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Falta de energia fecha lojas e estabelecimentos no Centro de Bauru

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 8 min

Fabrício Greatti/Divulgação
Com lojas fechadas devido à falta de energia, Calçadão da Batista amanheceu com cara de domingo

O Calçadão da Batista de Carvalho amanheceu, nessa quarta-feira (18), com cara de domingo. Em todas as sete quadras e ruas transversais, o que se via eram lojas com portas fechadas devido à falta de energia, que só foi restabelecida por volta das 11h30.

Segundo estimativa da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL), ao menos 80 estabelecimentos deixaram de atender os consumidores até que o problema fosse sanado. Órgãos como o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Poupatempo também foram obrigados a interromper os seus serviços pela manhã.

Segundo a CPFL, a queda foi provocada pelo rompimento de um cabo no cruzamento entre a rua Rio Branco e avenida Rodrigues Alves, no final da tarde de anteontem, durante a chuva forte na cidade. “Um raio atingiu a rede de energia e, das três fases do sistema, uma ficou comprometida. Para evitar o desligamento completo, aguardamos o período diurno para fazer o reparo com a rede ligada”, explica o gerente de serviços de campo da CPFL, Clauber Pazin, destacando que, com a queda de uma fase, a potência das lâmpadas pode ficar reduzida e o funcionamento de alguns equipamentos eletrônicos, comprometido.

Vice-presidente da CDL, Aldemiro José Alves relata que praticamente todas as lojas de maior porte não abriram as portas até que o abastecimento fosse normalizado. A alegação era de que trâmites como dar baixa em produtos comercializados, efetuar vendas com cartão de crédito e débito ou crediário, assim como emitir notas fiscais, dependiam do uso de telefones e computadores ligados na rede de energia.

Malavolta Jr.
Freezer vazio: dono de sorveteria, Francisco Lopes teve de descartar produtos e estima prejuízo de cerca de R$ 5 mil

“Mas os estabelecimentos que comercializam produtos alimentícios, certamente, foram os que tiveram prejuízo maior”, pontua. Foi o caso de Francisco Lopes, proprietário de uma sorveteria localizada na quadra 1 do Calçadão.

Prejuízo

Ele conta que teve um prejuízo estimado de R$ 5 mil depois de ficar por quase 20 horas sem eletricidade e ser obrigado a descartar aproximadamente 500 litros de sorvete de massa e 2 mil picolés. “Como são produtos que levam leite em sua composição, deixaram de ser seguros para consumo depois de tanto tempo sem refrigeração”, pondera ele, que pretende reivindicar ressarcimento à CPFL. Como a sorveteria ficou com os freezers vazios, o atendimento só seria retomado hoje.

Como a maioria dos estabelecimentos, uma loja de calçados e confecções da quadra 2 do Calçadão ficou por duas horas e meia sem funcionar. A proprietária, Camélia Motta, relata que a interrupção no fornecimento tem se tornado frequente, gerando prejuízos para os lojistas em um momento delicado da economia.

“A situação já não está fácil e ainda somos impedidos de receber os clientes. Há duas semanas, também ficamos por mais de três horas sem energia no período da tarde”, pontua.

Ainda por conta dos problemas de energia, câmeras de segurança e a cerca elétrica de um estacionamento  no Jd. Contorno não funcionaram e ladrões furtaram 19 rodas do local.

Tempo de resposta

Ao todo, a chuva de da última terça-feira (17) deixou aproximadamente 20 mil imóveis sem eletricidade nas zonas urbana e rural de Bauru. Até as 16h30 dessa quarta, a CPFL contabilizava cerca de 300 unidades consumidoras que ainda permaneciam às escuras.

“Mas, até as 21h (última terça - 17), 93% dos clientes estavam com a energia restabelecida”, aponta Clauber Pazin, destacando que os desligamentos foram provocados pela força dos ventos e por quedas de árvores na rede elétrica.

Questionado sobre o fato de o abastecimento não ter sido integralmente normalizado depois de decorridas quase 24 horas, o gerente de serviços de campo da CPFL argumenta que o temporal, que foi acompanhado de ventos que atingiram velocidade máxima de 71,3 quilômetros por hora, gerou consequências que fugiram da normalidade. “Dentro desta circunstância de emergência, o tempo de resposta foi o esperado. Durante a madrugada, mantivemos 15 equipes trabalhando e, ao longo do dia, 22. Não há falta de pessoal”, observa.

Falta de energia deixa suspensos serviços no INSS e no Poupatempo

Assim como o comércio, órgãos que prestam serviços à população, como o Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) e o Poupatempo também tiveram de suspender as atividades em razão da falta de energia na região central. Segundo a gerente executiva substituta do INSS, Rosane Maria Lima Araújo, o abastecimento na unidade da rua Azarias Leite só normalizado por volta das 15h30.

Com os computadores desligados e sem acesso à rede de comunicação, os atendentes prestaram apenas orientações aos usuários, reagendando manualmente atendimentos que haviam sido previamente marcados. “A prioridade foi dada para (pedidos de) pensões, aposentadoria e auxílio-doença, que foram reagendados para um prazo de 30 a 45 dias. Mas não houve prejuízo para o cidadão. Vamos manter a data de entrada do requerimento para os pagamentos”.

