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| “A detenta quer tudo pra ontem, é imediatista. Mas a mulher no crime também é a que mais protege o outro, em geral acoberta um homem e assume tudo”, diz Dayse Papassoni |
Na Penitenciária Feminina “Sandra Aparecida Lario Vianna”, em Pirajuí, os portões recebem, em média, três novas ‘clientes’ a cada dia. Esta é a média assustadora da consequência da crescente presença da droga na sociedade. Até novembro passado, a unidade incluiu 1.010 novas presas, segundo a Secretaria de Administração Penitenciária do Estado (SAP). A maioria em condenações por tráfico de droga ou associação.
A capacidade para a ala de regime fechado é de 660 presas. No semiaberto são mais 108 vagas, totalizando 768. Mas a penitenciária, como regra em todo o Brasil, tem 1.322 detentas no fechado e 137 na ala de progressão. O total de 1.454, praticamente o dobro da capacidade, exige que cada cela projetada para duas presas receba quatro. Em alguns casos, são cinco acomodadas.
A maioria é mãe (o berçário conta com 11 crianças neste momento). São mulheres em sua maior parte com idade entre 19 e 23 anos. Do restante, uma minoria de presas com idade entre 40 a 48 anos, além de 22 senhoras sessentonas completando a lotação. Em Pirajuí, 20 são soropositivo.
A reincidência criminal é baixa, outra diferença significativa em relação ao universo prisional masculino. Mas há uma questão singular: “A maior parte das detentas estão aqui por acobertar ou proteger alguém, em geral o marido, namorado, ou filho. A mulher é mais solidária também no tráfico”, aborda a diretora da unidade de Pirajuí há 3,5 anos, Dayse Papassoni.
Ela já atuou em uma unidade masculina em Avaré por 9,5 anos. Com ela em Pirajuí trabalham 220 funcionários, sendo 180 do sexo feminino. “A rotina na unidade feminina é muito diferente. Aliás o projeto inteiro é diferente, todo concebido para receber a mulher. A mulher exige mais e tem nessa rotina todas as suas peculiaridades, como dor, enxaqueca, TPM, alterações hormonais frequentes”, cita.
As observações integram o estudo de autoria de Daysi realizado junto à Escola da Procuradoria Geral do Estado, na área de Direitos Humanos. O título do trabalho é “A mulher e suas especificidades no sistema prisional”.
“O emocional é o fator que define a realidade da mulher no crime. Em geral ela protege, não entrega o parceiro ou é submetida à pressão do homem para assumir a culpa. Na convivência dentro da prisão, o emocional determina comportamentos específicos, como uma ocorrência frequente de surto e alterações de humor e de reação emocional decorrentes da característica da mulher”, elabora.
Para Daysi, no dia a dia prisional a mulher reage na hora. “É tudo pra ontem para a mulher. O homem na prisão demora mais para reagir a algo, espera um pouco mais. A mulher é imediatista. Outra diferença, e que explica esse volume de presas, é a lealdade. Em geral ela segura tudo pra si, ou assume tudo pra si”, amplia.
Da população carcerária de Pirajuí, 98% é tráfico. São poucos os casos de homicídio. Outros poucos são por furto. “Têm presas universitárias, com profissão definida. Muitas estavam com a vida bem encaminhada, mas caíram em escuta telefônica e na participação com o negócio do tráfico, em algum estágio do processo”, aborda a diretora.
Diário do cárcere
Muitas presas chegam grávidas à unidade. Para atender a este contingente, a estrutura conta com a equipe de cuidadoras e berçário. É na prisão que essas mulheres acabam tendo o primeiro atendimento profissional, com médico. “Elas chegam com histórico de convivência com o crime, a proteção a alguém, como o companheiro, a gravidez e nenhum exame antes realizado”, diz a diretora Daysi Papassoni.
A unidade promove visita íntima aos sábados. O visitante tem de fazer a solicitação e comprovar vínculo com a detenta. A capacidade para a ala de visita íntima é de 10 pessoas. O tempo permitido é de duas horas. Mas isso depende da demanda no dia.
Não é permitido contato íntimo, namorar na unidade. Mas muitas detentas assumem relações. “Elas estão aqui pra cumprir a pena. E essa premissa segue os limites de conduta. É preciso que a convivência do casal não afete as regras e não interfira na vida do outro preso. As que assumiram relacionamento não ficam na mesma cela”, pondera Daysi. É comum o viciado ter seguidas crises de abstinência quando chega. “Tem acompanhamento médico e assistência psicológica. Na maioria dos casos o controle inclui medicamento. Os surtos são comuns no início”, conta a diretora que tem formação em psicologia.
