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'Da Cachaça ao Papel', a história da industrialização de Lençóis Paulista

Rita de Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 13 min

Éder Azevedo/JC Imagens
Livro será lançado nos festejos dos 110 anos da indústria de Lençóis; na foto, engenho da aguardente Marimbondo, em 2003

Na última semana, o JC Regional contou um pouco da história da produção de vinhos em Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru), que começou com as primeiras famílias de italianos que aportaram lá por volta de 1938. Nesse domingo (3), você vai conhecer um pouco da história da indústria na cidade, através do livro “Da Cachaça ao Papel”, de Sidney Aguiar.

O livro vai ser lançado no segundo semestre deste ano, em comemoração aos 110 anos da indústria de Lençóis. O trabalho é uma narrativa do potencial industrial que coloca o município de 66 mil habitantes entre os maiores polos industriais do Estado de São Paulo. A obra, de referência técnico/histórico, retrata a saga dos pequenos empreendimentos industriais que se transformaram em grandes empresas de reconhecimento nacional.

A industrialização do município é do começo do século 20, com os pequenos engenhos de fabricação de cachaça. A bebida era vendida em todo o Interior paulista pelos próprios produtores.

O primeiro registro da atividade cachaceira é datado de 1906, com engenho de uma tradicional família lençoense, que mais tarde viria a ser a pioneira da indústria sucroenergética.  

A partir da década de 1940, com a decadência da indústria da cachaça, iniciou o ciclo de industrialização com as atividades de produção alimentícia e sucroenergética. Com a expansão do ciclo da cana e do etanol, Lençóis Paulista ficou conhecida como a “Princesa dos Canaviais”, proporcionando o surgimento de outros ramos industriais, como o de celulose e a indústria petroquímica. O objetivo do trabalho foi inquirir a trajetória de sucesso dos pequenos empreendimentos do passado, que se tornaram grandes complexos industriais.

O estudo apontou para uma particularidade. Todos os empreendimentos investigados cresceram com traços genéticos da indústria da cachaça e a maioria, dependeu da indústria sucroenergética para se desenvolver. Grande parte das organizações pesquisadas cresceram e se tornaram independentes da indústria sucroenergética.

As empresas que mais se desenvolveram foram aquelas que mudaram seus conceitos de gestão, passando de uma administração conservadora para uma empresarial moderna. O forte alinhamento dos aspectos econômicos com os aspectos sociais, ambientais e culturais proporcionam ao município um índice de desenvolvimento humano (IDH) acima da média nacional.

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Lençóis Paulista é a sexta maior cidade da mesorregião de Bauru. As terras férteis do município são ocupadas em 50% pela cultura intensiva de cana-de-açúcar e aproximadamente 20% pelo cultivo de florestas comerciais de eucalipto. O município está consolidado com o quinto maior Produto Interno Bruto (PIB) da região central do Estado de São Paulo e o segundo da microrregião de Bauru.

Segundo a Fiesp, o PIB está estimado em torno de R$ 1,815 bilhões. O setor sucroenergético lidera essa participação, seguido pela indústria alimentícia e logo atrás estão as indústrias de petroquímica e de celulose.

Passado fez de Lençóis terra da cachaça

Com o passar dos anos, a produção de ‘pinga’ deu lugar à indústria sucroalcooleira e a cidade ficou conhecida como a “Princesa dos Canaviais”

Éder Azevedo/JC Imagens
Fabricação de cachaça começou a cair na década de 40, com início da indústria sucroenergética

Hoje, o parque industrial de Lençóis Paulista é referência na região Central do Estado mais rico da Federação, São Paulo. A cidade, que tornou- se conhecida pela produção de cachaça, é hoje também reconhecida internacionalmente pela indústria de celulose.

“No passado, foi conhecida como a ‘Terra da Cachaça’ por abrigar grande quantidade de engenhos de aguardente, que era exportada. Atualmente, é possível relembrar e conhecer parte dessa história através das ruínas de vários engenhos antigos e alguns que ainda resistem ao tempo, mantendo a produção artesanal da melhor cachaça do País. Entre as décadas de 1960 a 1990, Lençóis Paulista ficou conhecida com a ‘Princesa dos Canaviais’, por ser uma época áurea da produção sucroenergética no município”, informa o livro.

