Articulistas

Lobos entre carneiros

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 2 min

Dizer para contradizer. Do trato para o distrato. O acordo em desacordo. Cenários políticos e econômicos ciclotínicos. A estabilidade substituída pela vulnerabilidade. Seria um processo de reforma civilizatória capaz de refazer as dinâmicas institucionais? O Mal - Estar na Civilização, obra de Freud, escrita às vésperas do colapso da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, retrata as origens da infelicidade sobre o conflito entre indivíduo, sociedade e as repercussões na coletividade. Certifica o grau de comprometimento, de repercussão, motivado por fatos econômicos e políticos significativamente lesivos à sociedade.

Antes de o mundo agudizar o caos econômico, sucessões de abalos sociais e ambientais, como falta global de alimentos, mudanças climáticas e crises humanitárias, decorrentes das guerras, frequentes tornaram-se. Eric Hobsbawn, notável historiador, defende a  tese de que o mundo vive uma transição desde o fim da Guerra Fria. Instável e à deriva das circunstâncias econômicas e diplomáticas, o mundo, segundo Eric, passa obrigatoriamente por uma retomada da cooperação e organização mútua.

Como se não bastasse esta era de incertezas e antes que a notícia factual transforme-se em fato noticioso, o mundo estaciona para comentar sobre a nova geografia do medo na Paris, de sexta-feira,13. No meio do caminho tinha uma bomba. Tinha uma bomba no meio do caminho. Ocorrido o atentado,todos sentem-se  na obrigação de escrever algo sobre o episódio,atingidos pelo estouro da comoção repercussiva, apesar de, em dias vindouros, explodir, infelizmente, na especulação casual. Desde 11 de setembro, todos sabemos, o mundo mudou. O Terrorismo institucionalizou-se em todos os lugares.Age como o DNA de uma célula cancerígena, cuja meta é reproduzir-se incessantemente.

E neste bombardeio de informações jornalísticas, livro-me do livro, recém-adquirido, “Estado Islâmico, O Exército do Terror”, do jornalista americano Michael Weiss e do analista sírio Hassan Hassan, por um motivo bem tupiniquim. Nele, dispara-se a trajetória de um derrotado grupo insurgente iraquiano para um exército jihadista de voluntários internacionais, incluindo, assustadoramente, ligações com determinadas facções do tráfico no Brasil e em países vizinhos. Parece, portanto, compreensível perder credibilidade o adesivado aviso ‘Proibida a entrada’.

Onipresente e irrestrito, o narcotráfico nacional já provou sua superioridade. A facilidade com que armas e drogas ingressam pelas nossas fronteiras, já ratifica quão hábeis somos em subestimar algo ou alguém. Nossas Forças Armadas, apesar de robusto capital humano, portadoras de obsoletos equipamentos militares são. Nossos contingentes de segurança pública possuem dificuldade para conter arrastões nas praias cariocas. Nestes momentos, faz sentido o pensamento de Schopenhauer acerca dos lobos e dos carneiros. “Parecemo-nos com carneiros a brincar na relva, enquanto o lobo, com olhos está a escolher alguns, pois nestes tempos não sabemos que infelicidade precisamente agora o destino está nos preparando: doença, perseguição,mutilação, cegueira,loucura e morte.” Por tudo isto, desconheço o pior. Pastar com passivos carneiros, pastar com declarados lobos, pastar com lobos na pele de carneiros ou pastar sem pastor?

O autor é professor de Língua Portuguesa de colégios e de universidade, com doutorando em Letras pela Unicamp.

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