Política

Pedido de propina: novos relatos são controversos

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

Douglas Reis
José Aparecido Barbosa nega ter pago a quantia de R$ 15 mil que alguém teria lhe pedido

A Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara Municipal ouviu, na manhã dessa quinta-feira (26), três munícipes no procedimento que apura eventuais cobranças de propinas por agentes públicos da Prefeitura de Bauru em troca da liberação de áreas públicas.

    
O empresário José Aparecido Barbosa relatou que um funcionário, o qual não soube identificar, pediu R$ 15 mil para que o processo de regularização da permissão de um terreno municipal tivesse andamento, mas garantiu que não pagou a quantia.

O terreno, localizado no Distrito Industrial 1, teria sido alugado por ele em janeiro de 2010 junto ao empresário Edvaldo Moreira de Almeida, que também falou aos vereadores ontem e que detinha a permissão para explorar o local desde meados da década de 1980. (Leia mais abaixo)

Barbosa relatou que, no entanto, em 2011, uma fiscal da Prefeitura de Bauru foi até seu lava car – destinado a veículos pesados – notificá-lo de que não poderia utilizar a área, já que seu primeiro ocupante não possuía a prerrogativa para locá-la.

Diante disso, o empresário procurou a Secretaria do Desenvolvimento Econômico com o intuito de regularizar sua informação. Por lá, tratou do assunto com o então titular da pasta, Paulo Ferrari, e outros dois servidores, além de ter sido informado sobre a necessidade de recolhimento de taxas cujo valor aproximado seria de R$ 1.300,00. O pagamento, contudo, ocorreria apenas quando o contrato de cessão da área pública ficasse pronto.

O PEDIDO

Em meados de 2014, cerca de três anos depois, o processo de Barbosa ainda estava em andamento. Foi quando um servidor com crachá da prefeitura teria chegado de moto em sua empresa e avisado sobre a necessidade de desembolso dos R$ 15 mil. “Falou que era referente ao aluguel de meses anteriores”.

Diante disso, ele entrou em contato com a funcionária da Secretaria do Desenvolvimento Econômico com quem rotineiramente tratava sobre a documentação necessária para acertar o terreno e foi informado de que a cobrança não procedia.

No dia seguinte, o suposto servidor retornou ao Distrito Industrial 1, quando Barbosa teria afirmado que não pagaria a quantia. “Não houve discussão. Ele foi embora e pronto, mas, depois disso, as coisas começaram a andar para trás”.

Por fim, o empresário contou que, no início deste ano, foi chamado ao Palácio das Cerejeiras e uma procuradora do município avisou sobre a necessidade de desocupação do terreno, alegando que as edificações promovidas por ele no local teriam danificado o solo.

IDENTIFICAÇÃO

Aos jornalistas, José Barbosa disse que o servidor responsável pela cobrança dos R$ 15 mil pertencia à Secretaria do Desenvolvimento Econômico, à época do suposto pedido, comandada por Arnaldo Ribeiro, que hoje é chefe de Gabinete do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB), mas com quem o empresário garante nunca ter conversado.

Ele alegou ainda não se lembrar do nome do agente público, mas se colocou à disposição para tentar identificá-lo por meio de fotografias. “Ele era um pouco mais alto do que eu, moreno e bem grisalho”.

Barbosa afirmou ainda conhecer pelo menos cinco empresários que teriam sido vítimas de cobranças indevidas. “Só que eles não querem falar nem se envolver”.

Douglas Reis
Sem provas concretas, Edvaldo e Fernandes afirmam que o outro empresário (Barbosa) desembolsou os R$ 15 mil

Outra versão

O também empresário Edvaldo Moreira de Almeida contou uma versão diferente para a história. Ele garante, em 2010, ter arrendado o maquinário de seu lava car e não alugado a área para José Aparecido Barbosa. No entanto, cerca de um ano depois, o arrendatário teria informado que não lhe pagaria mais pelo uso dos equipamentos por ter conseguido o direito de ocupar a área pública junto à prefeitura.

