O Projeto Literatura Fazendo Gente é um instrumento valioso para as crianças de zero a cinco anos e para os pais da cidade de Pirajuí (58 quilômetros de Bauru). No Centro Municipal de Educação Infantil Primeiros Passos, o V Sarau homenageou desse ano Maurício de Sousa pelos seus 80 anos. O encerramento do ano letivo dos 200 alunos celebra o especialista em história em quadrinhos.
No ano passado, as homenagens foram para Monteiro Lobato, comenta a diretora da Cemei Primeiros Passos, Fabiana Maria Corsi de Oliveira. “Monteiro Lobato era mais literatura. Este ano, vamos contemplar as histórias em quadrinhos. No Sarau contamos com a presença da Mônica, Cebolinha, Cascão e Magali.”
O projeto, segundo ela, abrange os alunos do berçário até a etapa II que antecede o primeiro ano do ensino fundamental. Cada criança aprende dentro das suas possibilidades. “Nesse período, as crianças terão contato com pelo menos cinco autores diferentes. Isso é bom porque quando ela for para o primeiro ano estará com a oralidade preparada. Vai conhecer vários gêneros literários e a biografia dos autores.”
Ana Clara Nunes tem só 4 aninhos e já declama poesias. Junto com Lucas de Almeida Martins, de cinco anos, ela faz um ‘dueto’ para declamar ‘A estrela’, de Manoel Bandeira. Os dois declamam com simplicidade e no final vão logo dizendo de quem é a poesia.
Mãe de Ana Clara, Dulciele Nunes de Melo garante que nunca ensinou literatura em casa para a única filha. “Faz dois anos que ela estuda aqui na Cemei Primeiros Passos. Foi ela quem ensinou poesia. Atualmente, lemos com ela. Ela levou a leitura para dentro de nossa casa. Aprendeu muito por aqui. Filha única, ela consegue dividir os brinquedos e conta com muitos amigos.”
A mãe do Ângelo, de quatro anos, Rosilene Custódio Jorge, diz que o filho curte participar do Sarau da escola. “Ele declama as poesias e sabe bem quem é o autor. Eu gostei do projeto que leva ensinamento, não só a ele como a todos lá de casa.”
Ana Beatriz Fernandes Silva, 5 anos, é a verdadeira porta-voz do projeto. Ela tem as poesias na ‘ponta da língua’. Sabe todos os autores dos versos e trovas que recita, além de ser simpática, é claro. O Nicolas Gustavo Oliveira da Silva tem cinco anos e é especial. Especial em tudo, até na poesia. Frequenta a classe etapa I da professora Selma Tânia Alves Trotti. Ele é um exemplo de que, com carinho, as crianças especiais conseguem. Ele declama poesias e oferece sorrisos.
Poesia é um ‘pulo’ da dura realidade para o mundo de fantasia, diz professora Maria José
Para quem vive uma dura realidade, a poesia é um alento, uma alegria. É um ‘start’ para um mundo melhor, o mundo da fantasia, onde tudo é possível. Para a professora Maria José de Souza Rossi, o projeto “Literatura Fazendo Gente” abre um leque de oportunidades para trabalhar com as crianças. “Com poesia, nós trabalhamos a oralidade, linguagem e desinibição. Há uma interação total dos alunos. Eles falam palavras que até eu fico surpresa. Quando isso acontece, anoto para trabalhar com ela depois.”
A professora lembra que logo nos primeiros dias de aula a poesia faz parte das atividades dos alunos. “Começamos a trabalhar a poesia dentro da sala de aula. Passamos pelos versinhos e para as rimas. Percebi que eles começaram colocar as palavrinhas deles no meio das poesias. Isso foi envolvendo a sala toda. Então começamos a fazer nossas próprias poesias. Um incentivo à criatividade.”
Considerando que os alunos dela não são alfabetizados, têm só cinco anos, ela explica que escreve na lousa o início de uma poesia e dá a entonação. “Eles acham a próxima palavra para formar uma rima, por exemplo. Eles não sabem ler, mas reconhecem algumas palavras, o que é trabalhado durante o ano todo.”
A professora Ester Angela Castelani, do maternal II, usa a repetição com seus alunos para que eles fixem a poesia. “Eles não sabem ler e nem escrever, têm entre três e quatro anos. Desde o início do ano eu colo umas poesias na parede. Falo todos os dias a mesma poesia. No começo uma, depois duas e três. Hoje já sabem em torno de 40 poesias.”
Ao declamar as poesias, a professora fala sobre o autor dela. “Todas as poesias eu ensino com o autor. A poesia Arco-Iris é da Clarice Pacheco. As Borboletas é do Vinícius de Morais. Eles falam com perfeição, tanto a poesia como o nome do autor. Associaram. Falando todos os dias, a fixação fica mais fácil.”
A professora frisa que a maioria dos pais não tem o costume de declamar poesias em suas casas. Muitos trabalham fora e nem lêem. “Então são as crianças que levam para dentro de suas casas a leitura, a poesia. Eles aprendem com as crianças. Muitos agradecem, acham maravilhoso ver o filho declamar poesia.”
Maleta Mágica
Cada sala tem uma maleta mágica do Projeto Literatura Fazendo Gente, em Pirajuí. Semanalmente a maleta ‘viaja’ para a casa de um aluno, através de um sorteio. Recheado com um livro para que os pais leiam para a criança e também dos desenhos feitos a partir de outras histórias, a maleta chega até as famílias. É uma maneira de fazer com que os pais ou parentes dessa criança dediquem alguns momentos para ele. Contem uma história e vejam como ele entendeu as histórias contadas em classe. Os desenhos feitos pela criança acompanham o livro.
O registro da história é feito através do desenho, porque eles ainda não sabem ler. Pelos desenhos, é possível conhecer a história. Eles começam com um risco, rabisco. No final do ano desenham os animais com os membros. Desenham a cabeça, o pé. “Teve um aluno que desenhou perfeitamente um jacaré”, diz a professora Maria de Souza Rossi.