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Desafio à incredulidade

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Para descrever o ambiente político que o Brasil atravessa, só mesmo emprestando a “pena da galhofa e a tinta da melancolia”, de Brás Cubas. A semana começou com uma “DR” (discussão de relação conjugal) entre Dilma Rousseff e o seu vice e sucessor eventual em caso de impeachment Michel Temer. Parece com a piada daquele caçador inglês estuprado por um orangotango na selva da África. De volta ao lar, queixou-se a um amigo, não por causa da violência sofrida, mas pelo fato do macaco nunca ter lhe mandado uma mensagem, feito um interurbano ou trocado um WhatsApp.  


“Cansei” - parece ter desabafado Temer, ante de decidir queixar-se, por carta, do papel “decorativo” e “acessório” a que ele e o seu partido, o PMDB, têm sido relegados em cinco anos de aliança governativa com o PT. O vice levou um quinquênio para revelar o sacrifício expiatório a que estão condenados todos os vices, neste país. “Não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio”, narrava Brás Cubas com o ceticismo e a “agulha da imaginação” de Machado de Assis. Há uma relação dialética entre o espaço de experiência e o horizonte de expectativa. O processo de impeachment sequer chegou à fase preliminar e o clima de faroeste se instalou na Câmara dos Deputados. Urnas eletrônicas foram destruídas ou desligadas. Parlamentares pró-governo tentaram obstruir o acesso às cabines de votação. Deputados sorridentes tiraram fotos com um boneco do ex-presidente Lula vestido com uniforme de presidiário - o Pixuleco, presença cada vez mais constante nas manifestações de rua.


Depois do confronto, foi anunciada a vitória da oposição pelo processo de impeachment. Horas depois, de noite, um juiz do Supremo Tribunal Federal suspendeu provisoriamente os efeitos da votação, até que se ponha ordem na casa com um rito pré-estabelecido e mais transparente. A decisão do STF à medida cautelar interposta pelo Partido Comunista foi comemorada por ambos os lados. Surpresa. Pelo menos, uma vez instituído o modus faciendi ninguém poderá reclamar, ao depois, do botão na casa errada, o que obrigaria a desabotoar a camisa inteira. Agora, o Senado presidido por Renan Calheiros é que quer dar a palavra final sobre a instauração do processo de impeachment. Dos 81 senadores, 33 são investigados pelo STF. Tutti buona gente.

      

Enquanto isso, o espetáculo continua, mesmo que chova. O presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, conseguiu mais uma vez adiar a abertura de uma investigação parlamentar que poderá levar à suspensão do seu mandato. Foi afastado o deputado que estava à frente do processo, na Comissão de Ética. Cunha é acusado de envolvimento nos escândalos de corrupção da Petrobras, de ter contas não declaradas na Suíça e ter mentido aos seus pares. Há mais de um mês o Conselho de Ética tenta dar início à análise do pedido do Psol e Rede de suspensão do mandato de Cunha, mas as sessões foram adiadas graças a manobras do presidente da Câmara investigado pelo Ministério Público.


Do outro lado da Praça dos Três Poderes, Dilma Rousseff se defende: “Não paira contra mim nenhuma suspeita de desvio de dinheiro público, não possuo conta no Exterior”. O pedido de impeachment que ela diz ser de autoria do PSDB se baseia não em atos de corrupção, mas em irregularidades fiscais. Nas “pedaladas”, o governo deixou de repassar dinheiro a bancos estatais, forçando-os a custear de forma indireta programas sociais e de ajuda a empresários. Na prática, trata-se de um empréstimo proibido pela Lei de Responsabilidade Fiscal. Dilma também editou decretos sem número que abriam crédito suplementar, sem autorização do Congresso. Nos últimos dias, Dilma passou a justificar as “pedaladas”. Admitiu a promiscuidade entre o Tesouro Nacional e a Caixa, mas quer ser absolvida porque foi “pelos pobres”. O importante é que “nós fomos capazes de fazer o maior programa habitacional da história, e por isso somos responsabilizados”.


Toda essa ópera bufa deixa de ter importância diante da recessão em que o país está mergulhado. Seja quem for o presidente, o desafio será o mesmo: destravar o impasse político e preparar o país para voltar a crescer. Errou na eleição? Paga. Voto tem consequência. Segundo turno é para votar no menos pior, não em quem o eleitor quer. A solução definitiva poderá vir das urnas, em 2018, se o eleitor tiver aprendido. Delfim Neto, com seus 87 anos e muita experiência acrescenta que economia é uma ciência subordinada à psicologia. É expectativa. Se não houver uma vela na escuridão, não rola. O resto é o exótico, como vinho na cara em festa da firma.


O autor é jornalista e articulista do JC

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