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Um Natal diferente aos mais idosos nas residências

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 12 min

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"Muita conversa e troca de experiência. Passeios e até um convite para vir morar comigo", Sílvia Noeli Trates Cardozo Moradora de Duartina

Um comercial de Natal da rede de supermercados alemã Edeka está arrancando lágrimas de todos aqueles que acessam as redes sociais, especialmente no Facebook. Emoção total e atenção voltada para os idosos. Se transformou em viral, quer dizer, não dá para contar o número de acessos. Para quem não viu, um senhorzinho, cansado de esperar que os filhos deixassem seus afazeres e passassem o Natal com ele, manda um comunicado sobre sua morte para todos. Quando os filhos chegam à casa do pai, ele os recebe com a ceia de Natal. Foi a única maneira que o idoso encontrou de reunir a família. Emoções e lágrimas à parte, na realidade muitos idosos pelo país todo estão abandonados em asilos, casas de repouso e até dentro de suas próprias casas. Na região de Bauru, as entidades se mobilizam para fazer o Natal dos abrigados mais alegre com menos solidão.

Projetos que contemplam a convivência do idoso com a família dele neste período do ano, padrinhos e madrinhas que levam presentes para idosos abrigados e até famílias que “adotam” um idoso para curtir as festas em sua casa estão entre as medidas que protegem o idoso da solidão nesta época do ano.

Na cidade de Duartina (38 quilômetros de Bauru), duas pessoas se empenharam e conseguiram levar idosos, que não eram seus parentes, para passar o Natal com suas famílias. A experiência foi tão boa que as voluntárias pretendem repetir a dose este ano. “Muita conversa e troca de experiência. Passeios e até um convite para vir morar conosco eu fiz”, diz Sílvia Noeli Trates Cardozo.

Para Ana Carolina Licrusi Maranho, 37 anos, levar duas idosas para passar o Natal com a família dela foi uma experiência inesquecível. “Elas conversaram muito com minha avó de 80 anos. Lembraram do tempo em que eram jovens e de seus maridos que já morreram. Este ano vou levar um homem do asilo. Foi ele que me pediu. Ficou sabendo que eu moro em uma chácara e quer ir para lá.”

Os idosos de Duartina vão festejar a data antecipadamente junto com os abrigados de Cabrália  Paulista (45 quilômetros de Bauru). A festa dos idosos será feita em conjunto. Isso porque os abrigados de Cabrália fizeram uma visita aos de Duartina e, neste mês, os de Duartina irão para Cabrália. O intuito é proporcionar o entrosamento entre eles, além é claro de ser um passeio.

Um almoço, um farto churrasco, organizado e bancado pelo Rotary Club de Macatuba (46 quilômetros de Bauru) garantiu a alegria dos abrigados da cidade. Após a refeição, eles jogaram bingo e comeram guloseimas. Todos receberam touca de Papai Noel e curtiram muito a festa.

A “adoção” de padrinhos e madrinhas para cada um dos idosos é uma maneira de garantir um presente material e o carinho da comunidade para com aqueles que já não possuem família ou para aqueles que foram abandonados por ela. Em Agudos (13 quilômetros de Bauru) e em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) essa estratégia foi adotada.

Em Lençóis, 10 padrinhos do ano passado desistiram. Mas, as redes sociais possibilitaram que outros 10 voluntários fossem chamados para a tarefa.

Funcionária ‘adota’ idoso em Duartina

Sílvia Cardozo conta que a experiência foi enriquecedora de levar um abrigado do Recanto Vicentino à sua casa

Sílvia Noeli Trates Cardozo, 51 anos, trabalha em uma creche-escola na cidade de Duartina e no Natal do ano passado resolveu levar para casa um dos abrigados do Recanto Vicentino Abrigo para Velhos. Segundo ela, foi uma experiência enriquecedora. “Ele não deu trabalho algum. Todos aqueles que estavam na festa gostaram dele. Antes de devolvê-lo ao abrigo eu perguntei se ele gostaria de vir morar conosco. Ele respondeu que só queria vir passear. Este ano, se ele quiser vir, vou buscá-lo”, comenta.

A história começou quando a funcionária da creche conheceu o projeto de “adoção” no Natal de um idoso. “Eu já tinha experiência. Cuidei de meu pai que já morreu. Na minha casa são quatro adultos. Meus filhos me apoiaram, assim como meu marido. O abrigado que veio passar o Natal conosco tinha morado na região onde moro. Gostamos tanto da presença dele que fomos buscá-lo no Ano-Novo.”

A mulher conta que o marido levou o idoso para rever os amigos dele. “Ele foi rever os amigos que ele tinha em uma chácara vizinha a minha. Meu marido foi à cidade fazer compras e ele foi junto. Ele foi tratado como um vô da família. Foi uma experiência boa. Ele se comportou muito bem, fez as refeições conosco, contou as histórias da família dele. Meus filhos também passearam com ele. Ele adorou.”

