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"Pelada" de fim de ano exige cuidados

Nélson Gonçalves e Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 7 min

Neste finalzinho de ano, muitas das reuniões familiares e de amigos estarão regadas a bebida, mesa farta e a famosa “pelada” entre solteiros e casados, o tradicional jogo de confraternização de final do ano. E aqui é que mora o perigo. Sem exagero: a festa pode virar tragédia.

O mesmo filme se repete na sala de espera de um pronto-socorro de toda cidade no fim de ano: os “atletas de ocasião” estampando fraturas, luxações, entorses e, em casos não menos comuns, infelizmente, vítimas de infarto. Aliás, já neste ano, em campeonato interno de um clube de Bauru, um dos participantes passou mal. O infarto foi revertido com intervenção de uma enfermeira que estava no local, seguido do socorro com ambulância.   

Futebol, basquete, vôlei ou qualquer prática esportiva de final de ano exigem cuidados tanto quanto a indispensável atividade física ao longo de todo o ano – esta última, de preferência, pelo menos três vezes por semana.

“A maioria só participa do jogo de futebol em final de semana. Muitos repetem esse erro, aliás, o ano todo. E, no caso das festas de Natal e do Ano Novo, outros se empolgam e participam somente nessas ocasiões. Festa e confraternização vêm acompanhadas de bebida, muita comida, encontro e isso empolga naturalmente. E aí é que o perigo, o risco aumenta muito”, alerta o ortopedista Orlando Costa Dias.

Armadilhas
O médico amplia que o espírito de encontro acaba “escondendo armadilhas”. “O sujeito acha que tem 18 anos. E quem joga ou jogou futebol sabe que, assim que o jogo começa, a empolgação toma conta. E o pior, nessas festas, é muito comum mais velhos, que nunca ou quase nunca praticam atividade alguma, jogarem com jovens”.

Dessa conjunção de fatores, reitera Orlando Costa Dias, surgem possibilidades de tragédias. “O infarto é um risco presente. Calor, comida, com bebida associada, pouco descanso. É uma questão muito séria que, por vezes, não é levada em conta”.


As canelas e os tendões

A fato é coisa séria, insiste o ortopedista Orlando Costa Dias. “Do ponto de vista da medicina, da área de ortopedia, é fato que a maioria não faz aquecimento, nem antes e muito menos depois da atividade. E, se não pratica esporte há algum tempo, é evidente que esta pessoa está ampliando as chances de uma ruptura muscular, lesão de ligamento. E os alvos mais comuns são tendões, joelho”, cita.

“É preciso que as pessoas se preparem ao longo do ano, que façam exercícios regularmente, pelo menos três vezes por semana, sendo 40 minutos por cada sessão. Não adianta querer ir correr a São Silvestre agora, ir lá e achar que vai resolver dando tudo de si. O corpo tem limites e precisa estar preparado para a atividade física”, complementa Dias. O também ortopedista Olivo Costa Dias subscreve os comentários. “Não combina festa com comilança, bebida e jogos isolados. O sujeito enche a pança, enfrenta calor. Vai sofrer com mal-estar na melhor das hipóteses”, reitera.

Dias sinaliza a sensação de “dar o sangue”. “É o tio que quer driblar o sobrinho, o pai que foi ótimo jogador... foi, eu disse. E vai lá empolgado querer dar um pique. São frequentes as ocorrências por esses fatores, desde as lesões mais leves, como as pequenas distensões musculares, aos casos mais graves. Menisco dos joelhos e ligamentos são muito visados. Sem contar as pequenas fraturas, que acontecem também com igual frequência”, finaliza Olivo. 


Com a bola rolando: repórter participa de partida de confraternização

Na sexta à noite, dia 18, o repórter que vos fala participou de um encontro entre servidores. A confraternização entre o “clube do bolinha” já não acontecia há alguns anos.

Compareceram 18 colegas, dos quais 14 se habilitaram para a partida de futebol. Ainda bem que era campinho society. Se fosse o jogo tradicional, iria faltar “atleta” e sobrar espaço a ser percorrido.

Dos 14 em campo, dois eram mirins. Foram cerca de 50 minutos jogados, o suficiente para esgotar a maioria. A ideia inicial era jogar dois tempos de 30 minutos. Mas prevaleceu a regra da partida de futebol de campinho: cinco vira, dez termina.

