O Banco Central brasileiro divulgou Relatório de Inclusão Financeira com dados do final de 2014, mas que retrata bem o atual cenário do endividamento das famílias brasileiras: 45% dos endividados que utilizam o chamado crédito rotativo do cartão de crédito estão na faixa de renda de até três salários mínimos, ou seja, atinge os mais pobres da população. Atinge quase 40% a média de inadimplentes que usam o rotativo do cartão de crédito.
Ao não pagar a fatura integral do cartão de crédito, o consumidor automaticamente autoriza a administradora do cartão a utilizar o limite rotativo disponível. Rolar a dívida nesta modalidade é o que podemos chamar de “dar um tiro no próprio pé”, isso porque a taxa de juros mensal tem girado na casa dos 14%, o que equivale a nada mais nada menos do que 381,7% ao ano. No mínimo um absurdo. Considerando a baixa renda dos envolvidos, afinal falamos de devedores com renda de até três salários mínimos, a coisa fica ainda mais complicada.
O empréstimo na prática, demonstra uma deficiência no orçamento familiar. Se em determinado mês a pessoa não consegue honrar os compromissos assumidos, é que de alguma maneira ele não se preveniu para aquele momento. Pode ser que a renda tenha sido achatada e/ou os gastos subiram, mas mesmo assim seria possível planejar este momento mais agudo.
Sendo bem prático, vale considerar que é de conhecimento de todos que as coisas não estão indo bem na economia brasileira. Muitos sofrem com o desemprego. Outros diminuíram poder de compra em função da carestia. Muitos chegaram nesta fase do ano sem recursos reservados, ou porque não conseguiram poupar ou se pouparam já utilizaram tais reservas para cobrir rombos do orçamento. Neste contexto, há duas maneiras de agir: preventivamente ou corretivamente. É claro que a prevenção é o melhor caminho. Isso passa por mudança de atitude no tocando à gestão do dinheiro da casa. Reunir a família, traçar cenários, cortar gastos, buscar renda alternativa, são alguma decisões que podem ajudar a contornar o desequilíbrio financeiro.
Agora, se não se preparou desta maneira para enfrentar este momento e engrossa as estatísticas dos inadimplentes, as ações infelizmente têm que ser corretivas. Venda um bem, parcele a dívida, troque esta dívida cara por uma mais barata, mas não deixe de agir na direção do saneamento financeiro. Em qualquer tempo é preciso ser muito criterioso com a gestão das finanças do lar, em tempos bicudos, mais ainda.
Saia da zona de conforto e defina com clareza seu destino financeiro. Aproveite a chegada do décimo terceiro salário e estabeleça o propósito de não entrar em 2016 com dívidas roladas ao custo mensal de 14%. É suicídio financeiro. Reflita sobre isso.
O autor é economista e articulista do JC