Articulistas

Meu caro amigo

Isabel Cristina Miziara
| Tempo de leitura: 3 min

Em 1976, o LP “Meus caros Amigos”, do talentoso Chico Buarque de Holanda, fez um sucesso estrondoso, com músicas e melodias maravilhosas e inteligentes nas quais o jogo de palavras, característica marcante do artista, encantava os enamorados e satisfazia os anseios daqueles que desejavam falar sobre o governo, seus mandos e desmandos, mas não podiam. Assim, com letras repletas de eufemismo, o artista criticava o momento sócio-político-econômico no qual se situava o país, comandado, à época, pelo general Ernesto Geisel, 4º presidente do regime militar (1974-1979). Coincidentemente, neste mesmo ano, envolvendo esse presidente, aconteceu a explosão da avenida Nações Unidas, recém-inaugurada, numa sexta-feira 13, que, por pouco, não atingiu o carro presidencial.


Bom, isso tudo aconteceu há quase 40 anos e me atrevo a fazer esse registro não para ser saudosista, mas para comprovar, preto no branco, como o mundo dá voltas e a história se repete, com adaptações aos tempos atuais, mas sem grandes alterações. Neste final de semana, ganhei de uma bela amiga um CD recheado com as lindas canções do Chico e para relaxar dediquei um bom tempo a ouvi-lo e me deparei com a música “Meu caro amigo”, na qual o autor/cantor conta a um amigo, que por certo está fora do país, como andam as coisas por aqui.

Atrevendo a fazer dueto com o Chico, comecei a cantarolar, prestando muita atenção na letra para não o decepcionar, e me dei conta de seu caráter atual, e transcrevo aqui alguns trechos [...] Aqui na terra tão jogando futebol/Tem muito samba, muito choro e rock’n’roll/Uns dias chove, noutros dias bate o sol/Mas o que eu quero é lhe dizer que a coisa aqui tá preta [...] Muita mutreta pra levar a situação/Que a gente vai levando de teimoso e de pirraça [...] É pirueta pra cavar o ganha-pão/Que a gente vai cavando só de birra, só de sarro [...] Meu caro amigo, eu quis até telefonar/Mas a tarifa não tem graça [...] Muita careta pra engolir a transação/Que a gente tá engolindo cada sapo no caminho [...]


Pois é, hoje somos a terra do futebol quase em descrédito, temos pouco choro e muito funk e sertanejo, a coisa continua preta, tem muita mutreta, fazemos piruetas pra cavar o ganha-pão, as tarifas não têm graça, sejam de telefonia, energia elétrica, água... a inflação, dizem os economistas, chega à casa dos 10% ou mais, em 1976 bateu em 10,3%... e “a gente tá engolindo cada sapo no caminho”...


Assim justifico o título do pretenso texto, quantas voltas demos e se, em alguns setores, temos a impressão que não evoluímos, em outros parece que retrocedemos. Quando eu era jovem, ouvia meus pais comentarem sobre os perigos da inflação e de se falar mal do governo militar. Agora somos livres para emitir nossas opiniões sobre governo e governantes, sejam elas favoráveis ou não. Por outro lado, espantosamente, voltamos a discutir a inflação e a temer o desemprego. Se continuarmos com este andar, logo, logo voltaremos a estocar comida nos freezeres e nas despensas, como já fizemos no passado recente, pois nunca sabíamos que surpresas nos reservariam os preços dos supermercados.


Voltando ao Chico, “Meu caro amigo, eu não pretendo provocar/Nem atiçar suas saudades/Mas acontece que não posso me furtar/A lhe contar as novidades”...


A autora é professora


 

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