Para escrever “Da Cachaça ao Papel”, Sidney Aguiar embasou-se, também, em outras produções que contam a história de Lençóis Paulista. Aguiar descobriu, por exemplo, que o primeiro produtor de cachaça da cidade data de 1906, quando foi feito o primeiro registro de um empreendimento.

Nos primórdios, a cachaça produzida em Lençóis Paulista era degustada e consumida em todo o País, desde as mais altas autoridades políticas até representantes da elite brasileira da época. Em uma produção de 2007, por exemplo, Florindo Paccola diz que “do Engenho São Luiz, de uma tradicional família lençoense, surgiu uma das pioneiras do açúcar e do etanol na região”.

Segundo Paccola, em 1947 havia em operação no município cerca de  52 engenhos de cachaça. “A partir de desse período, os engenhos foram sendo extintos pela pressão do crescimento da indústria sucroenergética.” A indústria cachaceira de Lençóis Paulista foi a responsável pelo início da Indústria sucroenergética lençoense.

Eduardo Magalhães e João Carlos Lorenzetti, em uma publicação de 2006, afirmam que a década de 1940 foi marcada pela sociedade das famílias Zillo e Lorenzetti na montagem da Usina Barra Grande, em 1947.  

A indústria da cachaça é considerada a “matriarca” e a sucroenergética é vista como a grande propulsora na remodelação do parque industrial da região. Foi ela quem proporcionou um grande salto de modernidade industrial entre as décadas de 1960 e 1990 para toda a cidade.

Produção de aguardente começou no fim do século 19 e início do 20

Pioneira da industrialização em Lençóis Paulista, a fabricação de cachaça iniciou seu ciclo de produção entre o final do século 19 e início do século 20. Depois, sofreu uma decadência na década de 40, com o início das atividades da indústria sucroenergética.

Sidney Aguiar cita Florindo Paccola, que diz, em publicação de 2007, que o principal motivo da extinção da indústria cachaceira no município ocorreu pelo início do ciclo de produção de açúcar e etanol em larga escala. Assim, para atender a forte demanda, houve a necessidade de aumentar a produção e, consequentemente, ampliar as áreas de terras para o plantio da cana-de-açúcar. “Com essa expansão agrícola, ocorreu a extinção ou diminuição de áreas plantadas de café e outras culturas para ceder terras aos grandes canaviais. Os pequenos engenhos e terras foram sendo comprados ou arrendados para formar o grande império sucroenergético, que viria ser formado nas décadas subsequentes.”

Atualmente, Lençóis possui indústrias modernas e de tecnologia de ponta. Da “Terra da Cachaça” e “Princesa dos Canaviais”, a cidade tornou-se a terra da indústria moderna e de tecnologia de ponta, com empreendimentos que são destaques em todo Brasil. Atualmente,  é a “menina dos olhos” da região, com empresas de destaque no cenário nacional e uma ampla diversidade, possuindo uma representatividade em todos os segmentos industriais. Nos últimos 15 anos tornou-se uma das referências do setor papeleiro em todo o Brasil pela produção de celulose e papel através de duas grandes unidades industriais instaladas no município.

Berço de grande produtora de massas

A Comércio e Indústria Orsi Ltda está entre as maiores produtoras de massas do Brasil. Produz diversos tipos de massas de macarrão com forte presença nos mercados do Sudeste, Sul e Centro-Oeste do Brasil. A organização incorpora a tradição familiar dos fundadores com métodos modernos de gestão e produção.

A Orsi nasceu em 1949. O objetivo  era produzir a melhor massa italiana no Brasil. Um sonho realizado graças à filosofia do fundador Zeffiro Orsi de trabalhar com paixão incansável pela qualidade e sabor de seus produtos.

Éder Azevedo/JC Imagens
Frigol foi fundada por uma família de pecuaristas que antes possuía pequeno açougue na cidade

Indústria de derivados animal

A empresa Frigol foi fundada em 1970 em Lençóis Paulista e está instalada nos Estados de São Paulo e do Pará. Tem importante participação no mercado de carnes bovinas e suínas, produzindo cortes especiais e maturados em modernos processos de industrialização.

