Tribuna do Leitor

Os homens e seus heróis

Valdemir Mesquita
| Tempo de leitura: 1 min

O semáforo fecha. Amarelo para vermelho. Na dúvida entre a pressa e a certeza - freio. Divago por alguns instantes. “Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim...”, o rádio do carro reproduz essa linda canção. Penso nos geniais compositores, Gilberto Gil e Chico Buarque. Penso na época em que foi concebida a magnífica obra. Enfim, reflexões que não avançam, meros instantes de devaneio e saudosismo.


Quarta-feira, calor escaldante pelas dez horas da noite. Poucos carros na avenida. Em minha frente segue um caminhão da coleta pública de lixo. Dois trabalhadores destemidos, abnegados, cansados, vestidos com seus surrados uniformes cor de laranja, correm, correm, coletam sacos e sacos de todo tipo de lixo. Um trabalho duro, um trabalho cansativo, um trabalho deveras necessário. E há tanto lixo para coletar. E deve sempre existir alguém para coletar.


Penso no óbvio, que é difícil de pensar, esses homens foram crianças, tiveram seus sonhos, seus medos, foram cuidados, foram velados e hoje nessa noite de quarta feira estão aqui. Correm em zig zag na noite, atrás de um caminhão que trafega desenfreado pela avenida. Esses homens seguem preparando a vida para o dia seguinte. Pai, afasta de mim esse cálice. Pai, afasta de mim. Penso nos meus medos, nas minhas manias, das vezes que reclamo da temperatura do dia, da cor da camisa, da falta ou do excesso de chuva. E os humanos heróis continuam dia e noite coletando toda nossa sujeira e vergonha, nos salvando de nós mesmos. O sinal verde convida a seguir, e já nem sei para onde...

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