A assistente social Ana Carolina Licursi Maranho, 37 anos, é outra moradora de Duartina que, no ano passado, levou abrigados para passar o Natal com a família dela. “Eu moro com meus pais e uma de minhas avós, com 80 anos mora com a gente. Tenho uma outra avó de 91, que não sai da casa dela.”

Ela confessa que, resolveu levar duas idosas para casa, porque considera muito triste passar datas festivas como o Natal, sozinha. “Foi uma experiência bacana. Deixei o quarto arrumado e quando elas sentiram sono foram dormir. Fizeram muita companhia para minha avó. Trocaram muitas experiências de vida. Uma delas era nordestina e, como minha avó nasceu na Bahia, tinham muito assunto. Falaram até dos maridos que já morreram.”

Na festa de Natal da casa haviam crianças. “Meus primos que foram passar o Natal conosco curtiram as idosas como avós. Este ano vou levar um homem. Ele me pediu em um dia que fui fazer visita. A idosa que veio o ano passado contou para ele que moramos em uma chácara e ele se interessou.”

Parentes ficam juntos no período das festas

O Recanto Vicentino Abrigo para Velhos de Duartina acolhe 23 idosos, 12 deles vão passar o Natal com suas famílias ou parentes, explica a assistente social da entidade, Susimara Sonego Degaspari. “Tem alguns que mesmo tendo parentes, embora distante, preferem não sair da entidade. Um deles recebe a visita semanal do irmão e não quer ir. É avesso a festas. A gente respeita.”

Os abrigados que não têm família vão com os voluntários que os “adotam” nesta época do ano. “Eles vão se quiserem. Os que saíram da entidade para passar o Natal com voluntários, amaram e querem ir de novo. Foi uma situação nova para eles.”

Segundo ela, o mês de dezembro é cheio de atividades para os abrigados. “Vamos levá-los a um shopping de Bauru. No mês passado fomos conhecer o Termas de Piratininga. Vamos para Cabrália Paulista em uma festa que será feita lá.”

Toda sexta-feira, o pessoal do Cras desenvolve o Projeto Novo Horizonte. “Eles reúnem os idosos e fazem bingo e outras atividades. Cada semana é uma ação. Quando está muito calor, eles usam a piscina. Toda última sexta-feira do mês o Cras vem para o recanto onde é comemorado os aniversariantes do mês com bolo, guaraná. É uma oportunidade deles se relacionarem com outras pessoas.”

Voluntárias buscam ‘padrinhos’

A Vila Vicentina de Arealva (41 quilômetros de Bauru) tem 28 idosos. Vários são cadeirantes e outros andam com andador. Voluntárias de Bauru que promovem atividades com eles promoveram uma ação inesperada e maravilhosa na visão da presidente da casa, Angela Ziraldi. “Elas apresentam teatro aqui na vila. Fizeram festa junina. E neste final de ano perguntaram aos abrigados o que eles queriam ganhar do Papai Noel. Cada um escolheu um presente. Pediram ventilador, boneca, chinelo, violão dentre outras coisas.”

As voluntários foram em busca de padrinhos para não decepcionar os abrigados. “Elas procuraram e encontraram pessoas disposta a presentear os idosos. Essa ação é maravilhosa porque eles vão ficar muito felizes.”

Asilo Recanto de Macatuba/Divulgação
Entidade de Macatuba promove festa na casa de amparo à velhice

Rotary faz churrasco para os idosos em casa de amparo

As festividades de Natal na Sociedade Beneficente de Amparo à Velhice já começaram. O Rotary Club de Macatuba patrocina um churrasco e muitas guloseimas para os idosos. Uma reunião com familiares foi feita para que os abrigados passem o Natal entre parentes.

A diretora administrativa da entidade, Carmem Aparecida Gonçalves Pafetti, explica que a preocupação com a solidão dos abrigados e em cumprimento ao Estatuto do Idoso promoveu uma parceria com o Ministério Público. “Quem tem família deve escolher se vai levar no Natal ou Ano-Novo, mas terá que levar. As visitas também são ‘quase’ obrigatórias para saúde dos idosos. Trabalhamos muito com a família no sentido de conscientizá-los. Temos um livro de registros das visitas. Se não aparecem por duas semanas nós vamos atrás para saber o que está acontecendo.”

Na entidade, neste período, só ficarão os abrigados que não têm família. “Alguns eram andarilhos e não têm família. Há ainda aqueles que perderam todos os familiares. Esses ficarão na entidade. Aqui vai funcionar normalmente. No dia de Natal terá ceia, mais cedo, para eles com os funcionários plantonistas.”

Os integrantes do Rotary garantem o almoço e muitas guloseimas. “Eles fazem bingo com bolo e refrigerantes. É um dia dedicado aos idosos. Eles trazem touca do Papai Noel para cada um dos 34 abrigados. Temos 12 acamados.”

Mais próximo ao Natal, os idosos terão a festa com as madrinhas. “Elas trazem presentes e depois dançam com os abrigados. A tarde tem bolo, salgado e refrigerante.”