O grupo gera aproximadamente 1.800 empregos diretos, produzindo em torno de 100 mil toneladas/ano em carnes, que são distribuídas em todo o Brasil e exportadas para diversos países na América do Sul, Europa, Oriente Médio, Ásia e África. Foi fundado por uma família de pecuaristas que anteriormente possuíam um pequeno açougue instalado na cidade.

Famílias lideram boa parte das empresas

Principais ramos industriais de Lençóis Paulista são alimentício, sucroenergético, petroquímico, metalurgia de construção e de papel e celulose

A indústria lençoense exerce um papel muito importante no desenvolvimento de uma das regiões mais prósperas do Estado de São Paulo, conhecida como o “eixo caipira do agronegócio”. A diversificada indústria lençoense possui dentro de sua composição traços de uma combinação que reúne aspectos modernos alinhados à cultura tradicional da cidade.

Grande parte delas ainda é administrada pelas famílias fundadoras. Os principais ramos industriais são o alimentício, sucroenergético, petroquímico, metalurgia de construção e de papel e celulose. Grande parte do setor industrial surgiu em decorrência do crescimento da indústria sucroenergética.

“O desenvolvimento do setor aconteceu a partir da década de 1990 com a remodelação de suas estruturas de gestão. Atualmente, cada setor produtivo da indústria local possui independência e mercado específico, a partir da abertura dos conceitos de administração e relacionamentos corporativos. Alguns setores industriais estão em forte tendência de expansão. A indústria de papel e celulose,  pode aportar investimentos bilionários nos próximos anos”, aponta o livro “Da Cachaça ao Papel”, de Sidney Aguiar.

A  expansão dos parques industriais, prevista para os próximo anos, deve levar a uma crescimento econômico sem precedentes. “Deve colocar a empresa entre os maiores produtores de papel e celulose do País. Fundada em 1986, a Lwarcel Celulose produz anualmente 250 mil toneladas de celulose de eucalipto e abastece o mercado de papéis para imprimir, escrever, embalagens, papéis especiais e sanitários no Brasil e no Exterior.”

De acordo com o autor do estudo, Sidney Aguiar, a Lwarcel Celulose tem planos de construir uma nova linha de produção na fábrica atual, o que representará uma capacidade de produção de 1 milhão de toneladas/ano gerando mais desenvolvimento para a região de Lençóis Paulista.

“Esse segmento é o ramo industrial que mais cresceu nos últimos anos e, além de gerar emprego e renda, proporciona o desenvolvimento sustentável e ecológico. A cultura de florestas comerciais têm favorecido a diversificação da agricultura regional, proporcionando o equilíbrio do ecossistema rural em relação à conservação de rios e florestas nativas.” É uma das empresas mais concorridas para desenvolver carreiras profissionais na região.

“O índice de rotatividade profissional entre os colaboradores, segundo fontes externas, é mínima. Entre todas as marcas empresariais da região, a Lwarcel Celulose é uma das três marcas mais conhecidas ao lado da AmBev e Duratex, ambas instaladas  em  Agudos. Segundo projeções do portal Valor Econômico (2014), o faturamento do grupo empresarial (todas as unidades industriais), deve ter ficado em 2014 em torno de R$ 800 milhões.”

O potencial industrial de Lençóis Paulista é uma vocação de famílias que sempre acreditaram nos seus sonhos e aspirações profissionais. “A indústria lençoense é formada por outras empresas que não foram citadas no trabalho, dentre elas, metalurgia de construção, aeronáutica e bebidas. Elas influenciam economicamente com empregabilidade e incentivos sociais, culturais e ambientais e municípios do entorno, como Macatuba, Areiópolis e Borebi.”

Setor sucroenergético colocou Lençóis entre as 10 mais do País

O ciclo da indústria sucroenergética no município de Lençóis Paulista iniciou-se no final da década de 1940. “Mas foi entre as décadas de 1960 e 1990, durante o chamado ciclo da cana no Interior paulista, que ela passou a ser conhecida em todo o País como “A Princesa dos Canaviais”, pela forte produção de açúcar e etanol.

