O excesso de consumo de açúcar, carboidratos e produtos industrializados está diretamente relacionado à obesidade e ao surgimento de cáries. Mas pessoas acima do peso não possuem, necessariamente, mais problemas odontológicos do que as demais – especialmente quando o público considerado é de adolescentes. É o que demonstrou estudo inédito elaborado pelo professor Fábio Duarte da Costa Aznar para a tese de doutorado defendida no final de outubro na Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo (FOB/USP).
De acordo com a pesquisa, realizada com alunos de 12 anos oriundos de escolas de ensino fundamental da rede municipal, 50,77% dos jovens obesos ou com sobrepeso estão livres de cáries, ante 44,32% do total pertencente ao grupo com peso normal. As estatísticas, segundo, Aznar, surpreenderam as expectativas. “Esperávamos que os obesos tivessem maior índice de cárie, porque é isso que acontece com os adultos”, pontua.
O professor destaca que estudo, intitulado “Análise da relação entre as condições de saúde bucal e a qualidade de vida em adolescentes com sobrepeso/obesidade e eutróficos em Bauru - SP”, não determina os motivos desta constatação. Mas, considerando o fato de as escolas pesquisadas estarem em bairros periféricos da cidade, o pesquisador concluiu que as condições socioeconômicas e o conhecimento sobre medidas de higiene bucal por parte dos adolescentes podem ter contribuído para os resultados.
Maior fluorose
“Acredito que os alunos obesos são os que têm maior acesso a alimentos industrializados, que são mais calóricos e mais caros. Portanto, em tese, eles também têm maior poder aquisitivo e, talvez, uma instrução maior para a promoção da higienização”, analisa, salientando que somente estudos futuros poderão comprovar estas suposições.
O fato de crianças com sobrepeso apresentarem maior prevalência de fluorose reforçam esta análise, de acordo com Aznar. No estudo, 23,08% dos alunos obesos tinham a doença, provocada pelo excesso de consumo de flúor e que deixa as camadas mais externas dos dentes porosas e com manchas esbranquiçadas. Já no universo de alunos com peso considerado normal, o índice foi de 14,77%.
“O alimento industrializado, mais consumido pelas crianças obesas, possui maior quantidade de flúor em sua composição. Considerando que, além da água da torneira que elas bebem, a pasta de dente - que, supostamente, elas usam com maior frequência do que as outras - também tem flúor, a probabilidade de o consumo da substância ser excessivo é maior”, aponta.
Obesidade
A tese de que os alunos acima do peso são mais dedicados à higiene dos dentes é corroborada, ainda, pela prevalência de alterações periodontais, como sangramento gengival e tártaro, no grupo de jovens com peso normal - 65,91%. Entre os obesos, o índice foi de 52,31%.
Co-orientadora da pesquisa, Sílvia Helena de Carvalho Sales Peres acredita que alunos com maior acesso aos bens de consumo não estão acima do peso apenas porque ingerem mais alimentos industrializados, mas também porque se tornam mais sedentários ao terem à disposição equipamentos como videogames e smartphones conectados à internet. Orientador foi Arsenio Sales Peres.
Um dos dados que mais chamou a atenção, inclusive, foi o elevado percentual de obesos entre os 153 alunos pesquisados, que foram selecionados em cinco escolas da rede municipal apenas pelo critério de idade. Ao todo, 40,52% estavam acima do peso.
“Neste contexto, o estudo lança luz sobre a importância da promoção à saúde, a partir da oferta de uma alimentação saudável e do estímulo à atividade física, como forma de melhorar a qualidade de vida desta criança, para que ela não se torne um adulto doente, com hipertensão, diabetes e risco de doenças cardiovasculares”, pondera.
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| Professor Fábio Aznar com professora co-orientadora da pesquisa, Sílvia Helena C. Sales Peres |
Primeiro do País
Segundo o professor Fábio Aznar, o estudo é o primeiro do País a relacionar a obesidade entre adolescentes com a saúde bucal. Ele explica que a pesquisa foi realizada porque, embora exista consenso de que a frequência e a quantidade carboidratos fermentáveis ingeridos estão relacionadas com a incidência de cárie, os estudos ao redor do mundo que já investigaram a relação entre a cárie dental e sobrepeso em adolescentes encontraram resultados conflitantes.
Ao todo, foram três anos de trabalho, iniciado em novembro de 2012 a partir da avaliação odontológica e entrevistas com 153 adolescentes de 12 anos de idade, de ambos os gêneros, matriculados em cinco escolas da rede municipal de ensino. A idade foi escolhida, de acordo com o pesquisador, por ser uma faixa etária aceita pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como protocolo de estudo e também porque, nesta época da vida, a dentição permanente de seres humanos já está formada. Além da prevalência de cárie dentária, fluorose e das condições periodontais, o estudo considerou, ainda, o nível de desgaste dentário, de má oclusão e de fluxo salivar dos alunos.
A prevalência do desgaste dentário foi semelhante entre os grupos (obesos e com peso normal), porém, houve diferença significativa em relação à severidade do desgaste dentário nos adolescentes com obesidade. De uma forma geral, os jovens apresentaram alta prevalência de má oclusão dentária e fluxo salivar reduzido. Não foram observadas, contudo, diferenças significantes entre os dois grupos.