Quem visita mulher na prisão é mulher. “Homem é muito raro vir aqui, mesmo um pai. O mais comum é vir a mãe. Nunca tivemos flagrante de celular na cela ou escondido na revista de entrada. Há muito pouca ocorrência por droga, mas já aconteceu”, descreve.
Para Papassoni, a detenta mulher é a que “mais trabalha, é mais organizada que o homem, mais criteriosa, se preocupa mais com sua higiene e da unidade e tem produção elevada nas opções de trabalho ou curso internos”.
O hábito de ler também é maior entre as presas. Uma escola interna, vinculada ao governo do Estado, realiza o ciclo de ensino para quem precisa concluir. Cursos de capacitação são oferecidos para áreas como manicure, pedicure, esteticista, pintura, salgaderia, confeitaria.
Outra diferença: no presídio feminino entra esmalte, chapinha, espelho, sombra, pó para maquiagem. As mães podem amamentar. No sexto mês ocorre a separação. A criança vai ou para a família ou para uma Casa Abrigo, de acordo com a definição pelo Juizado de Infância e Juventude.
A unidade de Pirajuí foi construída dentro do Plano de Expansão de Unidades Prisionais, que prevê a construção de projetos para atender as particularidades e necessidades da mulher presa, principalmente ligadas à saúde. “Além da área de saúde específica para a mulher, elas possuem um setor destinado à amamentação, já sendo inauguradas com creche, biblioteca, pavilhão de trabalho, além de setores destinados à saúde e visita íntima”, explica a SAP.
Aprisionada pelas drogas
Presa por tráfico de droga aos 19 anos, jovem revela trajetória de medo e convulsões diárias que já teve, em entrevista exclusiva ao JC, na Penitenciária de Pirajuí, onde ainda ficará até o ano que vem
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| “Quando entrei aqui achei que ia morrer. Tinha crises diárias de abstinência, convulsão todo dia e não conseguia nem andar, não ficava em pé”, disse Karina Sanches Lopes |
Karina Sanches Lopes, 29 anos, jogou tudo fora: auto-estima, respeito próprio, família, esperança, saúde e sonhos. E está pagando caro por isso. A jornada da necessária punição exigida pelas regras sociais começou em 27 de julho de 2012, com a prisão decorrente de condenação por tráfico de drogas e associação. Convidada à morte em razão da opção que fez pelo vício, a jovem deixou o portão principal da Penitenciária Feminina de Pirajuí, na antevéspera do Natal, para sua primeira saidinha desde que iniciou o cumprimento da pena. Seu impulso: abraçar o pai e a irmã. Sua vontade: comer uma coxinha de frango. Sua fissura: voltar às grades rumo à liberdade definitiva.
Paulistana, formada em magistério e educação física em uma faculdade de Bauru, em 2010, com curso para comissária de bordo e iniciada na carreira como personal, Karina Sanches Lopes, conta que sua jornada no vício começou quando ela tinha 19 anos. “Me viciei por bobeira, curiosidade, uma porta que muitos jovens abraçam fácil. Eu entrei pelo ecstasy em uma festa rave. Fui à festa com esse propósito. É uma porta onde você entra e não sai. O vício te pega. Eu fui de anestésico de cavalo com ácido (quetamina) até o microponto, uma droga quatro vezes mais pesada que o LSD. Pra relaxar usava maconha, um aperitivo. Tudo com muita vodka pura, claro, tudo misturado, como o lança perfume”, aponta.
A droga derrubou Karina. E vieram os festivais, festas de rave de vários dias. Nelas, o som não para, tal qual o mergulho rumo à devastação de neurônios. “Nos festivais, o som não para e a droga também não. Já fiquei sete dias acordada. E pra isso precisa pegar muito pesado porque o LSD tem duração de 24 horas no corpo. O ecstasy dura cinco horas. Isso tudo custa caro. Para financiar o vício, a grana do trabalho não dá mais conta. Aí você passa a agenciar droga, vira dependente de repassar. E quem vende ou pega no atacado derruba o preço. De R$ 80,00 o comprimido, você enlouquece para vender e assim comprar um monte a R$ 25,00 cada um”, cita.
Escolha aparentemente conflituosa, Karina diz que não usou crack “por ver o estrago que a droga fez no irmão e o quanto ele sofria”. Algum tempo depois, debilitado e no vício, o irmão pegou pneumonia e morreu. “Eu acho que até caí na droga tarde, aos 19 anos. Os adolescente hoje caem muito mais cedo pela curiosidade. A besteira foi muito cara porque eu fui direto para o ecstasy. Eu quis e dancei pulando etapas. Me falaram que era legal, que tinha uma sensação gostosa, de euforia. Nenhum deles veio aqui me dizer na penitenciária que a festa acabou”, acrescenta.