Idosos de Cabrália vão receber visitas

O mês de dezembro é especial para os abrigados da Colônia Frederico Ozanan da cidade de Cabrália Paulista (45 quilômetros de Bauru). Eles vão receber a visita dos abrigados de Duartina para uma festa de confraternização. Segundo a assistente social Ariane Aparecida Rodrigues, a maioria dos abrigados não têm parentes. Ela lembra que a visita dos idosos de Duartina vai exigir uma programação fora do normal.

Lençóis busca madrinhas na comunidade

Funcionárias do Lar Nossa Senhora dos Desamparados utilizam até as redes sociais para conseguir na comunidade voluntários

Panoramio/JC Imagens
Lar Nossa Senhora dos Desamparados de Lençóis Paulista busca ajuda da comunidade para madrinhas darem presentes

Todo ano os funcionários do Lar Nossa Senhora dos Desamparados buscam na comunidade as madrinhas para os 88 abrigados da entidade. São elas que presenteiam os idosos. Este ano, 10 madrinhas desistiram. As funcionárias apelaram para as redes sociais, especialmente o Facebook. Em pouco tempo, as “vagas” foram preenchidas e a festa com presentes está garantida.

“Nós colocamos no Facebook que faltavam 10 madrinhas e que quem se interessasse deveria entrar em contato conosco. Em pouco tempo preenchemos as vagas. O quadro está completo”, explica a assistente social da casa, Edvani Toledo. Segundo ela, as madrinhas têm compromisso só no Natal.

Ela admite que o encontro de pessoas mais jovens com os idosos é tão prazeroso que muitos deles passam a fazer visitas mensais. “Tem muitos que retornam para visitar seus ‘afilhados’. Este relacionamento faz muito bem ao abrigado que se sente importante e prestigiado.” 

O asilo Congregação das Irmãzinhas deixa a critério do abrigado escolher seu presente. “Nós perguntamos o que eles querem ganhar ou aquilo que mais necessitam. Alguns escolhem fraldas, outros, camisas, vestidos, enfim, cada um pede o que deseja. Os homens que aqui somam 45 gostam de rádio portátil. Com o aparelho eletrônico se divertem. As mulheres num total de 43, pedem vestidos e sapatilhas, em sua maioria. Já teve idoso que pediu aparelho celular.”

A assistente social lembra que a “casa” está cheia. “Temos 88 abrigados, 45 homens e 43 mulheres. A média de idade é 70 anos, mas já tivemos uma mulher de 102 anos. Ela morreu no final do ano passado.”

Alguns parentes dos abrigados aparecem para fazer visitas. “Outros não. Temos uma grande parte deles que estão abandonados mesmo. São pessoas que perderam os parentes próximos. Outros que nem sabem onde estão os familiares. Aqueles que não têm referência familiar sofrem. Nesta época eles começam a falar mais da família, especialmente dos filhos. Há ainda aqueles que não sentem mais falta ou que as atividades acabam suprindo as necessidades deles.”

Clamam pelos filhos

A lista dos abrigados que sentem muita saudade da família é liderada pelas mulheres-mães, ressalta a assistente social. “Os homens reclamam a falta de visita, mas como são mais prático, superaram mais rápido.”

O mesmo não ocorre com as mulheres, especialmente as mães. “Elas reclamam a falta de visitas. As mães choram quando os filhos não aparecem. Elas sentem profundamente a falta dos filhos. Elas dizem que criaram os filhos e não imaginavam que ficariam sós no final da vida. É muito triste.”

Mãe fica sem comer

Uma idosa do asilo, segundo a assistente social que resguardou a identidade, sofre demais com a ausência do filho que vive nas ruas da cidade e é usuário de drogas. “Tem um caso aqui que ela sofre muito quando o filho desaparece. Ele some de vez em quando. Nesses períodos ela chora todos os dias e na sequência, para de comer.”

A mulher fala muito do filho. “Nós vamos atrás dele quando isso acontece. Procuramos nos albergues, nas casa de atendimento não só daqui como da região. Assim que a gente encontra e ele fala com ela, tudo volta ao normal. Ela volta a se alimentar. O problema é que o filho não tem residência fixa. Algumas vezes demoramos para encontrá-lo.”

Divulgação
Vagas - por meio do Facebook, entidade de Lençóis pediu para voluntários ajudarem a dar presente

Agudos manda convites

Para tornar o Natal dos abrigados da Vila Vicentina de Agudos, a entidade faz um almoço e uma tarde festiva para eles em data antecipada. Os padrinhos participam e presenteiam seus “afilhados”.

A presidente da entidade, Reonilda Sobrinho Alves, explica que, antes da data, foram enviados convites aos padrinhos que “adotaram” um idoso. “São 47 abrigados e todos têm padrinhos. Não temos acamados. No dia do almoço os voluntários chegam e presenteiam seus escolhidos. Depois da refeição eles participam de atividades junto aos abrigados.”

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