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Refugiado da Síria, Kalid, 13 anos, vende quibe e ajuda família

Marcus Liborio
| Tempo de leitura: 4 min

Fotos: Divulgação
Família reunida: Kalid com os irmãos Hadia, Omar, Sara e Ghalia e a mãe Hana

“Meu sonho é trabalhar para ajudar minha família”. A frase é de Kalid Mohhmad Badr, 13 anos, um dos mais de 2 mil sírios que já se refugiaram no Brasil nos últimos anos. Há pouco mais de um ano, Kalid vive com a mãe e mais quatro irmãos em Araçatuba. E diariamente, ele percorre o município vendendo quibes feitos pela mãe para manter as contas da casa. “Ontem (na última quinta-29), pagamos o aluguel, mas a luz e a água estão atrasadas”, disse.

A história do garoto sensibilizou o empresário Victor Vieira, 30 anos, um dos proprietários do Instituto de Especialização em Vendas (IEV), de Bauru. Kalid, então, foi inserido em um projeto mantido pelo grupo, denominado  “Venda do Bem”.

Iniciada há pouco mais de uma semana, a ação visa vender vales (que contabilizam 10 mil quibes) na cidade e região. A entrega acontecerá no dia 12 de dezembro, em Bauru (veja abaixo/ao lado). “Iremos garantir toda a matéria-prima para o preparo dos quibes”, diz Victor Vieira.

Luta diária

Quando o relógio marca 11h, Kalid já sabe que os quibes feitos pela mãe, Hana Badr, estão à mesa. É dada a largada para mais um dia de trabalho. Incansável, o garoto cruza os quatro cantos de Araçatuba na tentativa de, ao final do dia, voltar para casa com as vasilhas vazias e o bolsos cheios. Nem sempre é assim. “Tem vezes que a venda é bem fraca”, conta.

Em terras brasileiras, essa rotina se repete há pouco mais de um ano, desde que a família deixou a Síria em busca de uma vida melhor. Lá, a garantia de sobrevivência também era por meio das vendas de quibe. “Na Síria não tem trabalho nem segurança. Tudo é muito caro também”, ressalta. “Estava bem difícil a vida por lá. Muita guerra”, contou ao JC, em entrevista por telefone.

Foram quatro anos juntando dinheiro para arcar com os custos da viagem dele, dos pais e mais quatro irmãos (de 19, 14, 7 e 6 anos). Nesse meio tempo, quando começou a guerra, a família chegou a viver um ano e meio na Jordânia.

Depois de instalados em Araçatuba, o pai de Kalid, Mohhmad, voltou à Síria para buscar a filha mais velha, que tinha perdido o marido, morto na guerra. “Ela (irmã) quis ficar na casa de uns primos”.

Reprodução/Facebook
Victor Vieira garante doação da matéria-prima para quibes

Na tentativa de retornar ao Brasil, o pai de Kalid foi parar na Alemanha. “Ele quer que a gente se mude para lá, mas não temos dinheiro”, conta o garoto, que não frequenta a escola e aprendeu a falar português nas ruas, durante uma venda e outra.

“Sei que é importante estudar. Se Deus quiser, entro na escola no ano que vem”, projeta o garoto, que aproveita as horas vagas para jogar futebol com os amigos que fez na cidade. No entanto, o que ele mais quer é trabalhar para ajudar a família.  

Como comprar?

O projeto “Venda do Bem” tem como objetivo ajudar alguém que esteja na área das vendas, já que o IEV promove a formação de vendedores. “Fiquei sabendo da história de Kalid através de um amigo de Araçatuba e propus a ação para os alunos”, explica Victor Vieira.

Os 2.500 vales já estão sendo vendidos pelos alunos por R$ 10,00 cada -  cada vale dá direito a quatro quibes, contabilizando um total de 10 mil quibes. As vendas seguem até o próximo dia 6 de novembro, mas podem se estender por mais tempo, conforme a demanda.

O interessado em comprar algum vale pode entrar em contato com o IEV através do telefone (14) 3011-2941. A retirada dos quibes acontece no dia 12 de dezembro, das 9h às 17h, na Praça Nabih Gebara, localizada na quadra 1 da rua Doutor Fuas de Mattos Sabino, no Jardim América, em Bauru.

O evento contará com a presença de Kalid e sua família. “Como forma de ajudar, vamos doar  a matéria-prima para que eles possam preparar os quibes”, diz Victor Vieira.

Reprodução/Youtube
Kalid gosta de jogar futebol, mas não que ser jogador: “Meu sonho é trabalhar para ajudar

minha família”

Conflito na Síria

O levante contra o regime de Bashar al-Assad teve início em março de 2011, durante a Primavera Árabe, período em que as populações de países árabes como Tunísia, Egito e Síria se revoltaram contra os governos de seus países.

Os protestos começaram pacíficos nos primeiros quatro meses, mas, depois disso, manifestantes fortemente reprimidos passaram a recorrer à luta armada.

Os confrontos se transformaram em guerra civil e já fizeram milhares de mortos e outros milhões de refugiados, sem acesso a alimentos e remédios: entre homens, crianças e mulheres.

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