A indústria sucroenergética foi responsável pelo grande salto de desenvolvimento econômico, cultural e social do município, graças a uma usina de processamento de cana pertencente a um grupo industrial, que administra três plantas de processamento de cana no Estado de São Paulo e representações comerciais na Europa e Estados Unidos.

Nas décadas de 70 e 90, a unidade industrial de Lençóis Paulista chegou a ser considerada uma das dez maiores usinas de processamento de cana-de-açúcar do Brasil. “Foi através da indústria sucroenergética, que todos os outros ramos industriais se desenvolveram e se consolidaram ao longo das décadas subsequentes. Nas décadas em que a única opção industrial era o setor, a indústria sucroenergética deu suporte e preparou os demais setores para o crescimento. Alguns ramos industriais surgiram e se desenvolveram, da prestação de serviços ao setor sucroenergético. O faturamento atual do grupo empresarial (todas as unidades industriais do grupo) é de R$ 1,5 bilhão, segundo o Portal Valor Econômico (2015).” Na década de 40, a chegada de imigrantes espanhóis e italianos garantiu o início do ciclo da indústria alimentícia.

“A produção de massas, biscoitos e derivados animal se consolidou através de três grandes indústrias com acentuada representatividade no mercado nacional e internacional de alimentos. A tradicional indústria alimentícia lençoense descreve parte dessa história de desenvolvimento e riqueza, sendo responsável pela modernização e diversificação da indústria local na metade do século XX”, traz o livro “Da Cachaça ao Papel”, de Sidney Aguiar. Uma pequena confeitaria com produção artesanal transformou-se em uma rentável empresa de biscoitos figurada entre as principais do País.

“O nome da empresa foi originado das abreviaturas das duas famílias fundadoras, na década de 1960. A sociedade entre os imigrantes espanhóis e uma família lençoense deu origem a uma das principais marcas de biscoitos comercializadas em todo Brasil, a Zabet. Em 2001, a Zabet passou a fazer parte da Adria Alimentos do Brasil Ltda., unindo-se às tradicionais marcas Adria, Basilar e Isabela, dentre outras. Dois anos depois, a organização foi adquirida pelo grupo M. Dias Branco, de Fortaleza, líder nacional na fabricação e venda de biscoitos e massas alimentícias”, detalha a obra.

Terceira fase da industrialização é a responsável pela modernização

A terceira fase da  industrialização de Lençóis, compreendida entre as décadas de 1970 e 1990, é responsável pela modernização do parque industrial lençoense. “Nesse contexto, está inserida uma planta industrial de rerrefino de óleos lubrificantes usados e/ou contaminado (OLUC). O início da operação de coleta e rerrefino de óleos lubrificantes usados, em 1975, teve origem em uma viagem de negócios, onde um dos irmãos conheceu a atividade. Naquela época, a própria oficina da família construiu os equipamentos da primeira fábrica e foi então que o nome Lwart passou a ser usado, em homenagem às iniciais dos seus fundadores: Luiz, Wilson, Alberto e Renato Trecenti.”

Considerada a maior rerrefinadora de óleos lubrificantes na América Latina, a empresa lençoense contribui de forma ativa para o desenvolvimento sustentável da região e do Brasil. “Seu processo produtivo constitui-se em coletar e rerrefinar os óleos lubrificantes usados e/ou contaminados e inseri-los novamente no mercado. A tecnologia de processo empregada pela empresa é única na América Latina sendo de nível internacional, processos similares, só encontra-se nos Estados Unidos e na Europa. Dentre todos os seguimentos industriais do município, a empresa está na vanguarda em relação à operação de processo, segurança de equipamentos e métodos de produção”, explica a publicação.

Italianos e espanhóis

Boa parte da tradicional indústria lençoense foi fundada por imigrantes italianos e também por espanhóis. Em 1906, havia no município alguns engenhos de cachaça; a única referência histórica é o registro do matadouro municipal e do engenho São Luiz.

A indústria de Lençóis Paulista divide-se em três fases: a primeira  é a fase do surgimento, a partir da fabricação de cachaça; a segunda a do expansionismo, a partir da década de 40 com o surgimento da indústria sucroenergética e alimentícia; já a terceira fase, mais atual, é o período da modernização, que teve início a partir da década de 1990. 

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