Quem “fala” não quer outra coisa senão “falar diferente”. Quer ser criativo, fugir do modelo, da mesmice, do desgastado, do clichê. Recusar o eco, o discurso-papagaio. O difícil desafio: singrar “mares nunca dantes navegados”.
Na literatura, na música, na escultura, na dança, na fotografia, na pintura, a meta é sempre o novo. Todo artista sabe que a sua linguagem precisa da dissonância, do estranho, do não-dito. Sabe que criar não é reproduzir. Daí a angustiosa luta pela expressão. Como é difícil, contudo, romper o padrão vigente para instaurar a singularidade. É aqui que o bicho pega. Quem tem condições de desviar-se do modelo desgastado? Lógica elementar: só quem já domina o modelo. Primeiro, o arroz com feijão, só depois a sofisticada culinária. Primeiro andar, depois correr. A carroça antes dos cavalos. Criatividade é ponto de chegada, jamais ponto de partida.
O mal de nossas escolas e de muitos que se iniciam nas linguagens estéticas é a pressa, a imprudente inversão da ordem: busca-se o diferente antes de se aprender o elementar. Na dança, quem não domina o fundamental, cuidado! O passo, sendo maior do que a perna, é convite ao chão. Na poesia, quem não aprendeu o básico, cuidado! O equívoco pode ser lamentável. O apressado pensa fazer poesia, quando está apenas chorando. A mera confissão da dor de cotovelo e de outras desgraças nunca foi poesia. É fossa. Foi o que bem disse Drummond: “nem me reveles teus sentimentos/ o que pensas e sentes, isso “ainda” não é poesia”.
Ainda hoje, muitos acreditam na teoria romântica da criação, segundo a qual a linguagem artística, por mistério divino, já viria pronta, dispensando o trabalho poético. É a teoria da inspiração. Não é o que pensam os grandes criadores. Para eles, a linguagem criativa nasce do trabalho árduo com as palavras. Pouca inspiração, muita transpiração. Foi o que disse João Cabral de Mello Neto: “Forjar. Domar o ferro à força/ não até uma flor já sabida/ mas ao que pode até ser flor/se flor parece a quem o diga”. German Lorca, 93, um dos nomes mais importantes do modernismo na fotografia brasileira, deixou, recentemente, dois bons conselhos aos jovens iniciantes: “educar o olhar” e “fotografar muito”.
Educar o olhar por quê? Porque só com olhos educados é possível captar o novo, fugindo da ditadura das imagens petrificadas pelo senso comum: vê-se a pomba, mas com ela vem a velha imagem da paz. A rosa também não vem sozinha, traz sempre o lirismo do amor. A lua, a cruz, a balança, as cores..., tudo já tem significado e imagem pronta. Fica difícil ver o novo quando as coisas estão carregadas de velhos sentidos.
Fotografar muito por quê? Porque todo criador é um “poietes”, termo que, em grego, significa “aquele que faz”. Só “fazendo” exaustivamente fotografia, aprende-se a fotografar. Só o trabalho árduo permite o acesso gradativo à técnica, à pesquisa, à criatividade. “Educar o olhar e fotografar muito”, o conselho do velho mestre vale, evidentemente, para todas as artes. Vale, igualmente, a lição cabralina: trabalhar o ferro, domá-lo e, então, criar não a “flor já sabida”, mas a flor desconhecida. O artista é, antes de tudo, um desdicionarizador.
O autor é professor de redação e membro da Academia Bauruense de Letras