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Editores do JC falam sobre 2016: ele chega cauteloso, mas com firmeza

João Jabbour, João Pedro Feza e Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 10 min

Ilustração

"Na verdade, ainda bem que todos me esperam. É isso que me anima"; 2016

Não foi fácil encontrar 2016 para esta entrevista. Telefones desligados, páginas no Face e WhatsApp ainda não ativadas, vizinhos arredios... Quando o localizamos, na dobra da folhinha do 31 para o 1, não queria falar nada, para não se comprometer nem criar falsas expectativas e porque ainda cuida de seu irmão 2015, que está acamado, com depressão. O ano passado caiu doente quando ouviu dizer que ‘a melhor coisa de 2015 foi que ele acabou...’. Natural, então, que 2016 tenha toda a cautela do mundo ao falar em público sobre seus 366 dias (é bissexto).

Mas em consideração a quem chegou inteiro até aqui e quer saber o que ele pensa sobre a próxima jornada humana na Terra e também pelo esforço de reportagem do JC em arrancar palavras de um numeral, aceitou ser entrevistado, com a condição de que não ficássemos lamentando o passado nem apenas sonhando com um futuro improvável, mas que discutíssemos o presente, único tempo que o próprio tempo acredita ser possível mudar.

     

Detalhe: 2016 é simpático, garotão cheio de vitalidade, com sentido coletivo e muito competitivo também: aceita todos os desafios que lhe impuserem, sem medo de encarar as dificuldades e ser feliz. Confira.    

JC – Para começar, o que você espera dos políticos?

2016 - Esse é meu drama maior. Olha, vou te contar uma coisa que pouca gente sabe: ninguém mais fala no meu irmão 2015, ele nem terminou seu direito serviço e hoje está amuado, lá em casa, com depressão. Nem queria ir até o fim, ficou arrasado quando os políticos o jogaram na lata de lixo da história. Poucos anos, por pior que fossem, foram tão descartados e maltratados como o que fizeram com meu irmão. Para piorar, ele ficou ainda mais chateado ao ouvir muita gente falando coisas do tipo ‘já vai tarde...’, ‘o melhor de 2015 foi que ele acabou...’. O 2015 até entende a angústia das pessoas, mas não perdoa os políticos, principalmente os que têm mandato.

JC – Mas e você, o que acha?

2016 - Olha... (pausa e respira fundo), fizemos uma reunião extraordinária no último dia 31, quinta-feira, com o Deus Chronos (senhor do tempo). A gente só senta para conversar quando a situação está crítica, pois do modo contrário é só virar o ano que já sabemos o que fazer. Mas desta vez estou perdido, sem rumo. Sem noção de tempo e espaço... Para falar a verdade, cheguei a propor que pulassem direto para 2017 e assim eu passaria mais rapidamente, bem discreto, abreviando o sofrimento de muita gente. Mas Chronos logo me devolveu à realidade e até me animou ao dizer, sabiamente, que nós, os anos complicados, temos um papel muito importante. É durante nosso período que os homens crescem... aqueles que querem crescer, claro. Das dificuldades nascem as soluções, disse ele. Então, vamos lá, apesar dos políticos e dos homens de má vontade e de mau caráter... Animou-me demais o que Chronos disse no final de nossa reunião: ‘O tempo é senhor da razão’.

JC - E a economia, como promover dias felizes?

2016 - Dias felizes não necessitam, obrigatoriamente, de muito dinheiro na conta bancária. Até porque grana não vai ter mesmo. Sugiro às pessoas que trabalhem com seriedade, tirem prazer do que fazem e se lembrem de agradecer diariamente pela saúde, pela formação que possuem, pela família, amigos e pelo que realizam diariamente. Se todos fizerem a sua parte, o todo vai melhorar.

JC - Mas é um tanto utópico esperar um grande pacto pela Nação...

2016 - De fato, mas enquanto isso não vem, desejo que se multipliquem aos milhões, não apenas em gabinetes do Judiciário, os brasileiros que têm a determinação do juiz Sérgio Moro e seus colegas de toga e também os do Ministério Público e da Polícia Federal. Inclusive os funcionários públicos. Cuidem do que é de todos com seriedade! Há bons motivos para isso. Os seus filhos, por exemplo. Que País vocês esperam legar a eles? Enquanto o povo não dá um salto definitivo a um novo patamar de consciência e mobilização, que os 366 dias que vou lhes proporcionar sejam de cumprimento implacável da lei, de defesa e disseminação da ética pessoal e coletiva.

