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Copia e cola

Roberto Magalhães
| Tempo de leitura: 3 min

Que o celular  copia  a vida, isso todo mundo sabe. Se aconteceu, está registrado. Bebidas, pratos, presenças, shows, roupas, “pets”, a cara-self do dono, da  namorada do dono, a cara de tudo que existe no mundo e, claro, também tem dono. Copia, até mesmo, o que sempre foi perigoso copiar: a intimidade sexual. Agora, o celular resolveu copiar a lousa.


Especialistas em educação descabelam-se. Teorizam. Polemizam. Um estudo da Universidade de Stanford (EUA) defende que, ao copiar a matéria da lousa no caderno, o aluno dinamiza a reflexão,  aprende mais porque pensa no que copia. Já a cópia da lousa pelo celular, dizem eles, não é recomendável: rouba a oportunidade do pensar. A instantaneidade do “flash” apreende tudo de uma vez só, o aluno  perde, então,  a oportunidade do tempo contínuo  de reflexão.

Emerson Pereira, diretor de tecnologia educacional do Colégio Bandeirantes, em São Paulo, defende que cada aluno tem a sua peculiar forma de registro. Uns copiam, outros clicam. O especialista pede respeito a todos, respeito às diferenças individuais. No colégio Equipe, lugar de celular é na mochila. No Dante, placas avisam a proibição de  fotos e vídeos, a não ser com autorização do professor. E os “fotógrafos”, o que pensam? Os alunos, na sua maioria, aprovam a cópia celularizada. “Lousa muito cheia dá preguiça”, dizem uns. “Libera a gente pra prestar mais atenção no professor”, dizem outros. “Eu fotografo a lousa inteirinha e, depois em casa, copio tudo de novo no caderno”, diz um fissurado na dupla tarefa do copiar.


Essa discussão, penso, deixa de fora o  que realmente importa. Com caneta ou celular, nada tenho contra a liberdade do aluno de copiar. Melhor seria, contudo, se  nos preocupássemos com o que está por trás disso tudo. Estamos nos atolando cada vez mais na perigosa cultura da “imediata facilidade”: tudo está tecnologicamente pronto e acabado. Nenhuma necessidade mais de pensar. É só copiar e colar. A adesão crescente a esse modelo das coisas prontas vem gerando cópias de pessoas, que acabam falando, vestindo e pensando exatamente da mesma forma. Em verdade, não falam, reproduzem. Nada acrescentam,  aumentam o gordo volume do repetido.


Voltando para a sala de aula, eco de tudo o que  ocorre socialmente, a tendência do conhecimento pronto também seduz os alunos. É só copiar. Intriga-me, contudo,  tal necessidade de tanto copiar. Para que servem os livros? As apostilas? Os textos? Tudo já está  neles devidamente copiado. Melhor seria se, em sala de aula, não se perdesse tanto tempo com  a passividade da cópia. Com caneta ou celular,  o ato de copiar sempre esteve comprometido com uma pedagogia antiga, a do “magister dixit”, que muito bem se materializa numa díade em oposição: de um lado, a atividade do professor que fala e escreve; de outro, a passividade dos alunos que ouvem e copiam.


Prefiro pensar diferente. Pensar na aula como  momento de construção do conhecimento. Então, além do professor, incluo, como construtores dessa mesma aula, os alunos. Então, penso em diálogo,  não em monólogo. Em alunos falantes, não em alunos copiantes. Em atividade, não em passividade. Em debates, em vozes democraticamente liberadas. Em pensamento discutido e construído, posto que a vida nunca se nos apresenta feita  nem é coisa que se copie.  


A discussão, portanto, não é a de proibir ou não a cópia pelo celular. A discussão é a de  investir  mais num modelo de aula em que se copie  menos e se pense  mais. Nossas salas de aulas estão muito caladas. Nossos alunos, muito tímidos.  A dificuldade dos alunos de defenderem suas  ideias e posições decorre muito desse modelo perverso da coisa pronta e resolvida. Modelo que lhes nega a emancipação para a plena cidadania e os algema à dependência do copia e cola.


O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras.

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