| João Rosan |
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| “As pessoas projetam o futuro com base no momento atual”, cita o antropólogo Cláudio Bertolli Filho |
O novo ano, que começa para valer nessa segunda-feira (4), com seu primeiro dia útil, reserva problemas remanescentes de 2015 e outros que virão. O melhor modo de Bauru e o Brasil enfrentá-los é encará-los como desafios. E desafios são superados com conhecimento, trabalho, convicção, planejamento e inovação. Haverá eleições municipais em outubro, quando os brasileiros escolherão os novos prefeitos e vereadores e, em agosto, o Rio de Janeiro receberá a principal competição esportiva do planeta - os Jogos Olímpicos.
É só o início de um longo ano, que colocará à prova nossa capacidade de superação, de fortalecimento de crenças e posturas éticas, criativas e modernas, que farão a diferença na busca das realizações pessoais e empresariais.
Na virada de ano, o clima entre muitos brasileiros se não foi pessimista, foi pelo menos reticente em relação a 2016. Para o antropólogo Cláudio Bertolli Filho, professor do Departamento de Ciências Humanas da Faculdade de Arquitetura, Artes e Comunicação (Faac), da Unesp-Bauru, isso se explica pelo momento atual. “As pessoas projetam o futuro com base no que elas vivem no presente. No momento, o Brasil tem uma inflação mais alta, o desemprego cresceu em 2015, ou seja, quem está empregado está com medo de perder o emprego, os juros estão altos e há uma crise institucional e ética na política”, define.
Este cenário faz com que a população entre menos otimista no novo ano. “A expectativa acaba sendo mais negativa, gera medo e insegurança com o futuro, as pessoas estão na incerteza do que vai acontecer com o Brasil, com a economia do País. Isso faz com que a celebração do Natal e do Ano Novo não sejam tão animadas como em outras épocas”, resume Bertolli. “E ainda tivemos em 2015 um acirramento das expressões de ódio, da direita com a esquerda e vice-versa, atos racistas e homofóbicos. E há risco disso persistir em 2016. Os mais jovens, de uma maneira geral, se assustam mais com as crises, porque não viveram isso antes”, aponta.
Eleições municipais
O cenário de crise político-econômica deve interferir no processo eleitoral para prefeito e vereadores, em outubro, cita o professor de história e ciência política Maximiliano Martin Vicente, da Unesp-Bauru. “Não é porque mudou de ano que mudou o cenário, a crise está aí. Em geral, as eleições municipais são prévias da eleição nacional, que ocorre dois anos depois, mas desta vez não acredito que isso vá ocorrer, até porque dificilmente o PT conseguirá se viabilizar para 2018”, projeta.
Para ele, o principal problema é que os municípios estão à beira da falência. “Faltam recursos para as prefeituras. Então, sai na frente o candidato que consegue amarrar melhor parcerias com os governos estadual e federal, o que será ainda mais difícil, pois os Estados e a União estão cortando gastos. Pensando em Bauru, especificamente, o PT sai em uma condição difícil, com rejeição alta, e o PSDB para entrar com força precisa escolher alguém alinhado com o governo estadual, sendo que o próprio partido não está unido em São Paulo. E por fim, há espaço para surgir um terceiro grupo, talvez unindo forças como PV e PSB, que já tem mais representatividade nacional, e concorrer como 3ª força”, relata.
Sobre a participação do prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) no pleito, Vicente diz: “Ele precisa terminar bem o mandato, porque tem pretensão de se candidatar a deputado federal em 2018. E quem estiver próximo a ele pode se beneficiar, pois, apesar de tudo, a cidade conseguiu melhorar nestes 7 anos. Rodrigo é um dos nomes que tem força para apoiar alguém, do outro lado, quem tem esse peso é Pedro Tobias (PSDB)”, conclui.
Crise política
Na análise do professor Maximiliano Martin Vicente, a crise política não tem prazo para ter fim. “A presidente Dilma Rousseff não está livre do impeachment, a questão das pedaladas fiscais pode voltar com força em 2016, e é impossível imaginar quando essa crise vai terminar.
A maior crise no País é a econômica. O governo, inclusive, está tentando dar um novo rumo com a troca do ministro da Fazenda (saiu Joaquim Levy para entrar Nelson Barbosa). Claro que a crise política também acaba afetando de alguma forma a economia, um problema que não é só do Brasil, mas global”, pontua.
| Malavolta Jr. |
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| Para o economista Fernando Pinho, quebra de confiança é o grande problema da economia |
Economia
Um dos grandes problemas do País em 2015, a crise econômica deve seguir no mesmo ritmo neste novo ano, de acordo com o economista Fernando José Martha de Pinho. “A partir do segundo mandato do presidente Lula, houve um populismo na economia, para garantir a continuidade do atual grupo no governo. Atropelaram-se fundamentos econômicos para dar manutenção ao poder. A sensação é que a população foi convidada para uma festa, mas só agora foi chamada a pagar a conta. E quem mais sente esses efeitos são as pessoas com uma condição socioeconômico menor”, pontua.
