Sobre o músico inglês George Harrison, a atriz Mia Farrow disse: “Muitos artistas são conhecidos por terem tocado o coração das pessoas com sua música, mas poucos já conseguiram tocar a alma delas. Esse foi o presente de George”. Concordo. E, pelo jeito, William Bonner também. Em 29 de novembro de 2001, o Jornal Nacional fez algo inédito: sobre o ex-beatle, que havia morrido naquele dia, aos 58 anos, rendeu homenagens em todas as passagens de bloco do programa e emocionou os fãs brasileiros.
Brasil, aliás, com o qual George tinha lá suas ligações. A ponto de alterar a letra de “Here comes the Sun” ao gravar, para o SBT, nos jardins de sua casa, uma homenagem ao piloto e amigo Emerson Fittipaldi, que se recuperava de acidente na Fórmula Indy em 1996. No vídeo, facilmente encontrado na internet, George convida, cantando: “Vamos à praia tomar umas 20 caipirinhas cada um”. E emenda: “Here comes the sun. Here comes Emerson”. No fim, declara: “É pena eu não estar no Brasil com você”.
É justamente “Here comes the Sun” o nome da mais nova biografia de George Harrison lançada em português pelo selo Relighare, da Coletivo Editorial. A obra foca mais na busca espiritual de George, uma constante desde os tempos de cítara e meditação na Índia com os Beatles.
No início de carreira solo, começo dos anos 70, gravou “My Sweet Lord”, na qual cantava: “Meu doce Senhor, eu realmente quero vê-lo”. Certamente, naquele 29 de novembro de 2001 isso deve ter finalmente ocorrido. Também escrevera “All Things Must Pass”: “O nascer do sol não dura a manhã toda. Um céu carregado não dura o dia todo. Todas as coisas devem passar”.
A passagem de George por aqui é algo comovente. Deixou boas canções e um convite à interiorização, tão necessária nesses atuais tempos de exibicionismo extremo. Justo ele que, na condição de integrante da maior banda do planeta, tinha tudo para viver de pose e ostentação. Sobre fama, chegou a declarar, ainda nos anos 60: “A coisa mais agradável é abrir os jornais e não nos vermos lá”.
Viveu seu mundo material, rico, mas sonhava mesmo era com o “big ending” descrito na canção “Living in the Material World”. O beatle quieto “quis desesperadamente ajudar o mundo”, diz o autor da nova biografia, Joshua M. Greene. Não sei se chegou a tanto, mas George é um alento nesse mundão louco, raso e corrupto. E sua guitarra suavemente sorrirá enquanto o amor não se deixar passar.
O autor é editor executivo do JC