Tribuna do Leitor

Salve o Dia de Zumbi!?

Elcio José Machado
| Tempo de leitura: 3 min

Até hoje não consegui saber onde nasceram meu avós paternos. Senão, vejamos. Segundo meu pai, meus avós moraram em Limeira e depois mudaram-se para a Fazenda das Moças Leme, na cidade de Dois Córregos, onde trabalharam e lá faleceram e onde meu pai nasceu em 1905. Se partirmos pela premissa que quando meu pai nasceu meus avós tivessem 25 anos, eles teriam nascidos em 1880, poderiam ter nascidos no Brasil ou na África e trazidos para cá ainda pequenos. Em qualquer opção eles foram  escravos.


E foram libertados em 1888, segundo a história. Foram ser empregados de portugueses ou italianos que eram herdeiros de pessoas que ganharam terras do estado para plantar como meeiros (pessoas que plantavam dividiam os lucros obtidos e conseguiram comprar em 10 anos ou menos as terras onde trabalharam), ou simplesmente ganharam as terras para plantar, coisas que não aconteceram com os negros que chegaram primeiros e muito trabalharam na formação de cafezais considerados como o ouro nas décadas seguintes no Estado de São Paulo. Vocês vão me dizer: o que tem isso a ver com Zumbi?


Segundo meu pai, meus avós sofreram muito para criar meus tios e tias, meu avô tinha marcas nas costas, consequência de fatos então anteriores. Onde ao invés de tentarem conversar para montar um exército sem armas só com a coragem, deixando descendentes sofrendo pelos seus atos inexperientes. Foi bonito para a história, mas para quem viveu depois foi péssimo. Após a primeira guerra vieram alemães e japoneses fugindo e todos foram acariciados pelo Brasil. Mas ninguém sofreu tanto quanto nossos antepassados.


Meus avós sofreram muito, mas muito mesmo para criar meus pais, os serviços eram os mais difíceis e pesados possíveis para os negros, caçoavam, diziam: vocês não queriam liberdade?, usem a liberdade... Até os índios ganharam terras para sobreviver. Mas nossos antepassados não. Martin Luther King, com palavras, quase cem anos depois, resolveu mais que a briga oriunda em 1600 no Brasil. Devemos brigar para que todas as raças se deem as mãos e possam viver em harmonia estudando e trabalhando para o progresso de nosso País.


É difícil, mas não impossível, que pessoas negras vão demorar muito ainda para serem respeitadas, embora cultas e trabalhadoras. Mas a força bruta sempre foi e será o pior argumento a ser usado. Nós deveríamos ter brigado por razões reais e igualitárias para todos e não tentar formar localidades que até hoje vivem sem as necessidades básicas. O que adiantaria hoje se tivéssemos 100 milhões de negros morando num estado separados,  mas comandados por quem e em qual regime?


Será que brigamos pelas coisas certas? Sabemos que terras para nós não nos serão dadas, então temos de nos unir para que nossos filhos que hoje já não são tão negros, devido à nossa miscigenação, possam estudar para terem como argumentar e ganhar com méritos o que queremos. Devemos lutar para termos no Brasil muitos Barbosas em quaisquer profissões, aí sim mostraremos para que viemos a este mundo. Sou negro brasileiro, não me envergonho disto, mas poderia ser afrodescendente e ser branco. Ou não? Tenho na minha vida netos negros, brancos e mulatos. Lutei muito, mas sou feliz. Não devemos esquecer, mas não remoer o sofrimento de nossos antepassados.

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