Chegando um novo ano. 2015 não deixa muita saudade, mas se você lê essas limitadas linhas, é sinal de que driblou o monstro, chegou na margem, surfou na tormenta. Agora só resta esperar que 2016 pregue menos peças. Não há otimismo no ar. O realismo é duro e redundante: até o realismo já caiu na real. Será osso. Mas não custa torcer. Brasileiro adora torcer.
Torcemos por alguém sem brilho nos reality shows; torcemos pelo time pequeno contra o grande, desde que não seja o nosso; torcemos para que o feijão dê para todo mundo. Torcer é nossa vocação: para acertar algo na loteria, mesmo que o prêmio só empate o dinheiro jogado; torcemos para que o temporal passe por Bauru rapidamente e, às vezes, acertamos; para a segunda-feira acabar logo, mas aí já é torcer demais.
Não importa o que aconteça, continuaremos a torcer para que fulano vá preso com a mesma vontade que torcemos para que a bebida seja liberada logo nas festas de casamento.
Torcer é nossa sina, nosso segundo ofício: brasileiro torce para que o combustível no finzinho seja suficiente, mas vai continuar colocando só “vintão” na próxima parada em posto; torce para a família não acordar com sua chegada na madrugada, mas não sabe abrir a geladeira em silêncio; torce para o preço da cerveja baixar, mas fica comprando a bebida em loja de conveniência.
Seja como for, torcemos. Pela subida do Noroeste, pela descida da serra; por um bom desconto na loja ao mesmo tempo em que tentamos pegar valor acima da tabela no nosso carro usado. Torcemos para o fim de semana chegar, mas reclamamos de tédio quando estamos no domingo.
Minha torcida especial é a de que possamos aprender algo de bom com essa zona toda que está aí. Quem sabe, já que torcer é nossa missão, não cheguemos a 27 de dezembro do novo ano já torcendo para que 2017 seja tão bom quanto 2016?
Nessa divagação-desejo, 2016 terá surpreendido e sido ano de incrível de recuperação econômica, de reabilitação da moral política, de amadurecimento das relações reais e virtuais. Improvável, sim. Mas quem disse que quem torce desiste? Quem disse que quem torce não persiste? Feliz 2016 para nós: incorrigíveis torcedores da vida.
O autor é editor executivo do JC.