O quadro não parece ser muito animador em curto prazo. “Os investidores estrangeiros não estão empolgados em investir no Brasil antes de 2018 ou 2019. Houve uma quebra de confiança e a economia é baseada na confiança do investidor. Não é uma simples troca de ministro que vai resolver isso”, resume. “A tendência é que tenhamos mais dois ou três anos difíceis. Enquanto estiver o governo atual, dificilmente haverá uma reversão, justamente porque o elo de confiança foi quebrado”, comenta Pinho.
Legado olímpico deve vir só em longo prazo
Embora meta nacional seja ficar entre os dez primeiros colocados, resultados devem levar tempo para surgir, desde que haja investimento
Em agosto, o Rio de Janeiro será a primeira cidade sul-americana a receber uma edição dos Jogos Olímpicos de Verão. Para o jornalista Marcelo Ferrazoli, editor de esportes do Jornal da Cidade, o País não deve ter problemas para receber as outras delegações. “A Copa do Mundo foi um bom balizador, não houve grandes problemas. Nas Olimpíadas, o fato de ser tudo concentrado em uma só cidade pode ajudar. Acredito que a segurança também não deve ser problema”, afirma.
Já no âmbito esportivo, o editor do JC considera difícil a meta estabelecida pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB), de ficar entre os dez primeiros colocados dos Jogos. “O Brasil nunca ficou no top 10 e, sinceramente, não acredito que vá conseguir agora. Até porque terá praticamente que dobrar o número de pódios em comparação aos Jogos de 2012. O investimento não gera resultado em um ciclo olímpico, demora mais tempo. Se o Brasil continuar investindo, pode começar a ter resultados daqui duas ou três olimpíadas”, comenta. “Agora o que mais preocupa é a questão da corrupção. Sabendo do histórico do Brasil, não é difícil que no futuro estourem casos de desvios de verba”, lamenta.
| Fotos: Divulgação |
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| José Carlos Marques destaca atraso nas obras de infraestrutura |
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| Vinícius e Tom são, respectivamente, mascotes oficiais dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos |
José Carlos Marques, docente do programa de pós-graduação em Comunicação da Unesp-Bauru e líder do Grupo de Estudos em Comunicação Esportiva e Futebol (Gecef), vai na mesma linha. “A organização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro apresenta os mesmos problemas já observados na Copa do Mundo de 2014: atrasos em obras de infraestrutura, atrasos na entrega das instalações esportivas, falta de transparência dos gastos públicos. O problema agora é outro: a calamidade da saúde pública do Rio de Janeiro a que estamos assistindo nas últimas semanas é uma demonstração cabal do desequilíbrio e da desigualdade da sociedade brasileira. Não parecem faltar recursos para sediar a Olimpíada no Rio de Janeiro, mas faltam recursos para um simples atendimento de pacientes na rede pública hospitalar”, afirma.
Ele ressalta que a distância do Centro do Rio até os principais locais de competição é outro problema. “Questões importantes para a imagem do Rio não parecem ter solução até a realização dos Jogos, como a despoluição da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas, dois cartões-postais da cidade. Soma-se a isso a distância abissal entre as arenas esportivas e o alto preço da hospedagem na cidade. Os hotéis não estão aceitando reservas para o período dos Jogos e os que aceitam reservas têm cobrado preços exorbitantes”, lembra. Apesar dos problemas, Marques acredita que a imagem que os turistas levarão será boa. “Penso que a maior parte dos visitantes ficará com uma visão agradável da cidade, até porque nossas mazelas sociais são vendidas como artigo exótico para o olhar estrangeiro”, entende.
Sobre o desempenho esportivo, Marques vê uma pequena vantagem pelo fato de ser o país-sede, porém sem deixar de elencar os problemas na gestão do esporte brasileiro. “O País não conta com uma política no esporte e muito menos uma política olímpica. Impera uma total desorganização na gestão do esporte no Brasil. Os atletas brasileiros que conquistarem medalhas em 2016 deverão ser louvados pelo seu talento e abnegação e não por iniciativas oficiais”, conclui.
Tocha
Bauru integra a lista de cidades por onde passará a tocha das Olimpíadas do Rio/2016. Ao todo, ela passará por 250 municípios brasileiros. Será acesa na Grécia e, em meados de maio, chegará ao Brasil. Olimpíadas serão de 5 a 21 de agosto de 2016.



