Embaixo dos viadutos, onde poucos notam, alguns fazem o seu lar. Exemplo é a estrutura que dá continuidade à avenida Rodrigues Alves, sobre a rodovia Marechal Rondon. O viaduto em questão é o lar de um casal. Ela com 53 anos. Ele, 39. Como companhia, três bem cuidados cães. E os pedestres que diariamente passam por ali.
À distância é possível ver o varal com roupas estendidas sob o sol. De perto, a receptividade e alegria da moradora Márcia (que preferiu não mostrar o rosto e cujo sobrenome foi preservado pela reportagem) emocionam. Mesmo com pouco, ela se diz feliz e, entusiasmada com a visita da reportagem, faz questão de mostrar o espaço que transformou em casa.
Se por um lado falta conforto, luxo e até mesmo os serviços básicos de uma residência, como luz e água encanada, sobra a esperança de um futuro melhor.
O capricho de Márcia é o que mais chama a atenção de início. Os poucos móveis e objetos do lar improvisado, quase todos encontrados no lixo pelo companheiro de Márcia, que é catador, são cuidadosamente organizados e limpos por ela, com direito a tapetes e toalha na mesa.
O colchão-cama é cuidadosamente arrumado com uma colcha branca. No pequeno armário, alguns utensílios e mantimentos. O fogão é à lenha e fica do lado de fora. Assim como a esperança, a fé também está por lá e é evidenciada em uma imagem santa na parede. “Outro dia achamos uma Bíblia e presenteamos um amigo. Quer presente melhor?”, comenta Márcia.
A água usada para o banho de balde no banheiro improvisado, lavar algumas peças e cozinhar é cedida para o casal por um posto de combustíveis da rodovia. Mas o esgoto que corre ao lado incomoda. E ela reclama: “A gente já falou com o DAE, afinal, é nossa casa. Somos felizes aqui, mas isso dá desgosto”.
Sobre os perigos de viver ali, a moradora diz não sentir. Mas nota a falta de respeito. “As pessoas jogam lixo e a gente vive limpando”
Vestidos de noiva
Há três anos Márcia vive sob o viaduto. O companheiro vive por lá o dobro do tempo. Ela conta que o conheceu e largou tudo para viver com ele. Márcia já teve loja de noivas e fez muitos vestidos finos na cidade, segundo narra. Mas lembra que as coisas não deram muito certo depois de um certo tempo.
“Eu vivia com meu pai. Ainda temos uma boa relação. Eu o visito e ele vem me visitar. Mas eu prefiro morar aqui com meu companheiro, no nosso cantinho. Não temos condições de ter a nossa casa e ele não quer viver de favor. Mas, em nome de Jesus, nós vamos conseguir um lar próprio”, acredita.
Márcia confessa fazer uso de cachaça. E diz muito mais: “A vida dá muitas voltas e a gente faz algumas escolhas. Eu tenho nível superior. Fiz faculdade e outros cursos. Estou aqui porque quero. Conheci meu marido, como se diz, usando salto alto. Parei de fazer vestido de noiva para catar reciclável. Sou feliz vivendo embaixo do viaduto, mas é claro que sonhamos em ter nosso canto e uma vida mais confortável”.
Com uma mesa montada do lado de fora e panelas sempre cheias, Márcia diz que oferece alimento e boa conversa aos que passam sob o viaduto. “No Natal e Ano Novo, eu fiz uma ceia. Fiz uma mesa bonita, coloquei salto alto. E quem passou por aqui participou da nossa ceia. Tenho fé no coração. É o que importa”, finaliza.
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