Celebrar o Natal com genuíno espírito cristão em um momento em que os valores pregados por Jesus Cristo parecem tão em xeque pode parecer difícil. Um mundo em ebulição, um ano repleto de tragédias, com crise geopolítica mundial, avanço do terrorismo e crise política, econômica e, principalmente, ética no Brasil. Tudo exacerba sentimentos como o pessimismo, a intolerância e a intransigência, que decretam, na maioria das vezes, a violência, gerando um ciclo. Nada menos cristão. Qual o sentido do Natal com tantos motivos para se entristecer ou para a desesperança? Representantes de religiões cristãs têm a resposta em trechos da Bíblia.
Todos citam passagens do Velho e Novo Testamentos que trazem inspiração para atravessar as turbulências mundanas e celebrar o nascimento de Jesus, entendendo o significado da data.
O padre Luiz Antônio Lopes Ricci, da Paróquia São Cristóvão, lembra a simbologia de esperança e encorajamento que a data traz. “No Evangelho de João (capítulo 1, versículo 5) está escrito ‘a luz brilha nas trevas e as trevas não conseguiram apagá-la’. Eu gosto deste tema da luz. A luz, que é Jesus, brilha também nas trevas. Ainda que a gente passe por um momento de crise, Jesus renasce”, define.
“Este é início do Evangelho de João, que vai falar sobre o Natal. É uma mensagem de que, por pior que esteja a situação, Jesus vai renascer e esta situação não vai nos impedir de enfrentar a crise pela fé Nele”, complementa.
Luz
Padre Ricci destaca que o espírito natalino é justamente a renovação da ligação da humanidade com a luz divina, o renascimento de Jesus e da esperança. “É movimento da luz de Deus que vem ao nosso encontro e de nós, que vamos ao encontro da luz. É neste movimento que vamos enfrentando as cruzes, as crises e as pedras no meio do caminho”, expõe.
O padre considera que o Natal serve ainda para renovar a certeza de que a luz pode dissipar as trevas. “Isaías (9:1) diz: ‘O povo, que andava nas trevas, viu uma grande luz’. Sempre foi falado da luz e Jesus é a luz anunciada”, comenta Ricci.
Pastor afirma que data traz a esperança de que Deus se importa com todos nós
O pastor Gilson Souto Maior Júnior, da Igreja Batista Estoril, entende que, mesmo em momento de crise econômica, política e social, é possível chegar a esse tempo com a esperança renovada. “O problema é que a humanidade ainda não compreendeu o verdadeiro sentido do Natal e, assim, cria suas expectativas irreais”, constata, lembrando que a data é tratada constantemente com definições ilusórias e superficiais e lamentando que o aspecto comercial muitas vezes prevalece.
“Natal sem crise significa compreender o que ocorreu naquele momento na história. Numa pequena vila de um lugar esquecido do mundo, numa província romana chamada Judeia, nasceu Aquele que estava prometido nas Escrituras Sagradas. Deus entrou no palco da história humana e nem foi notado. Deus falou por meio de seus profetas o lugar que Jesus nasceria (Miquéias 5:2), de uma forma milagrosa (Isaías 7:14), que seria da descendência real (Gênesis 49:10; Isaías 9:7) e que o propósito de Seu nascimento era morrer pelos pecadores (Isaías 53:4,5), tornando o caminho até Deus possível para qualquer um que Nele cresse”, cita pastor Gilson.
“Deus prometeu que Ele seria ressuscitado dentre os mortos (Salmos 16:10) e subiria ao céu para estar ao lado de Deus (Salmos 68:18). Jesus Cristo nasceu para dar ao ser humano a possibilidade de se aproximar de Deus”, complementa.
Portanto, o pastor salienta que, em meio à crise que a humanidade atravessa, o Natal é a esperança de que Deus se importa com todos nós. “Com Jesus, o Natal nunca está em crise; com Jesus, há sempre esperança, pois Ele mesmo é Emanuel, [Deus conosco]. Com Jesus, Natal não morre, pois como Ele ressuscitou, todos os que crerem Nele ressuscitarão também. Com Jesus, Natal é sempre paz, pois Ele é o príncipe da paz. A verdadeira mensagem do Natal se fez como um de nós para que pudéssemos ter a esperança da vida eterna”, finaliza.
Boa vontade
Richard Simonetti, vice-presidente do Centro Espírita Amor e Caridade (Ceac), afirma que, para a doutrina espírita, diante da conturbação do atual momento, o Natal é a esperança que retorna em luzes abençoadas de espiritualidade e fé. “A partir da proclamação dos anjos: ‘Glória a Deus nas alturas, paz na Terra aos homens de boa vontade’ (Lucas 2,14)”, comenta. “Imperioso considerar, entretanto, que a paz, tempero da felicidade, não é uma simples dádiva do Céu. Trata-se de uma realização pessoal, a partir da boa vontade, que se exprime no empenho de fazer ao próximo o que dele desejamos receber. Assim, a paz estará em nós e ao redor de nossos passos”, aponta.