Articulistas

Sobre crenças e crianças

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Em alguns países onde faz frio, foi ontem. Em outros, igualmente gélidos, é hoje. Dia de São Nicolau, o primeiro Papai Noel. O cara que deu início à magia. E foi por generosidade.

Diz a lenda que, num passado remotíssimo, três belas jovens sonhavam em casar, mas os pais não tinham os dotes (dinheiro e bens que iam direto para a família do noivo, vejam só). Eis que São Nicolau, como um Superman da antiguidade, surge no telhado (teria voado até lá?) e atira pela chaminé da casa das moças três sacos bem amarrados com moedas douradas: ouro, oba!

O mais incrível é que aquele ouro todo caiu direto nas meias delas que estavam bem ali embaixo, secando para aproveitar a quentura da lareira. Se as garotas pegaram a grana, casaram e foram felizes para sempre, não faço ideia. Fato é que, de lá para cá, ninguém pode ignorar Papai Noel no Natal. Só mudaram a data (um pouco) e o ouro (muito).

O que vale mesmo nessa história são os sonhos infantis para os quais, muitas vezes, torcemos nosso nariz adulto, convicto e empinado. Dê um pulo lá hoje na saída da Casinha do Papai Noel, na Praça Portugal, e observe a fisionomia das crianças que deixam o local logo após conhecerem de perto o pop star do mês. É um clarão de felicidade atrás do outro. Mesmo aquelas um tanto desconfiadas sempre adoram a experiência. Querem voltar.

Em casa tem uma assim. Já perguntou se eu acredito no Papai Noel, no coelhinho da Páscoa ou na fada do dente. “Olha, acho que, dos três, é Papai Noel mesmo que existe”. E ela: “Também acho!”.

Num Natal tão turbulento, tão quase sangrento, creio que devemos, em nome das crianças, relaxar um pouco e sonhar com elas. Até porque, dividindo espaço na nossa chata alma adulta, está lá a criança que sempre seremos. É uma criança tímida porque sabe que o adulto que ela se tornou está sempre cheio de razão. Sempre tão questionador, cético e realista. Sempre tão pés no chão.

Mas essa mesma criança não perde a esperança de acreditar no bonachão sorridente que vem lá do frio, que não tem medo de altura, que adora voar em trenó e é mão aberta que é uma beleza.

A coisa aqui no Brasil não anda muito convidativa, mas seja bem-vindo, Papai Noel. A casa é sua.


O autor é editor executivo do JC

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