Já o Poupatempo abriu as portas às 8h e permaneceu até as 11h40 – horário em que a energia foi restabelecida – realizando apenas entrega de documentos e prestando orientações aos usuários. Os que tinham serviços agendados para o período da manhã e optaram por aguardar no posto receberam atendimento após as 11h40, segundo informou a assessoria de imprensa do órgão. Os demais foram orientados a reagendar.

Sindicato Rural protocola representação

O Sindicato Rural de Bauru decidiu protocolar uma representação contra a CPFL Paulista para que o Ministério Público Estadual (MPE) investigue e tome providências para obrigar a CPFL a reduzir a frequência das quedas de energia em Bauru, assim como o longo tempo de resposta para a regularização do abastecimento. O promotor do Direito do Consumidor em Bauru, Libório Nascimento, informou que recebeu o documento e já instaurou um procedimento preparatório de investigação.

Segundo o presidente do sindicato, Maurício Lima Verde, cerca de 90% das propriedades rurais da região dependem de eletricidade para viabilizar suas produções e, por este motivo, as interrupções constantes estariam gerando prejuízos. “Tem algumas que ficam uma semana inteira sem energia. Quem produz leite pode perder tudo por falta de refrigeração. Quem produz frango, suíno fica com dificuldade para alimentar os animais. Para irrigação, é a mesma coisa. Os produtores automatizaram seus processos e, agora, não tem a garantia de contar com eletricidade”, reclama.

Libório Nascimento adiantou que dará prazo de 15 dias para a CPFL prestar esclarecimentos. Em maio deste ano, quando 30 mil imóveis ficaram sem energia, a mesma promotoria já havia instaurado inquérito para investigar a forma como a concessionária, alvo constante de críticas dos usuários, vinha prestando seus serviços em Bauru. A investigação, contudo, foi arquivada.

“Não ficou demonstrado que houve negligência ou falta de empenho. Por meio de planilhas,  a companhia demonstrou que o tempo de resposta estava alinhado aos padrões estabelecidos pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica), bem abaixo, inclusive, dos limites exigidos”, frisa.

Caos no trânsito

Semáforos de vias importantes de Bauru também ficaram desligados durante a manhã dessa quarta (18), segundo informou a Empresa Municipal de Desenvolvimento Urbano e Rural de Bauru (Emdurb). A energia foi restabelecida por volta de 11h30 e, até este horário, o trânsito ficou complicado em diversos cruzamentos.

Na avenida Rodrigues Alves, no trecho compreendido entre as avenidas Nações Unidas e rua Alfredo Ruiz, alguns semáforos não funcionaram ou operaram de maneira irregular, devido à variação na tensão. Nas ruas Primeiro de Agosto e Ezequiel Ramos, também foi registrado o mesmo tipo de interferência.

Na avenida Nações Unidas, os semáforos desligados nos cruzamentos com as ruas Benjamin Constant e Conselheiro Antônio Prado também geraram transtornos, já que, na região, há grande fluxo de veículos. Onde houve necessidade, o tráfego foi orientado por agentes do Grupo de Operações no Trânsito (GOT) até que a energia fosse restabelecida.

‘Mais de 100 ligações’

Empresário que mora em um sítio às margens da Rondon, Fernando César Pegorin conta que a propriedade está sem energia desde terça-feira (17) de manhã, quando a chuva com ventos fortes atingiu a zona rural entre Bauru e Avaí. Desde então, diz ter feito “mais de 100 ligações” para o 0800 da CPFL, sem conseguir resolver o problema.

“Só no meu celular, foram 56 chamadas, sem contar as ligações feitas no celular da minha esposa e do meu filho. Em quase todas as vezes, eu sequer conseguia falar. Na última, esperei na linha por mais de 22 minutos e não fui atendido”, reclama. Até por volta das 17h, segundo ele, seu sítio e propriedades vizinhas continuavam às escuras.

Abaixo-assinado e protesto

Proprietários de sítios localizados às margens da rodovia Comandante João Ribeiro de Barros (SP-294), a Bauru-Marília, elaboraram um abaixo-assinado e cogitam realizar uma manifestação para reivindicar melhor qualidade do serviço prestado pela CPFL. Segundo uma das moradoras, Desirée Vitória Cannone, a vizinhança “chegou ao limite”.

“Estamos ficando sem energia direto. A gente entra em contato com a concessionária, que fala que vai resolver o problema, mas não resolve”, reclama ela, que diz ter ficado sem eletricidade por sete dias ao longo do mês de outubro.

“Tenho uma marcenaria e estou atrasando a entrega de pedidos. Um vizinho é produtor de leite e já teve R$ 10 mil de prejuízo por falta de refrigeração. Uma outra tem gado e fica sem ter como puxar água do poço para dar aos animais”, detalha. Desirée frisa que os moradores estão elaborando um abaixo-assinado com reivindicações que serão entregues à CPFL e que, caso as interrupções persistirem, eles poderão interditar a Bauru-Marília em protesto.

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