Na segunda etapa da peleja, cansados, os atletas erraram mais e os gols saíram com muito mais facilidade. Um dos organizadores disse ao final: ”Excelente. Fazia uns três anos que eu não jogava”.

Partida finalizada, 10 a 6 para o grupo sem camisa e nenhuma baixa por contusão. O barril de chope estava trincando, a salada cuidadosamente preparada e a costela já estava desmanchando no forno.

Na hora da “resenha”, como dizem os boleiros, vieram as informações mais importantes. Dos que estiveram em campo, um senhor de 60 anos revelou que joga todo domingo de manhã há 18 anos. “Pra mim, a partida aqui foi fichinha”, disparou. Dos demais, apenas um tagarela de 46 anos e um fanático por bola da mesma faixa etária contaram jogar o ano todo, uma vez por semana, com a complementação da preparação em academia mais duas vezes por semana.

Eram, portanto, três os “preparados” para a peleja. Os demais, incluindo um médico, argumentaram que “estavam sem tempo para jogar uma bolinha”. Um detalhe importante: os dois garotos de 16 anos, acima do peso, botaram a língua para fora logo no primeiro tempo da partida. Os demais todos tinham mais de 40 anos.

Um deles informou que não jogava “há cinco anos”; um profissional de imagem confessou que também não chutava uma pelota o mesmo tempo; um grisalho, da turma dos cinquentões. disse que tomou dois “relaxantes musculares e um energético para conseguir jogar”. “Uma inflamação no púbis me tirou dos campos há uns oito anos”, emendou.

Um chefe de setor declarou que “sempre brincava com o filho adolescente no campinho” e um assessor contou que, em recente encontro da família, também em confraternização, teve contato isolado com a bola. No intervalo, um senhor de farta cabeleira grisalha foi aconselhando a “não matar a sede com um copo de chope” porque isso lhe faria mal.
No encontro de sexta, felizmente, apesar do sedentarismo da maioria, nenhum acidente. Sorte? Muito provável. Para não contar com ela, o alerta desta reportagem ganha ainda mais força: cuidado para a festa não virar tragédia.

Em tempo: em razão de “cláusulas contratuais e de direitos de imagem”, os atletas deram seus depoimentos com a condição de não terem seus nomes e locais de trabalho revelados. 


Acompanhamento profissional é fundamental

Pode parecer lugar comum, mas para quem é atleta de final de semana e gosta de atividade física só tem um jeito certo de começar. É imprescindível a ajuda de um profissional e recorrer à velha e eficaz fórmula: academia aliada a uma boa alimentação.

O custo-benefício de quem segue tudo dentro do recomendado é enorme, lembra Gabriel Rothberg,  professor de musculação e gerente de uma academia da cidade. “A prática de atividades físicas ajuda no controle do colesterol, das taxas de açúcar no sangue, liberam hormônios que auxiliam no controle da ansiedade”, lembra ele.

E as atividades têm que ser adequadas a cada perfil. “Há quem curta a natação e há quem goste dos aparelhos e outros de simular caminhadas. Só o profissional vai saber avaliar o melhor para cada um”.

Disposição
Outro aspecto é que as pessoas fisicamente ativas têm maior autoestima e disposição. Sabrina Felipe é dona de empresa de produtos fitness e suplementos alimentares, contudo, quando teve o primeiro filho, caiu na tentação de ficar parada. “Tive até depressão, precisei voltar para a malhação rapidinho”, conta.

Ela, embora tenha conhecimento para fazer seu próprio programa de treinos, não dispensa a presença de outro profissional. “O personal ajuda. Dá foco, motivação”, cita, ao lado do instrutor e fisiculturista Ronaldo Stalonne Franzote.

Os amigos Almir Junior e Renan Stevanato fazem coro à fala de Sabrina: ter um supervisor, alguém auxiliando ou até mesmo um amigo na hora da prática é fundamental. 

Almir diz que a ajuda de Renan é ideal para ele aguentar uma hora de treino diária. “Comecei devagar e hoje gosto muito. Mas faço tudo dentro do meu limite”, conta.

Por outro lado, Almir ajuda o expert Renan a nãos se exceder. “É bom que ele também vê se estou executando os movimentos do jeito certo”, conclui Renan.

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