JC – O que acha de Bauru neste ano?

2016 - Teremos eleição municipal. Será um dos meus grandes momentos. O que este governo poderia fazer ou teve competência para fazer, está feito. Cada um que julgue com olhar crítico o suficiente para não se deixar levar pelas aparências ou favores que possa ter recebido. Muita coisa está em aberto e por fazer nesta cidade. Outras foram feitas. Mas o fato é que sugiro aos bauruenses começarem já, antes do Carnaval, a discutir que cidade desejam. E imponham esta discussão aos candidatos a prefeito e vereador, para verificar quais deles têm competência e sinceridade de propósitos para com o interesse público. Haverá dezenas, centenas deles, interessados apenas em resolver seus problemas pessoais ou de agrupamentos que representam. Esses não servem. Meus 2015 irmãos que vieram antes de mim ensinaram isso. Não quero que me amaldiçoem lá em dezembro.

JC – E o que você está guardando para a cidade?

2016 - Olha, na atual situação em que está a economia, não está dando para guardar nada para Bauru e nem para ninguém (risos). Brincadeiras à parte, sou eu quem espero que Bauru seja mais generosa comigo do que foi com meu irmão, o 2015, que acabou de se aposentar.

JC – Realmente seu irmão teve uma vida difícil.

2016 - Pois é. Antes de cair doente, me confessou que não vai ficar com tanta saudade. No ‘mandato’ dele teve muita coisa ruim no mundo, no Brasil e até por aqui. Já começou com o atentando contra o Charlie Hebdo, o jornal francês, e, meses depois, houve mais ataques covardes também em Paris. Teve aquela foto que me cortou o coração do menininho sírio morto na praia. Teve Estado Islâmico. Em solo tupiniquim, teve rompimento da barragem em Minas Gerais. Teve incêndio no Museu da Língua Portuguesa. Aqui em Bauru, li que foram achadas ofensas racistas e machistas em banheiro de universidade. Foi registrado recorde de dengue também. Teve até o assassinato do Papai Noel, ou melhor, do ‘seu’ Hugo Teixeira, que se vestia de Bom Velhinho para alegrar a criançada carente. Bom, espero ter mais sorte do que meu irmão.

JC – Mas Bauru não foi tão ruim assim em 2015. Teve muita gente ajudando o próximo, entrega do viaduto após 22 anos, inauguração da tão esperada pista de skate...

2016 - Muito bom você tocar neste assunto da pista. Eu espero que, com minha chegada, as pessoas tenham mais educação. Que elas passem a entender que o que é público não é de ninguém, mas sim de todo mundo. E todos devem zelar. Só assim elas vão poder cobrar o poder público que, convenhamos, deixa muito a desejar às vezes. Fiquei muito triste com essas invasões de carros na pista de skate. Uma falta de respeito enorme. Quase que pensei em nem dar as caras mais...

JC – Como assim? Nada disso. Você tem que estar prontinho para trabalhar logo depois dos minutos finais do dia 31... todos estão te esperando.

2016 - Eu sei. Na verdade, ainda bem que todos me esperam. É isso que me anima. Todos me esperam porque represento mudanças. Mas as pessoas precisam entender que não é só colocar roupinha branca e abrir um espumante quando eu chegar que tudo vai mudar. Cada um precisa fazer sua parte. Lá em casa, me deram até um apelido. Estão me chamado de ‘Ano dos Desafios’. Dizem que será exatamente comigo que todo mundo terá que ‘rebolar’ para encontrar uma saída e driblar os obstáculos.

JC – E qual a sua promessa de virada de ano?

2016 - Ao contrário daquela sua vizinha que promete emagrecer ou do seu cunhado que jura que vai parar de beber toda vez que um parente meu vai assumir o ‘mandato’ após o dia 31 de dezembro, eu não vou prometer que serei o ano mais fácil de todos. Não vou fazer promessas. Mas posso dar um conselho: serei o ano do recomeço. Não me encarem com desesperança. Pelo contrário. Usem toda a esperança que vocês estão guardando e vamos em frente. Se fizerem isso, tenho fé que, quando eu me aposentar, a vida estará bem mais feliz a todos. Falando em feliz, Feliz Ano Novo!

