Os passeios ocorriam dia e noite. Até que a família dele chegou de surpresa e os passeios foram interrompidos. Ele voltou para São Paulo, mas não sem antes pedir algo: um nome completo e o endereço, apenas isso.
A primeira carta
De volta a Bauru, Liliane retornou à rotina de funcionária pública. Ele, em São Paulo, continuou a se dedicar também ao funcionalismo público. Porém, nada mais seria como antes. “Ele dizia ter encontrado em mim valores e princípios morais que o encantaram”.
Uma semana depois, chegou a primeira carta de Kassab para Liliane, assim iniciada: “Existem pessoas que quando a gente conhece, as coisas nunca voltam a ser como antes”. Em uma terceira carta, Kassab disse à ela: “Tenho esposa, sexo, amigas, colegas. Posso ter amantes, enfim, tudo, menos o que vejo em você, algo acima de tudo isso...”
Outras cartas chegaram a Bauru. Outras foram para São Paulo. E, durante nove anos, os encontros foram marcados por elas. Liliane faz questão de dizer que os diálogos dos dois pareciam poesia. Diz isso e cita trechos das cartas. Gravou todas elas na memória.
Separação
Liliane teve contato com seu amado dos 39 aos 48 anos de idade. Há mais de 30 anos o convívio se foi. Depois que a aposentaria chegou, as férias acabaram e os encontros findaram. Ela ficou 20 anos sem notícias dele, até que conseguiu um telefone e descobriu que ele estava doente. Liliane não sabe se Kassab ainda está vivo, mas acredita que não.
Ela nunca se casou. Ele chegou a pensar em jogar tudo pro alto por ela, que nunca aceitou. “Jamais me imaginei destruindo um lar. Sei que estou fora de moda, mas tenho minha consciência e espiritualidade tranquilas”. Ela garante que, se pudesse, viveria tudo novamente e da mesma forma. “Decidi contar tudo isso para mostrar o que acontece com as pessoas. Cada ser humano tem a sua história”.
‘Deixo assim ficar subentendido’
Quem nunca disse um “eu te amo”? Liliane e Kassab nunca disseram um ao outro. “Mas tudo o que falamos revelou bem mais do que isso. Com esse amor, descobri-me poeta”.
É como Lulu Santos diz em uma canção: “Deixo assim ficar subentendido, como uma ideia que existe na cabeça e não tem a menor obrigação de acontecer” (trecho da música “Apenas mais uma de amor”). Mas o amor de Liliane e Kassab aconteceu. Não da maneira como conhecemos e/ou estamos acostumados a viver. Mas quem pode dizer que o amor tem fórmulas?
Ah, quase esqueci de contar. Aos 80 anos, Liliane encontrou um novo amor. Dessa vez, com direito a beijos e abraços. Como ela mesma diz, a vida apronta surpresas que a gente nem é capaz de imaginar. Bom domingo!
| Alexis/PixaBay |
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