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O Museu (e a memória) em chamas no Brasil

Bruno E. Sanches
| Tempo de leitura: 3 min

Na virada dos anos 2008/2009, fiz a viagem mais “maluca” da minha vida até agora: encarei uma viagem São Paulo/Buenos Aires de ônibus, viagem esta que passou também pelo Uruguai na volta. Era a primeira viagem internacional que eu fazia, de alguém que pouco conhecia o seu próprio país (e que ainda pouco conhece, por sinal).


Minha estada no Uruguai foi rápida (coisa de um dia e meio), mas intensa, apaixonante e proveitosa. Lá, pude observar algumas diferenças em relação ao Brasil que chamaram a minha atenção: uma delas é o cuidado que o Uruguai tinha, já então naquele ano, em preservar a arquitetura da sua Ciudad Vieja (centro velho). Enquanto boa parte deste centro já estava com todos os reparos em dia, víamos algumas obras em pleno vapor para reconstruir/reconfigurar aquele espaço urbano.


Engraçado que fui conhecer o centro de São Paulo com as plantas dos pés algum tempo depois, e a cada vez que faço uma visita a esta fascinante cidade me deparo com uma novidade. Ao mesmo tempo, muito me dói perceber que o mesmo cuidado que se tem no Uruguai (na Europa deve ser assim também) em relação à conservação destes monumentos arquitetônicos não se aplica em nosso país.


Ao visitar Ouro Preto/Mariana este ano, pude constatar este “descaso” do Brasil com relação à sua memória: estas cidades possuem construções centenárias importantíssimas que nem cabe comentar no momento, e pouco se aproveita do poderio turístico delas. Aliás, muitas igrejas estão fechadas por não estarem recebendo a manutenção necessária. A cidade do Rio de Janeiro, que já foi capital do nosso país, também possui lindos prédios na região do centro, e o que vemos é uma região abandonada ao deus-dará e aos esquecidos que por ali também ficam, entregues à sorte como os próprios prédios.


Nessas pequenas andanças (ainda quero visitar muitos outros lugares, conhecer outros pontos de vista, obviamente) observei que o Brasil não dá a mínima para a memória que possui. E isso se reflete no cuidado que tem para com estas arquiteturas centenárias, que atraem não só o olhar de turistas e olhares desavisados, mas também o pedestre do cotidiano, que pode vislumbrar algo diferente daquela imensidão de cinza-comum, que impera nas metrópoles.


Fato: o Brasil não cuida de sua memória como deveria. A memória é um recurso importante e necessário para qualquer cultura. É através da memória que preservamos boa parte das nossas crenças e costumes, e é a partir dela que podemos conseguir o desenvolvimento econômico, científico, político. Aliás, um país sem memória é um país que exalta resquícios da Ditadura Militar, que não chegou a completar três décadas do seu término. É doloroso notar que, no Brasil, a memória é curta (ou sofre de Allzheimer e não sabemos).


Um pouco da memória da cidade de São Paulo se perde com as chamas, que consumiram a Estação da Luz e o Museu da Língua Portuguesa em 21/12/2015. É uma pena o que tenha ocorrido no Museu da Língua Portuguesa. É uma pena o que tenha ocorrido no Memorial da América Latina anos atrás. Que o Brasil cuide, com mais atenção e carinho, das suas riquezas. Que o Brasil cuide, com mais atenção e carinho, das suas memórias.


O autor é colaborador de Opinião

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