Esportes

Enterro de Edvaldo Bezerra Diniz, o Paraíba, é no Cemitério do Ipê

Cinthia Milanez
| Tempo de leitura: 4 min

Arquivo/Neide Carlos
Sempre simpático, Paraíba ajudou na formação de uma verdadeira legião de enxadristas em Bauru

O esporte bauruense ficou mais triste, desde essa segunda-feira (9) à tarde, após a morte do professor e técnico enxadrista Edvaldo Bezerra Diniz, o Paraíba, 55 anos, vítima de câncer de fígado constatado há quatro dias. Embora tenha nascido no Estado que lhe conferiu o apelido, ele considerava-se bauruense e apresentava-se como o Paraíba de Bauru, cidade onde exerceu a sua profissão, casou-se, construiu uma família e ajudou a formar uma verdadeira “legião” de enxadristas.

Família esta que está prestes a agregar outro membro, uma vez que a filha do professor, Mariana Zagato Diniz, 24 anos, casou-se, mas ainda não teve filhos. Emocionado, o genro de Paraíba, Gilmar Siqueira da Silva, 28 anos, afirma que tinha dois pais: um biológico e outro de coração. “Ele era bastante amoroso e presente em todas as horas, fossem boas ou ruins, além de ter amplo conhecimento”, elogia.

Silva relembra a relação de Paraíba com a esposa Maria Lúcia Zagato Diniz, 50 anos, com quem era casado há 26. “Eles estavam sempre juntos e ela vivia por ele”, revela. Professor e técnico de xadrez do Bauru Tênis Clube (BTC) desde 1980, Paraíba também trabalhava na Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (Semel).

Quem sente a morte de Paraíba tanto quanto a família é seu amigo e conselheiro do BTC, Murilo Aiello. “Era meu compadre leal e não visava dinheiro. Ele recebeu diversas ofertas para mudar-se de cidade, mas as recusava, porque não queria sair de Bauru”, conta. O titular da Semel, Roger Barude, também lamenta a morte do homem que conheceu aos 12 anos, quando frequentava o BTC para praticar judô.

Barude acrescenta que a cidade não perdeu apenas um professor de xadrez, mas um amigo. Surpreso diante da notícia da morte de Paraíba, o secretário comenta que o professor havia acompanhado um atleta bauruense em um torneio de xadrez há uma semana, mas passou mal. “Eu falei com o Paraíba, na última sexta-feira, e disse que daria uma passagem para sua terra natal, caso melhorasse”, pontua.

Trajetória

Paraíba aprendeu a jogar xadrez na escola onde estudou, em João Pessoa, em 1975. Três anos depois, ele chegou a Bauru por conta de uma tia, que é enfermeira e passou a trabalhar no Hospital de Base. Logo que pisou na cidade, Paraíba tornou-se aluno de xadrez no BTC. Não passou muito tempo para que o jovem aprendiz passasse a ensinar no local, onde recebeu o apelido que carregou, com orgulho, pelo resto da vida.

Apaixonado pela profissão, Paraíba já protagonizou a Entrevista da Semana do JC e, na época, afirmou que encarava o xadrez como algo que ia além do esporte. Em Bauru, ele já recebeu 18 edições do Troféu Ligado como técnico e um como notável do esporte, além de quatro medalhas em Jogos Abertos do Interior, sendo uma de ouro e três de bronze. Ele também conquistou 25 medalhas em jogos regionais.    

Paraíba conheceu 18 estados brasileiros. Ele participou de pan-americanos, além de mundiais e brasileiros. Em 1978, faturou o Torneio dos Capivaras, hoje denominado Memorial Valzinho. O corpo do professor está sendo velado na sala 3 do Centro Velatório Terra Branca, na Rua Gerson França, 5-55. O horário do sepultamento está previsto para ser realizado às 14h30 desta terça-feira (10), no Cemitério Jardim do Ipê, em Bauru.

Xadrez de Bauru perdeu peça mais importante

Por Bruno Freitas - jornalista e amigo

Foi um xeque-mate ao esporte bauruense que ninguém esperava. Rápido. Súbito. Mutilador. Aquela voz calma, tranquila, cheia de respeito e sinestesia, com “por favor, com licença e obrigado”, agora, só vai ficar na memória dos familiares e amigos. Um verdadeiro “gentleman”. O professor “Paraíba” foi uma das pessoas mais simples e humildes que eu e meus colegas de Bauru Tênis Clube convivemos nestes últimos 35 anos em que ele esteve por lá.

Três vezes na semana ela estava no clube com sua maletinha preta em mãos, contendo livros de xadrez, um pen drive com fotos das competições e algumas páginas deste caderno esportivo do JC, que ele exibia com orgulho a repercussão de seu trabalho. “Olha, você viu que legal? Vou guardar em casa junto com todas as outras matérias que eu coleciono do jornal. Agradece ao editor e ao pessoal do JC por mim!”, foi o que me disse há poucos dias.

Escrever e fotografar sobre o trabalho dele, no clube, era nada mais que minha obrigação como assessor de imprensa. Mas ele era demasiadamente grato por tudo e a todos.

Um homem que acreditava que o xadrez ajudava, de verdade, a desenvolver a concentração, paciência, memória, sensibilidade e a criatividade das crianças, além de ensinar sobre o saber ganhar e perder. “Pais, não se metam nos jogos, por favor. Seus filhos precisam entender que a derrota é algo em que precisam estar preparados na vida”. Era o que defendia.

Faço um apelo as autoridades de Bauru: não deixem o que esse homem fez pela cidade, que ele adotou, cair no esquecimento. Ele merece ser lembrado, de alguma forma, pelas próximas gerações.

 

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