Em 2005 a TV Cultura promoveu um Festival de Música Popular Brasileira, pouco depois de retransmitir os famosos festivais que tínhamos nas décadas de 60 e 70, que eram transmitidos pela TV Record. A música mais cogitada a ganhar o primeiro lugar era de Dante Ozzetti e Luiz Tatit, interpretada na voz linda de Ceumar. A harmonia e letra de “Achou” é toda coerente ao que estamos acostumados [na Bossa Nova e MPB, claro] a ouvir, traz rimas, tem um quê do ritmo do samba e aquela boa letra poética de que tanto carecíamos [e ainda carecemos]. Bom refrão, alegre, animava o público. Era uma música com a receita de festival. Assim como foi A Banda, do Chico, no 2º Festival em 66, que levou o primeiro lugar.
Mas, ‘para não dizer’ que tudo são flores, não foi “Achou” que ganhou. Não foi a poesia que ganhou naquela tarde [o que me deixaria triste, em 99% dos casos], mas foi a consciência política. A música vencedora do festival foi “Contabilidade”, de Danilo Moraes e Ricardo Teperman. Não é uma melodia comum, não tem o arranjo harmônico que a música brasileira está acostumada, não usamos com frequência contrapontos em compassos 5/4. É uma harmonia tão caótica internamente quanto o sentido da letra da música. Cellos, violas e violinos conversam com um teclado e uma percussão genuinamente crioula. Lembra-me um pouco das propostas dodecafônicas.
A letra é uma crítica à mercantilização exacerbada, a inversão dos valores humanos, como no trecho “fraternidade se conta em genocídios [...] as estatísticas em frenéticas hemorragias”. O que torna a música toda muito coerente entre letra e arranjo, assim como “Achou”, entretanto, não é uma letra bonitinha, é pesada, forte, caótica. Como “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, no Festival de 68, mas que perdeu para “Sabiá”, do Chico e Tom; também uma ótima música, mas não era o mesmo “soco na boca do estômago”.
Bom, dez anos depois desse festival da TV Cultura, a música é mais do que atual e a posição política da população mais do que autoexplicável. Por mais que estejamos num momento de perplexidade com tamanho despreparo político-argumentativo da maior parte da população, por mais que vivenciemos greves da classe trabalhadora em prol da classe burguesa [vide caminhoneiros fechando estradas federais, para ter um exemplo bem recente], ou que encontremos na Câmara e Senado fascistas, “direitosos”, machistas, lgbtfóbicos e toda escória que se possa imaginar, esse movimento está vindo na surdina e agora eclodiu, agora “o Brasil acordou”.
Mas não esqueçamos que Gilberto Gil era ministro da Cultura em 2005, o mesmo Gil que estava na suposta contracultura lá em 70 e 80, em 2005 administrou uma cultura para as elites. Também não nos esqueçamos da vaia à música vencedora. Afinal, é um festival, por que ouvir uma música que reflete a realidade concreta? É um festival, devemos pular e festejar, não é?
Acontece que o público de 68 pensava completamente o oposto disso, não queremos um aluno da USP arrumado cantando com Tom Jobim (com todo respeito à grande obra do Chico Buarque). Queremos “seguir a canção” porque “somos todos iguais, braços dados ou não”. O público de 2005 queria “viver um grande amor” e assim como um ultrarromântico e apolítico, “aplaudir, até sentindo dor”.
O que mudou de 68 para 2005? Talvez muito ou talvez nada. Porque vejo nas ruas a mesma opressão que tínhamos antes. Vejo chacinas nas ruas, vejo extermínio da população negra e pobre. Vejo discriminação e perseguição à comunidade LGBT. Vejo mulheres desclassificarem a luta de suas companheiras feministas e compactuarem com o machismo e a manutenção do status quo dessa sociedade capitalista e patriarcal.
Em 2013, vi queimarem bandeiras “comunistas”. Vejo os trabalhadores se fragmentarem em grupos cada vez menores e não confiarem em si mesmos. O mesmo medo de antes, a mesma mídia manipuladora que forma opiniões tendenciosas, superficiais e violentas. Digam o que mudou de 68 para 2015? As lutas avançaram, conquistamos direitos em meados de 90 que agora nos são arrancados na calada da noite. Se for para vivermos de “flores que vençam o canhão”, que seja a flor trismegista do Carlos (Drummond), uma flor que “fure o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”. Porque o amor sozinho não vence batalha alguma, é necessária a consciência política.