JC – Mudando um pouco de assunto: e as Olimpíadas, hein?

2016: Você tinha que lembrar disso [risos]. Já foi aquela tensão na Copa, sem contar o resultado final pra nós... Bem, agora dá para ver que o pessoal do Rio está se esforçando porque são muitas as dificuldades por lá. De beleza e acolhimento, nem vou falar: o Rio é show. Mas há desafios estruturais que precisavam ser encarados bem antes. Não dá para continuar refém do jeitinho brasileiro. Não posso fazer nada: a tocha está com vocês. E já vou dizendo, hein: não me decepcionem!

JC – E os esportes em Bauru?

2016: As expectativas são muito boas. De verdade. Especialmente no que se refere às modalidades coletivas, não é mesmo? Veja: o Paschoalotto/Bauru ganhou quase tudo nos últimos meses no basquete; o Concilig Vôlei Bauru colocou as meninas na elite brasileira com entrada na Superliga; o Noroeste subiu e merece a nossa confiança para fazer bonito na A3 porque será difícil, caem seis, não é? Agora, não podemos nos esquecer da campeoníssima equipe da Associação Bauruense de Desportos Aquáticos (ABDA), que levantou várias taças com a moçadinha no polo aquático e natação. E também lembrar dos experientes tenistas,  como Roger Guedes e André Cury, que representam o Bauru Tênis Clube e não se cansam de serem primeiros colocados em competições nacionais e internacionais. Tem os campeões Agnelli e Nabo, na natação master... São apenas alguns ótimos exemplos porque também tem o futebol amador, o kung fu, o xadrez... Bauru manda bem. Fui até longo na resposta, desculpem, acabei me empolgando...   

JC – Já que se empolgou, e voltando ao plano nacional, quem será o grande time de futebol neste ano?

2016: Peraí, sou Ano Novo, não sou adivinho [risos]. É sempre bom ficar de olho no Atlético-MG, no Grêmio, mas não menosprezar a evolução e o fortalecimento do Palmeiras e a força jovem que parece inesgotável no Santos. Viu como é fácil? Você fala um monte de times, não responde nada e ainda posa de especialista. [risos]. E, não, não esqueci do Corinthians e do São Paulo. Do primeiro pode-se esperar de tudo porque tem um supertécnico e se acostumou com grandes decisões; do Tricolor eu diria que será o ano da superação. Mas se essa superação se traduzirá em título até dezembro, aí é prematuro arriscar.

JC – E na mídia e na cultura: como projeta os próximos meses?

2016: Bom, em nível nacional, acredito que será bem parecido com 2015 porque fórmulas que deram certo serão repetidas e aperfeiçoadas, tipo “Master Chef”.  Acho que nosso cinema e nosso teatro vão ter que rebolar por causa da crise e pode ser que algumas produções sejam atrasadas. Na música, sertanejo universitário e axé vão continuar animando a massa, assim como o pagode. Brasileiro gosta de música festeira e não vai deixar de curtir seu som, apesar dos pesares. Demais estilos dependem mais de espaços alternativos: é a realidade e não deve mudar já. Agora, se for falar de tecnologia na mídia, aí é brincadeira: teremos equipamentos em 3D para uso contínuo. Vai mudar a visão do mundo. Será o ano dos 360 graus: pode escrever, ou melhor, digitar...

JC – E na cultura por aqui?

2016: Bauru é especial, não é mesmo? Tem talento para a cultura. Recebe muita gente boa de fora e os pratas da casa dão conta do recado na música, na dança, no teatro, nas artes plásticas etc. Tudo indica que a Estação Ferroviária vai bombar. Aliás, podia já mudar definitivamente o nome para Estação das Artes ou Estação Cultural. A turbulência econômica deve restringir alguns shows aqui e ali, mas creio que o talento vai falar mais alto. Confio muito nos artistas de Bauru, nos produtores culturais da cidade e na sua capacidade que todos têm de se superar e de se reinventar. Ok?

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