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João ama animais e chora quando vê, pela Internet, cenas de algum bichinho mutilado. Mais que isso, se engaja em campanhas contra maus-tratos e logo diz que será veterinário quando crescer. Na faculdade, entretanto, João se depara com as rotinas da futura profissão e percebe que amor pelos bichos não tem nenhuma relação com sua vocação. João agora enfrenta outra batalha: convencer os pais, com quem brigou pela escolha de veterinária, de que precisa recomeçar, prestando vestibular em outra área...Agora a pressão é pelo tempo. João consumiu três anos com veterinária e “não pode mais errar”.
A breve descrição é muito comum no conflito enfrentado pelos jovens na hora de decidir sobre qual formação seguir no curso superior. Especialistas apontam que a incidência de insegurança e divergência é ainda maior quando está presente o choque entre vocação e gosto, o dom em detrimento ao passatempo.
Aqui encontra-se, em boa parte dos casos, o confronto entre vocação e desenvolvimento de competências e habilidades na hora de escolher a profissão. A psicóloga Michela Kauffmann Pires, especializada em orientação vocacional, sugere uma série de estratégias para que o jovem – e os pais – não cometam erros na hora da imprescindível e importante decisão.
“Há uma fatia grande de pessoas que desde cedo têm latente uma vocação, um dom. Mas a escolha esbarra em questões culturais, socioeconômicas. A dúvida é entre ser vocação ou ser um hobby. A dúvida é se dá para tornar o que o jovem ama, como gostar muito de animais, por exemplo, uma profissão”, adverte a profissional.
Assim, desde logo, a orientação vocacional realiza trabalho de identificação das aptidões em relação à profissão pretendida. Vale pontuar que a mesma estratégia vale para os casos de jovens que não sabem qual profissão seguir.
“Nós passamos a realizar um trabalho que vê habilidades e competências. Para ver se há ou não confronto entre o que se gosta e o que se pretende fazer. Nisso, oficinas funcionam bem. E também é preciso procurar pessoas daquela profissão para mostrar ao jovem a rotina e as aptidões necessárias para que atuar naquela profissão. Para que ele se veja na profissão e não fique só com o que lhe chama a atenção”, menciona.
Ou seja, o jovem e os pais precisam ficar atentos à busca de informações que tirem o romantismo ou a “adoração” demonstrados pelo filho diante de uma situação (amor pelos animais, deslumbramento pelas telenovelas, etc). “É comum os jovens se apegarem à influência midiática diante de uma carreira. Então temos de trabalhar com a realidade dessa carreira. Para mostrar como funciona o mundo daquela profissão. Ai fica mais fácil confrontar vocação com habilidades e competências”, prossegue a psicóloga.
Em suma, a psicóloga considera que a aproximação do jovem, mesmo com talento, da rotina de trabalho daquilo que ele gosta tanto de fazer na adolescência é uma rota segura para tornar a escolha da profissão mais serena, seja para um jovem que é habilidoso com um instrumento musical, ou uma jovem que tem desenvoltura com canto logo cedo ou demonstre habilidade com artesanato, seja com alguém que mostre capacidade em desenvolver jogos eletrônicos.
Mercado tardio
É cada vez mais tarde o ingresso dos jovens no mercado de trabalho, como também é crescente, nos últimos anos, o número de jovens que ingressam mais tarde na faculdade.
“E acontece a chamada adolescência tardia, com o jovem ingressando mais tarde na faculdade. É preciso levar em conta esse fator também. Mas o ponto central, em qualquer fase, é mostrar os pontos positivos e negativos de cada carreira, seja ela qual for. Não existe carreira inteiramente ótima. Todas as profissões têm seus problemas na hora de exercer. Saber das rotinas, da realidade da profissão, elimina muita dúvida”, aborda.
“Muitos desses jovens são ótimos instrumentistas. Mas é preciso que vejam se terão compromisso diário, semanal, com rotina e responsabilidades. Uma coisa é sentar para tocar uma música, outra é compor sempre que for preciso, ensaiar todo dia”, insiste.
Kauffmann lembra que, no caso da escolha “tardia”, é maior a presença da insegurança, com todas as consequências decorrentes dela. “Este jovem é pressionado pelo tempo. Eu não posso errar mais! Já não tenho mais esse tempo. Trabalhamos com coaching nesse caso não só para a escolha, mas para a inserção mesmo no mercado, para que ele restabeleça autoestima em torno de si”, elabora.
A pressão e o conflito entre pais e filhos
A psicóloga Michela Kauffmann Pires conta que, no consultório, a queixa mais comum dos adolescentes é a de que se sentem pressionados pelos pais em relação a determinada profissão. “Eles revelam que o pai pressiona para ser médico porque ele é médico, mesmo ele adorando tocar violão, ou a mãe quer que ele faça direito porque sempre quis ter um filho promotor, ou juiz, mesmo ele se sentindo muito bem pintando quadro”, menciona.
Kauffmann sugere que o conflito é ainda mais presente quando o jovem apresenta perfil para duas áreas, uma que o pai “quer” e outra que ele acha que “ama”. “Um jovem gosta de música, outro de artesanato, mas também é bom em matemática ou raciocínio em humanas. E aqui é muito mais comum aumentar a pressão do pai com o argumento financeiro. Eles dizem para o filho que nesta área ele pode ganhar pouco e na outra ele terá muito mais possibilidade de ganhar muito”, adverte.
Neste caso, a orientação vocacional sugere que os pais sejam chamados para a conversa. “Você vai viver de vento? Amor não enche barriga!...”, são frases bastante presentes, conta. E junto com a divergência vem outros elementos ‘sentimentais’. O pai diz: “Eu passei por isso e não quero que meu filho passe”.
Mas a situação também comporta o contrário. “E tem os pais que apontam que vão bancar a escolha do filho porque passaram por isso e tiveram de se curvar ao desejo dos pais”.
Ou seja, a especialista em orientação vocacional alerta para os dois lados dessa moeda. Cada face tem seu elemento de risco. “É preciso ver que a responsabilidade não é nem do pai, nem do filho. Filho não vem com manual de instrução. É preciso colocar para o filho que não podem culpar seus pais depois se a escolha der errada. E também é preciso ponderar para o filho que ele deve buscar informação sobre a realidade daquela profissão para eliminar eventuais dúvidas. Ou seja, decidir pelo filho, de jeito nenhum. Mas também é preciso que o filho seja chamado à sua parcela de responsabilidade”, amplifica.
| Malavolta Jr. |
| A psicóloga Michela Kauffmann adverte para o risco da confusão em torno do hobby em detrimento à rotina da futura profissão |
