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A Dilma que deu certo

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Fala-se muito na crise política desencadeada no governo Dilma, dos seus baixos índices de popularidade, do déficit orçamentário, do dólar alto, do nível de emprego em queda, da inflação ascensional, dos panelaços e das pedaladas fiscais condenadas pelo Tribunal de Contas. Mas ninguém menciona a Dilma que deu certo. O lado bom. A presidente revelou-se extremamente eficiente  ao submeter-se ao rigoroso método Ravenna, dieta que a fez perder mais de 15 quilos. Foi preciso perseverança e força de vontade para chegar ao perfil atual, digno de uma mandatária republicana.

O médico Máximo Ravenna deve estar orgulhoso, endocrinologista argentino indicado pela outra paciente notável, Cristina Kirchner. Ele costuma dizer que combate o excesso de peso com pequenas doses de alimentação por dia, como se fossem “vacinas”. Carboidratos elementares como pão e massas, nem pensar. E, assim, o obeso acorda para uma nova expectativa de vida.

O fato de Dilma ter engordado tanto no seu primeiro mandato, talvez encontre explicações nos gastos com comemorações no Palácio da Alvorada, que somaram R$ 302,7 milhões no período, 40% a mais do que o do seu antecessor Lula da Silva. Segundo o colunista de O Globo José Castelo, que estudou os dados da Transparência Nacional, os gastos de Dilma com mordomias custaram o dobro do consumo da Rainha Elizabeth II, que ainda sustenta com a mesma verba o marido, filhos, noras, genros, netos, primos e sobrinhos, descendentes dos irmãos do seu pai George VI. A rainha, além de chefe de Estado e da Nação, é chefe da Igreja Anglicana e presidente do Sínodo dos hierarcas. Nada disso seria justificável para os ingleses se a rainha não fosse capaz de gerar uma receita de 767 milhões de dólares anuais e ajudar a gerar 2,6 milhões postos de trabalho com o turismo. Milhões vão à Inglaterra para ver a rainha, a troca de guardas no castelo e compram souvenires e centenas de artigos By appointment to Her Majesty the Queen. Dilma responde com seu sacrifício pelas finanças do Estado ao reduzir em 10% o seu salário, do vice e dos ministros. Todo o ganho mensal (R$ 26.700) não dá para pagar uma só diária no St. Regis, onde se hospedou em Nova York numa suíte decorada por joalheiros da Tiffany’s. Ou do Hotel Fairmont, de São Francisco, que não sai por menos de R$ 36 mil por noite. Fora os gastos com 19 limusines, 15 motoristas, dois ônibus e um caminhão de transporte da bagagem da comitiva que a acompanhou para o seu encontro como Obama e o discurso na ONU. A Embaixada, sem verbas, levou dois meses para pagar as contas. O estrépito da bronca do transportador, um brasileiro, municiou reportagem com chamada na primeira página do Times.

Vocês se lembram da comovente história de Dilma, contada por ela mesma, de quando era criança. Um garoto de rua bateu na porta da sua casa em Beagá “quereno cumida”. Dilminha tinha uma nota, rasgou-a e entregou metade ao pobrezinho. O que se pode esperar de quem rasga dinheiro desde criancinha, se não um déficit de R$ 70 bilhões no Orçamento. O regime do médico argentino, pelo menos, colaborou para diminuir o abastecimento do Aerolula: R$ 2 milhões anuais. Menor que no tempo do Lula (R$ 3,7 milhões), com o cardápio de bordo elencado por coelho assado, costela de cordeiro, rã, pato picanha e peixe. Em compensação, uma escala de 24 horas de Dilma em Atenas custou R$ 244 mil, ou seja, R$ 10 mil por hora.

O problema não são os R$ 9 bi e R$ 300 mi que nos custam a Presidência com suas secretarias extraordinárias, quatro empresas de segurança e uma adega de duas mil garrafas de vinho com rótulos mantidos em segredo. O preocupante é que a deterioração da economia do País se desdobra em maior velocidade do que a ação do governo. Enquanto o ministro da Fazenda Joaquim Levy se esfarela no esforço do ajuste fiscal, governo e Congresso respondem com processo catatônico. O presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e o presidente do Congresso, Renan Calheiros, estão sob ameaças da Justiça. Um deles, Cunha, alvo de denúncias consistentes de manter dinheiro sujo na Suíça, se sustenta no cargo por oportunismo da situação e da oposição. Para se manterem, os presidentes das duas Casas chantageiam com ameaças de acolhimento dos pedidos de impeachment a Dilma. A crise política se torna dominante num momento trágico, perante os olhares do povo que, na luta para sobreviver, sequer pode fazer um esforço de raciocínio para entender a orgia. Lembra aquela estampa de São Jorge de bordel.

O santo pendurado na sala luta contra o dragão, e nem tem tempo para olhar o que rola no ambiente.

O autor é jornalista e articulista do JC

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