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Menos burocracia e até divórcios fazem casamentos crescerem 52%

Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 5 min

A maior independência financeira e sexual das mulheres, que, frequentemente, gera conflito com a persistência do machismo na sociedade, não impediu que casais continuassem construindo relações sólidas e acreditando no matrimônio. Em dez anos, o número de casamentos registrados em cartório cresceu 52,1% em Bauru, segundo as Estatísticas do Registro Civil divulgadas ontem pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

No ano passado, foram 2.858 uniões formalizadas na cidade, ante os 1.879 registros de 2004. A possibilidade de pessoas de baixa renda casarem-se gratuitamente e o fato de o processo de divórcio ter se tornado, desde 2010, menos burocrático são explicações legais que contribuem para entender os números, conforme avalia o oficial do cartório de registro civil do 2.º Subdistrito de Bauru, Alexandre Mateus de Oliveira.

“Já houve pessoas que se casaram mais de uma vez no mesmo ano. Com o mesmo cônjuge, inclusive. Antigamente, o processo de divórcio era mais lento e elas demoravam mais para pensar em casamento novamente”, pontua, referindo se ao período anterior à Emenda Constitucional n.º 66, que suprimiu prazos e exigências para a concessão do divórcio.

Oliveira revela que o número de pessoas que planeja um novo casamento depois de um ou mais matrimônios desfeitos é cada vez mais expressivo. Trata-se de uma realidade que reflete mudanças de parâmetros culturais e comportamentais, que ajudaram a diminuir o estigma que pairava sobre aqueles que assumiam publicamente o fracasso de um relacionamento e decidiam se divorciar. 

‘Livre para recomeçar’

 

Ao longo do tempo, todos passaram a se sentir mais livres para recomeçar suas vidas amorosas, promovendo uma nova configuração dos tradicionais núcleos familiares. “Ainda nos tempos atuais, as pessoas seguem com o desejo da realização do casamento, inclusive com a festa com todos os rituais tradicionais, vestido de noiva e lua de mel”, observa a psicóloga e terapeuta de casais Dalva Taborianski.

No final da década de 1960, o mestre Tom Jobim já cantava que “é impossível ser feliz sozinho”. Passados quase cinquenta anos, o verso se mantém como uma verdade para a maioria das pessoas, muito em razão, conforme avalia Dalva, do sofrimento que a sociedade contemporânea gera nos indivíduos, incluindo os que já se casaram e se divorciaram e os que nunca formalizaram uma união. 

“As pessoas, hoje, estão pressionadas a serem bem-sucedidas profissionalmente, a ostentar bens e ter uma posição social de destaque. E isso gera uma angústia muito grande até para quem consegue conquistar isso tudo. E essa angústia gera um vazio que pode, muitas vezes, ser preenchido pelo casamento”, analisa.

Dezembro, mês dos noivos

A despeito da tradição que deu a maio o título de mês das noivas, o período em que mais pessoas se casam é, na verdade, em dezembro. Segundo o oficial do cartório de Registro Civil do 1.º Subdistrito de Bauru, Ademilson Luiz Mendes Novelli, o número de uniões formalizadas cresce em torno de 30% neste mês, em comparação ao restante do ano.

“Acredito que isso ocorre por questões práticas. Em dezembro, as pessoas recebem o décimo terceiro salário e muitas estão em férias. Conta, também, o fato de as festas de fim de ano já estarem próximas e fica mais fácil reunir a família”, pondera.

No cartório que ele coordena, 215 casamentos foram realizados em dezembro de 2014, número 24,3% maior que o total contabilizado em maio do mesmo ano. Ao longo do mês que começa hoje, 145 casais de Bauru irão formalizar suas uniões. “O número, contudo, ainda pode crescer até o final do ano”, destaca Novelli.

‘A gente acredita no amor’

Mesmo diante da maior volatilidade das relações afetivas e das várias possibilidades oferecidas por ferramentas como aplicativos de paquera que convidam aos relacionamentos casuais, a psicóloga Natalia Zangrande, 30 anos, e o administrador de empresas Leonardo Peral, 33 anos, dizem acreditar no amor e no romantismo. Há quase seis anos juntos, eles se casam no próximo dia 19 de dezembro, um dia antes do aniversário dele, em uma festa para 250 convidados com tudo a que um grande evento tem direito.

Natalia conta que as conversas sobre a vontade de “juntar as escovas de dente” começou ainda em 2012, ano em que ela se formou em psicologia. Em setembro do ano passado, quando ambos já trilhavam suas carreiras profissionais, Leonardo fez o pedido de casamento.

“Desde então, a gente vem preparando todos os detalhes. Sabemos que existem diversas coisas hoje em dia que podem dificultar a relação e até levá-la ao fim, mas ainda assim acredito que o casamento pode ser para a vida inteira. E ele também acredita. É com este objetivo que a gente vai seguir juntos”, afirma. 

Idade cresce e duração dos matrimônios diminui

 

O estudo elaborado pelo IBGE revelou que, ao longo de 40 anos, homens e mulheres passaram a postergar os planos de casamento e formalizar as uniões mais tarde em todo o País. Entre 1974 a 2014, a idade média deles passou de 27 para 30 anos, enquanto a das mulheres aumentou de 23 para 27 anos. 

Segundo o oficial do cartório de registro civil do 2.º Subdistrito de Bauru, Alexandre Mateus de Oliveira, praticamente metade dos casais que registam a união em seu cartório estão dentro desta faixa de idade. Para o IBGE, o adiamento pode decorrer do maior tempo dedicado aos estudos, bem como pela busca de inserção no mercado de trabalho com salários mais elevados, especialmente, entre as pessoas mais jovens. 

O instituto também constatou que, entre 1984 e 2014, houve redução na duração média dos casamentos, de 19 para 15 anos. Para a psicóloga Dalva Taborianski, os matrimônios longevos, contudo, diferentemente do que ocorria no passado, tendem a contar com maior nível de fidelidade entre os parceiros atualmente. 

“Hoje, existe o entendimento de que ambos precisam investir na relação, já que a pressão social para que a relação se mantenha é muito menor nos dias atuais”, completa.

 

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