Evaldo afirma que, passado algum tempo do rompimento do acordo verbal, soube que Barbosa teria pago os R$ 15 mil para conseguir o terreno. “Ele perdeu porque fiz denúncias de mau uso do local, que tinha muitas fragilidades no solo”.

A versão foi confirmada pelo terceiro depoente dessa quinta-feira (26), Fernandes Sicarire, ex-funcionário de José Aparecido, que acusa o antigo patrão de ter conseguido o dinheiro com um tio para viabilizar a área. Sicarire alega ainda que um homem chamado “Willi”, dono de um estabelecimento de lanches em Bauru, teria mediado as negociações e que os R$ 15 mil seriam divididos entre três pessoas.

Aos vereadores e ao Jornal da Cidade, Barbosa negou todas as declarações de Fernandes e Edvaldo.

Permissão onerosa

O Processo administrativa da Prefeitura sobre o caso aponta que a área do Distrito Industrial 1 foi retomada pelo município por meio de decisão judicial e tanto Edvaldo Moreira da Silva quanto José Aparecido Barbosa teriam condutas irregulares na ocupação do terreno.

O primeiro, em 2004, conseguiu a permissão onerosa para usar o imóvel por três anos. Contudo, não teria efetuado os pagamentos mensais devidos ao poder público municipal durante o período. Ainda assim, utilizou o local de forma irregular por mais três anos até alugá-lo indevidamente em 2010.

Por consequência, a utilização do terreno por José Aparecido Barbosa também se deu de forma irregular. O segundo empresário também não recolheu os valores relativos à permissão onerosa.

Boleto anexo ao processo revela que, em 2013, o valor da dívida referente ao uso da área pública era, justamente, de R$ 15 mil. Outros tributos não recolhidos elevavam o montante a cerca de R$ 19 mil.

Vereador Moisés Rossi acusa Purini de intimidar testemunhas

Relator do procedimento de apuração da Comissão de Fiscalização e Controle, o vereador Moisés Rossi (PPS) teceu duras críticas ao secretário de Desenvolvimento Econômico, Renato Purini, a quem acusa de tentar intimidar eventuais próximas testemunhas que possam vir a colaborar com as investigações parlamentares.

Isso porque, na última quarta-feira (25), na véspera das oitivas desta quinta-feira, Purini interpelou judicialmente o empresário Norberto Pagoto, o primeiro a relatar ao Legislativo a suposta cobrança de propina, no valor de R$ 10 mil, em troca de concessões de áreas públicas de distritos industriais.

Como noticiado pelo JC nessa quinta (26), o secretário quer saber o nome do servidor com quem Pagoto teria conversado no dia 5 de maio, no Palácio das Cerejeiras.

“O munícipe que se sente lesado tem que procurar se defender de alguma forma. O empresário procurou o lugar certo, fez sua denúncia e não pode ser previamente penalizado por isso. A Câmara tem que investigar e apurar a realidade. Já os entes públicos têm o dever de se curvar à fiscalização”, pontuou Rossi.

Purini alega que sua intenção em interpelar Norberto foi a de resguardar os servidores do Desenvolvimento Econômico, bem como a administração municipal, além de colaborar com os procedimentos do Legislativo e da Corregedoria da prefeitura.

À PARTE

Moisés Rossi disse, ontem, que o relatório sobre as oitivas de ontem será anexado ao processo. No entanto, a Comissão de Fiscalização e Controle concentrará esforços, inicialmente, na apuração do primeiro caso, relatado por Pagoto. “São agentes e períodos diferentes. Se misturarmos tudo, não chegaremos a lugar algum”, pontuou.

Pagoto, vale lembrar, foi levado à Câmara Municipal pelo vereador Carlinhos do PS (PP), gravado pelo ativista Pedro Valentim tecendo comentários sobre suposto esquema de corrupção no Desenvolvimento Econômico.

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