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A desindustrialização brasileira

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 2 min

A questão industrial brasileira vai além da vigésima queda consecutiva no desempenho mensal no Estado de São Paulo: o que está mais que evidenciado é o processo de desindustrialização por que passa o Brasil. A indústria paulista é que dá o tom do desempenho nacional e seus números são sofríveis: queda de 12,9% na comparação de outubro deste ano com outubro do ano passado. O nível atual de desempenho do setor industrial de São Paulo é idêntico ao de 2004, ou seja, foram “perdidos” 15 anos.


Estimativas apontam que a indústria brasileira perdeu em 10 anos mais de US$ 300 bilhões. É uma somatória de causas. Primeiramente a ausência de uma política industrial clara. Nos perdemos neste contexto. Sem investimentos básicos, sem canalizar recursos para ciência e tecnologia, sem inovações, o setor industrial migrou para outros países.  O país não foi capaz de instituir um programa de substituição de importação. A China se impôs e forçou a troca de parte dos produtos nacionais pela importação, mais barata, daquele país.


Operamos internamente com custos elevados. O chamado “custo Brasil” retira competitividade da indústria nacional. Se compararmos, por exemplo, os custos internos com os custos americanos ou alemães, dois países referências mundiais no setor industrial, teremos no mínimo 37 pontos percentuais a mais, ou seja, para cada 100 “moedas” gastas naqueles países, gastam-se aqui no Brasil 137.


As empresas de um modo geral e o setor industrial em particular convivem, além da elevada carga tributária, com um sistema tributário complexo. A logística é praticamente inexistente. Uma malha viária moldada em transporte terrestre encarece o produto. A ineficiência interna contribui ainda mais para queda da produtividade e não investimento em qualificação da mão de obra coloca mais custos na equação.


De certa maneira o modelo econômico baseado em consumo, que se esgotou há no mínimo dois anos, “mascarou” tudo que já se sabia do setor industrial brasileiro. Agora, sem o apetite do consumidor, com custos cada vez mais elevados, sem compradores que garantam margens de lucro a coisa se complicou ainda mais.


Uma indústria fraca é sinônima de uma economia fraca. Sua influência é de tamanha magnitude que os demais setores da cadeira produtiva padecem quando as coisas não vão bem. Vale lembrar que os melhores salários e benefícios são praticados neste segmento, isso mencionar prestadores de serviços, fornecedores de matéria-prima, entre outros.


Um setor que representou mais de um terço do PIB brasileiro e atua hoje abaixo de 30%, com tendência de queda, sem dúvida precisa de outro olhar das autoridades públicas.  Mesmo com todo marasmo da economia e da política nacional não dá ignorar o sinais deste setor. A desindustrialização brasileira está em curso.


O autor é economista e articulista do JC

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