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O menino do trem

Alexei Lisounenko
| Tempo de leitura: 3 min

No dia 17 de novembro de 1959, “O Trenzinho do Caipira” fez a sua última parada na cidade do Rio de Janeiro, exatamente na mesma estação de onde partiu em 5 de março de 1887. Estou falando do grande maquinista e alquimista dos sons Heitor Villa-Lobos, o maior expoente da música do modernismo no Brasil, reconhecido mundialmente por suas composições com escrita e timbres inovadores, além das belas melodias.


A cidade de Bauru tem algo em comum com o compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos. A história de ambos foi influenciada pelo trem. “O Trenzinho do Caipira”, talvez a sua composição mais famosa, embalou a carreira do compositor carioca enquanto a Estrada de Ferro Noroeste do Brasil tornava Bauru uma “Cidade Sem Limites”. Reza a lenda que Villa-Lobos recebeu uma herança e embarcou numa longa viagem de trem pelos lugares mais remotos do Brasil. Seu objetivo era encontrar diferentes ritmos e sons para usar em suas composições. E encontrou!


Desde criança o pequeno Villa foi incentivado aos estudos, sua mãe queria vê-lo um médico, mas seu pai, que era um músico amador, lhe adaptou uma viola erudita para que o menino pudesse iniciar os seus estudos de violoncelo. Seu desenvolvimento musical o permitiu começar a tocar em teatros, bailes e cafés. Aprendeu a tocar violão também. Em 1922 participa da semana da Arte Moderna em São Paulo e no ano seguinte inicia suas viagens pelo mundo, começando pela Europa. Leva na bagagem os sons do nosso Brasil e também as nossas cantigas populares para o mundo conhecer. Sobre as suas “Cirandas”, existe um fato interessante. Elas são versões virtuosísticas das nossas tradicionais canções de rodas, “O Cravo Brigou com a Rosa”, “Nessas Rua” etc... E muito músico, não só estrangeiro, acha que foi Villa-Lobos o criador destas belas melodias.


Como todo nacionalista e patriota, Villa-Lobos se preocupava muito com a educação nas escolas do nosso país. Sabia e pregava a importância da música na formação do jovem, e por esta razão desenvolveu um amplo projeto de educação musical utilizando principalmente o Canto Orfeônico. Levou este projeto à Secretaria de Educação do Estado de São Paulo, e após a sua aprovação mudou-se definitivamente para o Brasil. Em 1931, reuniu pessoas de todas as classes sociais paulistas e realizou uma apresentação com 12 mil vozes.


A música de Villa-Lobos é tão rica em detalhes e sons que podemos ver cores, imagens, movimentos... Faça uma experiência, ouça “O Trenzinho do Caipira” de olhos fechados, você vai sentir toda a emoção de uma viagem de trem, o apito avisando da sua partida, os primeiros embalos da locomotiva, a contemplação da linda paisagem e, por fim, a chegada à nova estação. Ou, ao amanhecer deite no coração da Floresta Amazônica e contemple o canto longo e melodioso do pequeno “Uirapuru”. Villa-Lobos é arte, é cultura, é patriotismo, é o espírito da nossa natureza bradando, cantando as suas alegrias e tristezas. “Sim, sou brasileiro e bem brasileiro. Na minha música eu deixo cantar os rios e os mares deste grande Brasil. Eu não ponho mordaça na exuberância tropical de nossas florestas e dos nossos céus, que eu transponho instintivamente para tudo que escrevo”. Heitor Villa-Lobos.


O autor é maestro

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