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A derrota do chavismo e da estupidez 

Carlos D?Incao
| Tempo de leitura: 4 min

Visitei Caracas quando Hugo Chavez estava doente. Vi uma cidade dividida entre o ódio e o amor em relação àquele político. Confesso que nunca havia simpatizado com esse personagem por sua auto-vinculação à imagem de Bolivar. Como historiador não consegui ver nenhum elo entre esquerda/socialismo com esse personagem a não ser através da ignorância ou da falsificação histórica. A bem da verdade, sempre tratou-se de um líder associado ao nacionalismo conservador da Venezuela…


Ao me informar com colegas ligados à esquerda sobre esse absurdo, ouvi que se tratava de uma “tática ideológica”, qual seja: se valer de uma imagem construída pela direita, modificá-la e utilizá-la para avanços no campo socialista. “Que estupidez…” - pensei. No campo revolucionário, abdicar da verdade como arma política é um suicídio... Para mim, tratava-se de uma clássica crônica de uma morte anunciada…


Andando pelas ruas de Caracas e visitando as obras do “socialismo bolivariano”, não vi nada de socialismo a não ser suas deturpações mais grotescas e um modelo de governo destinado a ruína. Entrei em um prédio construído por Chaves e dado de presente aos mais pobres. Era uma terça-feira por volta das 15:00h. O prédio parecia lotado de gente desocupada. Em um dos apartamentos que visitei, estava a família inteira assistindo televisão esperando um de seus membros chegar com mantimentos distribuídos de forma gratuita, em um mercado do Estado…


O meu guia “chavista” se orgulhava e se entusiasmava em poder mostrar aquela realidade… Antes dele, porém, havia me encontrado com um sem número de trabalhadores que odiavam justamente o fato de o governo dar assistência aos “carentes” sem exigir qualquer contrapartida e, por essa razão, se sentirem abandonados e desprestigiados pelo chavismo. O equívoco estava em curso. A lógica do “chavismo” era tentar construir uma sociedade nova ajudando os mais carentes… Isso pode ser qualquer coisa, menos a base de construção de uma sociedade socialista. Caso fosse esse o objetivo, o governo começaria por privilegiar em primeiro lugar a classe trabalhadora em suas posições mais avançadas, isto é, engenheiros, médicos, técnicos especializados, administradores, arquitetos, professores, etc…


Afirmar que esses trabalhadores já vivem condições privilegiadas é uma miopia grave. A maior parte desses tem histórias de grandes sacrifícios, tem origem familiar humilde e atingiram melhores posições na sociedade capitalista com muito trabalho e momentos de privações. O mesmo vale para um número enorme de pequenos e médios empresários. De uma forma ou de outra, como afirmava Lênin, não se constrói uma sociedade socialista desviando preciosos recursos econômicos aos vagabundos e virando as costas a quem trabalha duro todos os dias.


O “chavismo”, enfim, era apenas uma política de governo centrado no distributismo, no assistencialismo e em uma visão equivocada de que a sociedade tinha - antes de qualquer coisa - uma divisão pautada por renda e não por classes (um libelo do pós-modernismo). Os governos antecessores geraram uma multidão de pobres, o suficiente para dar forças a um governo mais inclusivo que poderia manter essa lógica enquanto houvesse uma cotação elevada no preço do barril de Petróleo, única renda significativa daquele país.


O chavismo nunca ganhou o apoio da classe trabalhadora mais desenvolvida. Na ocasião sentenciei, “Isso vai acabar. Não vai dar certo. É só esperar a queda do preço internacional do petróleo que, em seguida, teremos o início de um boicote econômico promovido pelos detentores dos meios de produção. Aí o Chaves já era…”


Para piorar o cenário, Hugo Chávez acabou por falecer e deixou como sucessor um dos mais apáticos, patéticos e estúpidos políticos da história da América Latina: Nicolás Maduro. Um homem capaz de apelar - durante a campanha presidencial - ao espírito de Chavez que lhe teria aparecido em um passarinho…O culto ao Hugo Chávez se tornava religioso… Simplesmente lamentável…O último contato que tive com a Venezuela foi quando Maduro anunciava que iria doar cartões de crédito para toda a população pobre da Venezuela, para que a mesma pudesse comprar o que bem entendesse e pudesse viajar nas férias. Resultado: um ano depois, 2/3 do Congresso se tornou da oposição. Pronto. Acabou o “chavismo”. Na próxima eleição presidencial teremos a vitória de Caprilles do MUD e a direita tradicional voltará ao poder.


Caso tenha sabedoria, permanecerá lá por muito tempo. Nessas duas últimas décadas, o “socialismo” bolivariano teve a virtude de afugentar o capital da Venezuela, gerar um caos na política cambial, criar um estado inflacionário e possibilitar um universo de escassez dos mais diversos gêneros, além de não superar problemas básicos como a violência urbana e o trânsito caótico das grandes cidades. Não mudou as relações sociais de produção, não expropriou o grande capital, não socializou os meios de produção, enfim… De nada foi socialista… Foi só uma piada de mau gosto…


O autor é professor de história/USP e diretor do Instituto de Ensino D’Incao

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