Articulistas

Compro som original

Alexandre Albertini Benegas
| Tempo de leitura: 3 min

Desnecessário estar em boa conservação. Basta tocar. Tocar pessoas. Por isto, busco  algo sem olvidar ouvidos de singelos momentos da minha vida. Até porque dizer em som oportuniza o que introvertidos confessamos no silêncio dos olhos. Reconhecendo o som do  amor ser reclamante de eco, parto para o parto, com afetiva recordação de minha mãe. Pioneira na comunicação via a cabo, umbilical amor dialoga a mãe pelo esperado bebê. Desconheço  existência de um amor  tão  imperecível, tão incondicional. Compreensível, portanto, sublime amor maternal ser responsável por acionar o volume de um dos sons mais importantes da vida. O som da batida do coração.


Apesar disto, nem toda emoção é tom com som. Quantas verdades propositadamente emudecidas nas inverdades da fala ideologicamente intencional ! Fora das comportadas informações escolares,  aprendi, isto é, ouvi da respeitada  socióloga, professora doutora Ana Cristina Juvenal da Cruz, que grande parte dos imigrantes vieram  pagos pelo Estado para branquear a população brasileira. Na cor do preconceito, sugiro a indicação literária do escritor Frantz Fanon, em “Pele Negra, Máscaras Brancas”. Isto explica o porquê de a nossa educação ser racializada. Solitária nos dados, a História é  acompanhada de contradições.


Ainda assim, nem tudo é som. Titãs à parte, existem homens primatas disfarçados de gente. Gente negligente. Gente inconsequente, com seus ensurdecedores motores nervosos, berrando contra o nosso sossego. Também haja pedra nesta selva. Para piorar, sem recurso para minha surda insatisfação, avisto, em meu trajeto habitual, informativa placa:”Animais na pista.” Imediatamente reduzo a velocidade, pensando encontrar algum equino ou bovino, quando a minha muda surpresa muda minha comportada atenção, ao avistar primatas travestidos de homens, discutindo sobre afoita ultrapassagem realizada.


Como se não bastassem os ginecológicos xingamentos no trânsito, capazes de fertilizarem os mais reservados e descuidados ouvidos, sem o constrangimento da audição precoce, audíveis alarmes penetram, auricularmente, nossa frágil insegurança, como certificado do iminente medo, como atestado do constante  desassossego. Semelhante frequência sonora ondula a maioria dos discursos políticos como ruídos. A  sucessivas descobertas de corrupção, um disparo, um estouro. Barulhos comprovadores de quanto o poder público engravatado, de gel alinhador, do gabinete seccionado, sob o refrigério do ar condicionado, inaudível tornou-se ao clamor social. Entre a demagogia da fala decorada e a logorreia da fala injustificada, intoleráveis decibéis contrastam com o silêncio omisso, ardiloso, do falacioso desconhecimento proposital. Àquele, tchibum, que nada no fétido rio da malversação do dinheiro público, por nada como comprovar nada.


Um som contestador também tem ganhado as ruas recentemente. Ora grave, ora agudo, estridente insatisfação popular berrou contra a histórica corrupção governamental. E neste som politizador, a nota musical tem razão de existir, ou melhor, de ouvir, quando intenciona melhoramento coletivo. Quando grita para um sujeito político assumir o predicado de seus atos, evitando ficar, com voz passiva, oculto. Quando verbaliza para o poder público honrar com seus compromissos como gestor para o bem comum, ainda que incomum seja.


Por outro lado, gostaria, como educador, de ouvir dos estudantes a fala engajadora e questionadora dos porquês e para quês factuais. No cotidiano escolar e  universitário, peço-lhes mais ponto de interrogação e menos reticências e pontos finais. Copistas, representam, na maioria, o volume alto da carroça teimosamente vazia. Pudera! Ao escreverem, vergonhosamente, desapontam o lápis e todo o raciocínio, agora emudecido, por  tanta decoreba por metro quadrado. Entulhados de informações livrescas e apostilares, alimentam a fornida fonte fordista dos  reprodutores de discursos em curso. Mal leem, mal ouvem, mal veem. Desta forma, preocupa-me a insistência de um resignador barulho. O barulho da obediente passividade.O barulho, paroxítono e paradoxal, do silêncio. Compro som original.


O autor é professor de Língua Portuguesa de colégios e universidade, com doutorando

em Letras pela Unicamp.  

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