Os “parceiros de rave” desapareceram, assim como Karina disse ter consciência que vai durar um tempo para que os efeitos da droga também saiam de seu organismo. “Meu foco era trabalhar para pagar a faculdade, mas usando o restante para a festa, para a compra de drogas que não são baratas. E nesse período minha mãe ficava preocupada só com a festa em si. Mas as amigas mentem que vão dormir uma na casa da outra. E como as festas rave demoram mais de um dia, eu voltava pra casa só quando o efeito acabava. Os festivais ajudam a acobertar”, especifica.
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Melhor prevenir do que remediar Esta não é uma reportagem policial, por mais que possa parecer. É uma trágica, mas instigante história de vida com uma mensagem muito forte e conclusiva sobre como não fazer escolhas erradas. O JC foi colher o testemunho da jovem Karina Sanches Lopes dentro da penitenciária que, neste caso, deverá encaminhar uma pessoa à ressocialização, cumprindo sua finalidade.
Dramas como o dela se repetem diariamente em uma sociedade acuada pelo poder avassalador do tráfico das drogas, o mais organizado e cruel segmento da criminalidade. Seu exemplo é mais do que suficiente para que todos os demais jovens possam concluir que não vale a pena embarcar nesta insanidade. É mesmo muito melhor prevenir do que remediar depois. Karina já teve 10 anos de sua vida usurpados pelo vício e pela condenação. Ainda terá mais um ou dois anos para reafirmar a si mesma aquilo que garantiu ao repórter Nelson Gonçalves – que está arrependida de ter experimentado a primeira e todas as outras doses cavalares de muitos tipos de drogas. A Editoria
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“Graças a Deus estou presa”
A jovem se viciou, foi aumentando o consumo e o ciclo de dependência se ampliou. “Consumia de cinco a oito ecstasy. Mas passei a usar mais e drogas mais fortes. Da quetamina, que é uma mistura de anestésico de cavalo com anabolizante sintético, eu formava um pó e usava no nariz. Hoje eu tenho noção do poder disso. Mas na época, não. Achava que dava conta, que tinha domínio da coisa”, adverte Karina Sanches Lopes.
Karina foi pega vendendo droga. “Me pegaram com escuta telefônica e tudo. Eu combinando, negociando, fazendo a programação de pegar e entregar a droga. Mas nessa hora eu já estava totalmente dependente, dominada pelo vício. Eu cai porque assumi tudo. E isso é muito comum acontecer. A mulher é muito mais solidária no vício. E se ela cai normalmente segura a bronca pelo homem, ou os outros. Isso é muito comum aqui na penitenciária”, esclarece.
O cárcere, por mais paradoxal que possa parecer, salvou Karina. “Hoje dou graças a Deus por ter sido condenada, estar presa. A cadeia me salvou. Eu não teria a menor chance se ficasse lá fora. Ia morrer. A droga teria me matado”.
Mas a jovem não é regra entre as que cumprem pena. Ela conta que muitas não querem “sair dessa vida”. Inteligente, ela logo se engajou no programa de formação para ser monitora. “É um emprego dentro do próprio sistema carcerário, pela Funap. Tem salário. Mas quando entrei aqui achei que ia morrer. Tinha crises diárias de abstinência. Tinha convulsão todo dia e não conseguia nem andar, não ficava em pé”, menciona.
Foram seis meses assim. “O corpo não reagia. Era convulsão todo dia. Foram meses, com medicamento e orientação psicológica para eu conseguir me limpar por dentro. Consegui sobreviver. Mas em determinado momento achei que não ia aguentar e queria me matar. Consegui superar e estou sem crise e sem uso de remédio agora”, esclarece Karina.
A perda da mãe no meio do processo de “limpeza” bioquímica aprofundou os surtos. Mas ela resistiu. Na prisão, ela se apaixonou por Sílvia, que continua no regime fechado. Karina obteve progressão de pena, para o semiaberto. “O relacionamento com a Sílvia me ajudou a levantar também. Não pode namorar aqui, mas a convivência é possível. É só seguir as regras”, cita.
Perguntas rápidas
O que mais dói para Karina na prisão?: “A saudade”. O que mais quer fazer na primeira saidinha (Natal): “Abraçar meu pai e comer uma coxinha de frango”. O que faz na prisão?: “Trabalho como monitora. Tem fábrica de jeans, de produção de material plástico aqui. Tem obrigações com limpeza, arrumação, cozinha”. O que vai fazer depois de sair: “Eu devo sair somente ao final de 2017. Vou me preparar para estar pronta para viver. Quero me casar e ser mãe, por inseminação artificial ou adotar”. Você sabe que é dependente, que basta um trago de maconha que cai?: “Sim. Sou doente, tenho dependência química. Se cair, já era”.

