E continua o impasse entre o técnico e o político. Explico melhor. O técnico, representado pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, reza a cartilha ortodoxa e indica que uma das maneiras de controlar a economia, gerando credibilidade e confiança, entre outros, é ser firme no controle das contas públicas. Esta firmeza está refletida na busca de sobras primárias, ou seja, no esforço que o governo federal deve fazer para gastar menos do que arrecada. É a chamada meta fiscal com superávit.
O político, representado pela presidente da República Dilma Rousseff, é mais flexível. Entende que mesmo não conseguindo sobras primárias, mas uma vez aprovado o orçamento pelo Congresso Nacional, as coisas podem seguir sem maiores problemas.
Na prática, a discussão gira em torno do quanto economizar da arrecadação, auxiliando no pagamento dos juros da dívida pública e, mesmo sem conseguir reduzir o endividamento público, sinalizar aos agentes econômicos austeridade na condução das finanças públicas. O ministro Levy defende uma sobra primária (receitas menos despesas, sem computar o pagamento de juros da dívida pública) de no mínimo 0,7% do Produto Interno Bruto. Já a presidente Dilma entende que as sobras devem ser flexíveis, ou seja, flutuar entre 0% e 0,5% dependendo do nível de arrecadação.
É evidente que neste jogo de braço fico com o lado técnico. O que deve nortear as sobras primárias não são as receitas públicas e sim a contenção de gastos. Por vezes é preciso cortar na pele para demonstrar que o país quer trilhar um caminho seguro no tocante à sua recuperação econômica.
Quando avaliamos as variáveis que indicam o caminho que a economia está trilhando, três questões não podem ser ignoradas: meta fiscal austera, controle da inflação e câmbio flexível. Por sinal, são os pilares de qualquer avaliação de risco em relação ao país. Neste momento, somente o câmbio flexível é que está em curso, pois teremos déficit fiscal na ordem de R$ 120 bilhões e a inflação está bem acima do limite máximo fixado pelo próprio governo (6,5% ao ano de limite de meta contra inflação em doze meses acima de 10%), por isso é fundamental gerar superávit primário para 2016 e com ele auxiliar no combate à inflação, resgatando, como já colocado, a confiança dos agentes econômicos.
No jogo entre o técnico e o político, o indicativo é que técnico peça demissão do time caso sua estratégia não seja considerada, afinal, seria para o ministro Levy o mesmo que rasgar sua biografia, por sinal muito elogiada antes de assumir o mais importante posto da economia brasileira.
Para ser sincero, é hora de fazer o que tem que ser feito, pois o jogo político, como o travado em todas as esferas do poder, só prejudica o grosso da população, esta sim esperando com ansiedade a recuperação da economia, com ela a recuperação de seu emprego, renda e, diria mais, de sua dignidade. Homens públicos: mais espírito coletivo, por favor. Que seja feito o que tem que ser feito!
O autor é economista e articulista do JC