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Jovens evitam cemitério no Dia de Finados

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Alex Mita
Nos últimos anos, as crianças deixaram de acompanhar os pais e a tradição corre o risco de se perder

Havia uma época em que ir ao cemitério no Dia de Finados era uma obrigação para a família toda. Nos últimos anos, as crianças deixaram de acompanhar os pais e a tradição corre o risco de se perder. A estudante Beatriz Guerreiro, 16 anos, é um exemplo disso. Pela primeira vez, ela visitou, nessa segunda (2), o Cemitério da Saudade, na Vila Cardia, em Bauru. Estimulada pela avó materna, a garota se emocionou com a história de Mara Lúcia Vieira, que, na década de 70, morreu aos 9 anos. Tem quem acredite que Mara Lúcia interceda pelos jovens ainda hoje.

Mas há pelo menos seis anos, o costume de ir ao cemitério nesta data começou a se perder entre eles, segundo observa o gerente de necrópoles e funerária da Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb), Fábio Luiz Nalli Silva. “Os pais não estão mais obrigando a ir. Com a rotina corrida, nem eles têm mais tempo para visitar os jazigos. A adesão a outras religiões, além da católica, também pode explicar isso. Outras crenças não utilizam velas nem imagens e a tradição se perde um pouco”, argumenta.

Mesmo assim, Silva constatou alta no movimento nos cinco cemitérios municipais neste ano em relação ao mesmo período de 2014. “Ao invés de atrapalhar, o tempo chuvoso ajudou. Alguns bauruenses deixaram de viajar durante o feriado prolongado e aproveitaram para visitar os jazigos”, frisa. Segundo ele, cerca de 22 mil visitantes passaram pelos cemitérios entre sábado e ontem, contra os 14 mil do ano passado.

Visitantes

Em torno do túmulo de Mara Lúcia Vieira, cujo corpo foi encontrado quatro dias após a menina ter desaparecido, estava a família da estudante Beatriz Guerreiro, que visitava o Cemitério da Saudade pela primeira vez. A garota se emocionou ao conhecer a história. Quem contou foi a avó materna, a aposentada Ilda Conceição Caldeira Matheus, 66 anos, que nunca deixou de ir ao cemitério um Finados sequer.

Ela chegou até a “arrastar” a filha e o genro consigo, que não mantêm esse hábito. “Eu vim para agradar a sogra”, brinca o funcionário público José Benedito Guerreiro, 49 anos. Ainda no Cemitério da Saudade, estava a dona de casa Célia Cristina Teixeira da Silva, 50 anos, e o marido Eder Luiz de Oliveira, 53. Além de visitar o jazigo da família, o casal deu uma passada no túmulo de Maria Nunes, a Mãe Nunes, conhecida por auxiliar os mais desfavorecidos.

Maria era parteira e benzedeira, mas morreu em 1917. Muitos creem que ela interceda em gestações difíceis, mas o casal a procurou com outro propósito. “Meu filho desenvolveu uma anemia grave e eu pedi que a Mãe Nunes nos ajudasse, porque o médico não nos deu esperanças. Ele se curou dentro de pouco tempo. Em troca, nós fizemos uma placa e visitamos o jazigo todo Dia de Finados”, narra a mulher.

Fotos: Alex Mita
Takako Matsumura Tundise, 77 anos, saiu de São Carlos para visitar o jazigo dos pais e de uma irmã. Junto à irmã mais nova, Kasuko Matsumura, 75 anos
José Paulo Ferreira dos Santos, 27 anos, é adepto do candomblé. Com colares de proteção, ele andava pelo Cemitério São Benedito e decidiu visitar aqueles que já se foram

‘Ninguém pode vir’

De família católica, a aposentada Takako Matsumura Tundise, 77 anos, saiu de São Carlos para visitar o jazigo dos pais e de uma irmã. Junto à irmã mais nova, Kasuko Matsumura, 75 anos, que vive em Bauru, ela concorda com a observação do gerente de necrópoles e funerária da Emdurb, Fábio Luiz Nalli Silva. “Os mais jovens sempre têm algum compromisso. Por conta disso, eu paguei um motorista e tive de viajar sozinha. Ninguém pode vir”, revela.

Do catolicismo ao candomblé

O costureiro José Paulo Ferreira dos Santos, 27 anos, é adepto do candomblé. Com colares de proteção, ele andava pelo Cemitério São Benedito e decidiu visitar aqueles que já se foram devido à religiosidade aguçada. Desde pequeno, ele tem como missão zelar os santos. “Quem desencarnou dessa terra, de uma maneira ou de outra, conquistou um triunfo. Minha finalidade aqui é de agradecer as benditas almas com boas lembranças, não tristezas”, conta.

Exceções

Embora a maioria dos jovens não se interesse por ir ao cemitério, há quem tenha postura contrária. Esse é o caso da estudante Nathalia Kobosighawa, 21 anos. Acompanhada pelos pais, Luiz Kobosighawa, 53, e Aparecida Mitsue Tokuhara Kobosighawa, 56, além da irmã caçula, Laura Kobosighawa, 14 anos, a garota rezava debruçada sobre o túmulo de uma tia, localizado no Cemitério São Benedito, na Vila Independência.

“Eu acho importante lembrar aqueles que já se foram no Dia de Finados, porque não venho todos os dias”, diz. Ainda no Cemitério São Benedito, estava a estudante Juliana Joia de Oliveira Serafim, 15 anos, que, junto aos pais, viajou 150 quilômetros de Conchas a Bauru para visitar o túmulo do avô paterno. “Ninguém me obrigou a vir. Minha mãe que me ensinou a visitar aqueles que já se foram no Dia de Finados”, acrescenta.

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