Assusta-me, hoje, andar por universidades públicas estaduais como a Unesp. Recentemente fui a um dos raros momentos de cultura que atualmente temos contato em ambiente universitário com a apresentação da Banda Sinfônica de Bauru, no Guilhermão. Foi triste ver 10 gatos pingados assistindo a um evento cultural, sendo que destes, alunos mesmo deveriam ser uns 3. Além de vexatório, tal fato mostra claramente como a sociedade estudantil acadêmica mudou nesses últimos 15 anos. O estudante, na atualidade, não enxerga mais a universidade como algo de crescimento pessoal que possibilite um retorno substancial à sociedade.
Políticas bem ou mal intencionadas deram predileção à formação de cursos com caráter mais técnico, deixando a necessidade do “pensar” em segundo plano. A apatia dos estudantes a um real ambiente universitário é tão grande que há maiores preocupações em realizar discursos sectarista e de criação de ódio que conseguem apenas afastar alunos, que não tenham essa visão, do ex-salutar ambiente universitário. O câmpus de Bauru da Unesp tem mais de 4.500 alunos que, efetivamente, não conhecem o que é um ambiente universitário de discussões de ideias amplas, abertas e democráticas.
Preferem, como sua geração preconiza, gastar energia intelectual em montar artimanhas de como angariar fundos em festas gigantescas ou, o que é pior, contam os dias para participarem de “campeonatos” estudantis. Lembrando que esses eventos ocorrem fora da universidade. E a cultura? A cultura não mais interessa. Não se discute mais um livro e muito menos escuta-se músicas não midiáticas. É uma geração de intelectuais popularizados, onde todos sabem tudo e ao mesmo tempo nada.
Seguem ideologias sem questionar ou nem mais sabem o significado de alguns adjetivos que eles gostam tanto de repetir. Esse é o reflexo da falta de cultura que nem ao menos é tentada ser adquirida em uma universidade. Os professores têm culpa nesse processo também. Eles não têm mais tempo para discutir com seus alunos ou conversar sobre aspectos acadêmicos. O que importa hoje é o imediatismo produtivo requerido pela própria universidade.
Acaba-se, dessa forma, tendo-se a nítida impressão de que a universidade pública perdeu seu rumo. No polo docente existem doutores conhecedores apenas de seu trabalho e que agem como máquinas produtoras de artigos científicos, muitas vezes sem relevância alguma, para satisfazer quesitos de pontuação artificiais. No outro polo, discentes sem figuras acadêmicas as quais se espelhar, sem cultura ou vontade de tê-la e seguidores de ideologias obtusas se analisadas racionalmente.
É necessária uma urgente quebra do paradigma atual para que não percamos mais que duas ou três gerações em um obscurantismo intelectual extremamente bem-vindo a pequenos grupos de grande controle ideológico, os quais a história não cansa de nos ensinar.