Política

Empresa nega pedido de propina

Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 5 min

Nas primeiras oitivas do procedimento que investiga suposta negociação de propina por parte de vereadores, representantes da empresa Aoki, concessionária da Mercedes-Benz negaram qualquer tipo de irregularidade ou conduta indevida de agentes públicos no processo que culminou na cessão de área de quase 20 mil metros para a construção de uma nova sede para o empreendimento em Bauru. A versão foi confirmada pelo secretário de Administrações Regionais, Levy Momesso.

Douglas Reis
Sérgio e Cláudio Nakagawa depuseram voluntariamente na manhã desta terça-feira, na Câmara

Foi ele quem abriu mão do terreno, às margens da Bauru-Marília, na região do Fortunato Rocha Lima, que era utilizado pela pasta para depositar terra e outros materiais.

O secretário disse que soube, por um amigo da mesma denominação religiosa da qual faz parte, que os empresários da Aoki, sediada em Dracena, cogitava transferir a concessionária da Mercedes para Agudos.

“Quando soube disso, falei que trabalhava ao lado da secretaria do Desenvolvimento Econômico e gostaria de ajudar, pois empresas geram impostos e empregos. Foi essa a minha participação”, pontuou Levy, que negou qualquer irregularidade no processo.

Pela Aoki, falaram seus diretores comercial e financeiro, Sérgio Nakagawa e Cláudio Nakagawa, respectivamente. Ambos relataram que, inicialmente, não tinham a intenção de viabilizar uma área junto ao poder público, pois tinham condições de comprar uma. No entanto, optaram pela concessão após o contato do secretário de Administrações Regionais.

Sérgio admitiu que evitava envolvimento direto com o poder público porque já ouvia comentários sobre dificuldades e até eventuais negociações indevidas praticadas. Nesse sentido, frisou que se surpreendeu positivamente por não ter sido, em momento algum, alvo de abordagens do tipo.

VEREADORES

 

O diretor comercial da Aoki garantiu ainda não ter discutido trâmites para concessões de áreas com qualquer vereador, mas admitiu que conhecera Roberval Sakai (PP) e Faria Neto (PMDB), hoje presidente da Câmara Municipal, em novembro do ano passado. 

Ambos, por coincidência, estavam na Secretaria do Desenvolvimento Econômico quando a empresa apresentou o projeto da empresa ao então titular da pasta, Arnaldo Ribeiro, e a Levy Momesso.

VELOCIDADE

 

Cerca de um mês depois, o pedido de área foi formalmente protocolado na Prefeitura de Bauru. O projeto de lei foi aprovada pela Câmara em agosto, uma semana após o início de sua tramitação. O processo cartorário para viabilizar o terreno também se deu de forma ágil.

A suposta rapidez foi rebatida pelos representantes da Aoki. “Para a iniciativa privada, foi tudo muito lento”, disse Sérgio. Ele contou ainda que, por conta da possível morosidade, quase perdeu o direito de concessão da marca Mercedes-Benz.

O termo de cessão do terreno foi publicado no Diário Oficial de Bauru em outubro. As obras - que devem envolver investimentos na ordem de R$ 8 milhões – ainda não começaram, porém, porque o local foi, há menos de dois meses, invadido por pessoas que construíram cerca de 30 barracas por lá. A Aoki alerta que precisa dar início às obras até este mês.

 

Valentim e Júnior

Como já era esperado, o denunciante Pedro Valentim confirmou que não possui o vídeo noticiado por ele, que revelaria a suposta negociação de propina e deu origem às apurações na Câmara Municipal, no Ministério Público e na Polícia Civil. Ainda assim, o ativista disse que assistiu parte da fita e que Sandro Bussola (PT) é o vereador que apareceria conversando com um possível intermediário da empresa, ao qual os representantes da Aoki negam sequer conhecer. Questionado pelo próprio parlamentar, Valentim frisou que, no entanto, que o petista não pede propina no vídeo. O intermediador, por sua vez, explicaria que presta serviço de corretagem de terrenos e, se viabilizasse a concessão da área para a empresa, poderia ajudar em eventual campanha eleitoral de Sandro. O vereador nega ter participado de qualquer negociação irregular e pontua a necessidade de que o suposto vídeo seja apresentado para que, inclusive, possa se defender.

Hoje, a comissão ouvirá Wanderley Rodrigues de Moraes Júnior. Ele é braço direito de Bussola e atua como assessor da Presidência da Câmara Municipal, tendo sido gravado por Pedro Valentim tecendo comentários sobre o caso. Em seu depoimento à Polícia Civil, Júnior acusa Valentim de ter-lhe ameaçado. Valentim também negou, nesta terça-feira, que Roberval Sakai (PP) esteja no suposto vídeo ainda não entregue. O parlamentar se licenciou na Comissão de Fiscalização e Controle.

Mais 2 empresários falarão sobre propina

 

Depois de Norberto Pagoto ter relatado a cobrança de propina de R$ 10 mil por um funcionário da Secretaria do Desenvolvimento Econômico da Prefeitura de Bauru em troca da liberação de uma área pública no Distrito Industrial, ele levará outros dois empresários que teriam presenciado o fato contato por ele à Comissão de Fiscalização e Controle da Câmara Municipal, no último 13 de outubro.

A informação é do vereador Moisés Rossi (PPS), relator do procedimento de apuração instaurado sobre o caso no Poder Legislativo. “Eles se colocaram à disposição para ajudar a esclarecer os fatos”.

Pagoto é dono de uma oficina mecânica e, no dia 6 de maio, esteve no Palácio das Cerejeiras, quando teria recebido a orientação para adulterar dados sobre seu estabelecimento para viabilizar a concessão de um terreno público. Na mesma ocasião, a “contribuição” teria sido cobrada e gerado uma discussão entre  o empresário e o funcionário público, descrito como moreno, nem alto nem baixo, nem gordo nem magro.

Aos vereadores, Norberto disse ainda que outros dois interessados em áreas públicas estavam na mesma sala em que ocorrera o episódio. Como ele não dispõe de provas materiais, resta saber se ambos, que vão espontaneamente depor amanhã, confirmarão a versão.

O empresário garantiu ainda que o secretário do Desenvolvimento, Renato Purini, chegou a entrar no ambiente após o início de sua discussão, mas não soube precisar se o titular da pasta teria presenciado o suposto pedido de propina. Purini nega o episódio e alega que não existe qualquer processo referente à solicitação de área distrital pela empresa de Pagoto. A Corregedoria da Prefeitura investiga o caso.

 

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