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Os ritmos da chuva

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Que chuvarada foi essa? Virão outras. Ninguém deseja a destruição. Triste ver quando acontece o pior. Um perigo sempre por perto a causar assombro como um forte trovão. A natureza agressiva parece se comportar como um animal provocado: reage. No caso, à contínua provocação humana por sua mania de degradar.

Que chuvinha boa é essa! É o que exclamamos quando não oferece risco. Quando vem para refrescar em pingos que viram flores. Essa, sim, é musa (digo, chuva) inspiradora. Tão presente nas artes quanto o sol, as estrelas e os encantos do que é belo na condição humana.


O bucolismo de um dia de chuva por ter inspirado “Rain” (1966) – canção psicodélica dos Beatles. “Chuva, eu não ligo / Brilhe: o tempo está bom”.  Os também britânicos do Supertramp igualmente se renderiam a alguma metáfora molhada no sucesso mundial “It’s Raining Again” (1982). “Está chovendo de novo / Oh, não, meu amor está acabando”. Um ano antes era Guilherme Arantes que, por aqui, inundava as paradas com sua “Deixa Chover”. “Certos dias de chuva / Nem é bom sair / De casa, agitar / É melhor dormir...”   


Vinte anos antes de Supertramp e de Guilherme o mundo despertava para uma uma certa “Rhythm of the Falling Rain” (1962), do grupo vocal americano The Cascades – que, no Brasil, ecoaria de imediato a partir de 1964 como “O Ritmo da Chuva”, cantada por Demétrius.


O forró do Fala Mansa não deixou de aproveitar a inspiração que chega das nuvens e gravou “Oh, Chuva!” em 2001, na qual dá a dica. “Experimente tomar banho de chuva / E conhecer a energia do céu...”


Já em 2008 seria a vez de “Santa Chuva”, de Marcelo Camelo, com letra climatizada aos nossos tempos torrenciais. “Vai chover de novo, deu na TV / Que o povo já se cansou de tanto o céu desabar...”.


E heresia seria se essas gotas de opinião omitissem a estupenda “Águas de Março” (1972), de Tom Jobim. “É a chuva chovendo / É conversa ribeira...”. Se bem que, com a constante ameaça de tempestade, o trecho que realmente interessará será: “São as águas de março fechando o verão...”. De preferência com mais promessa de vida e nenhum pingo de destruição.


O autor é editor executivo do JC 

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