Bairros

Lagoas e rios: prevenir para não remediar

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 9 min

Alex Mita
Mesmo com placas de alerta e casos de morte, banhistas se arriscam em rios e lagoas da região; na foto, Quinta da Bela Olinda 

Ano após ano rios e lagoas são cenários de mortes por afogamento em Bauru e região. Segundo os dados mais recentes da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, 30 pessoas morreram afogadas em 2014 na região de Bauru. Em todo o Estado, duas pessoas morrem, em média, e cada dia.

Os dados servem como um alerta para os cuidados que banhistas devem ter no mar, piscinas, rios, lagos e cachoeiras, especialmente no verão, quando o fluxo de pessoas nessas áreas é maior. Em Bauru, o  maior índice de mortalidade por afogamento vem da lagoa da Quinta da Bela Olinda (leia mais abaixo).  

Segundo o diretor operacional do Grupo de Resgate e Atendimento a Urgências (Grau) da Secretaria, Jorge Michel Ribera, alguns fatores influenciam no aumento dos riscos de afogamento durante o verão, como as típicas temperaturas altas da estação, a larga disposição de água doce na capital e no interior, além da vasta extensão de praias no litoral.

“Contabilizando os casos que atendemos, podemos citar a embriaguez dos adultos como o principal agravante dos afogamentos. E, logo em seguida, o desrespeito aos alertas de perigo, o uso de flutuadores, como colchões infláveis, e as brincadeiras de mau gosto dentro d’água”, evidencia o médico.

Rios

Na região de Bauru, as pessoas também costumam nadar em rios. Como o fundo dos rios se movimenta muito em épocas chuvosas, o perigo pode ser dobrado. Lugares rasos podem se tornar fundos quando chove, e vice-versa. Há alguns pontos do Rio Batalha que são frequentados por banhistas.

“As pessoas correm risco principalmente quando acreditam que conhecem o lugar. Ao pularem onde antes era um lugar fundo, podem quebrar o pescoço se o trecho estiver raso. Outros podem entrar no rio em locais conhecidos por serem rasos, e morreram afogados, porque o lugar ficou fundo”, explica o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito. 

Em Bauru, boa parte dos mortos por afogamento são adolescentes e jovens. “Faltam clubes populares na cidade e, em dias quentes, o problema se agrava”, lastima.

Alerta

Em 2014, 788 pessoas morreram por afogamento no estado de São Paulo, enquanto apenas 104 foram internadas. Dados como esse mostram que há um alto índice de vítimas fatais nesse tipo de acidente.

Até setembro de 2015, foram internadas 45 pessoas por afogamento no Estado. Em alto verão, vale ressaltar a importância da conscientização dos riscos e dos cuidados a serem tomados

Lagoa da Quinta da Bela Olinda é a que mais preocupa

Com cerda de 60 mil metros quadrados de área, local é onde os afogamentos são registrados com maior frequência

Malavolta Jr.
Na foto, os chinelos são de uma menina que morreu afogada na lagoa da Quinta da Bela Olinda aos 11 anos de idade, em 2013

Não há números exatos que apontem quantas pessoas morreram afogadas na lagoa da Quinta da Bela Olinda. Porém, há quem estime que ao longo das últimas décadas os casos já ultrapassem os 70. Frequência que faz do cenário o maior foco de preocupação quando o assunto é afogamento em lagoas e rios de Bauru. 

A vítima mais recente foi um rapaz de 25 anos, que morreu na represa no dia 4 de setembro de 2015. Segundo o Corpo de Bombeiros, o sedimento (lodo) no fundo da lagoa e o seu terreno irregular (alguns trechos podem ter até oito metros de profundidade) são duas das características que oferecem risco aos banhistas e geram o alto índice de mortalidade no local.

“As lagoas do Vale do Igapó, Lauro de Souza Lima e do pesqueiro Sakai também são locais onde as pessoas se arriscam nadando. Mas a Quinta da Bela Olinda se destaca nesse cenário sombrio por estar em local público e, assim, com acesso facilitado”, detalha o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito.

Além do risco de morte, segundo Brito, há o risco de contaminação no local, já que a lagoa é visitada por animais como gado e cavalo. Quem entra nessas águas está sujeito a contaminação por coliformes fecais, verminoses e até hepatite. Em dias de chuva, ainda há o risco de raios.

João Rosan
Álvaro de Brito, coordenador da Defesa Civil: “A pessoa precisa cuidar da sua segurança. Se o lugar é impróprio para o nado, não deve ser frequentado por banhistas”

Imprudência

O coordenador da Defesa Civil ainda destaca a imprudência dos que se arriscam em locais impróprios para o banho. “A pessoa precisa cuidar da sua segurança. Se o lugar é impróprio para o nado, não deve ser frequentado por banhistas. É o caso da Quinta da Bela Olinda. O local é sinalizado e, mesmo assim, em dias quentes você pode encontrar até 150 pessoas nadando por lá, e com crianças”, preocupa-se.

Socorro

Tão importante quanto saber evitar o afogamento, é saber como prestar socorro.

O ideal é que pessoas sem treinamento apropriado não tentem fazer salvamentos sozinhas com o próprio corpo, colocando a própria vida em risco.  

O mais adequado é fornecer para a vítima objetos que flutuem ou que sirvam como uma corda. Até mesmo uma garrafa pet pode ajudar a evitar um afogamento.

É fundamental buscar socorro de salva-vidas ou bombeiros. A remoção da vítima deve ser feita pelos membros (pernas e braços) e jamais pode haver a compressão do abdômen. Fora d’água, a vítima deve ser colocada de lado, ter sua roupa molhada removida e ser aquecida até que haja atendimento profissional.

Projeto de revitalização ainda está em Brasília

Há muito se fala sobre revitalizar a região da Lagoa da Quinta da Bela Olinda, por meio da construção de um parque urbano projetado pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma).

O valor estimado para colocar o projeto em prática é de R$ 5,4 milhões. A ideia é viabilizar repasses federais na ordem de R$ 5 milhões. O restante do custo seria bancado pelo governo municipal, a título de contrapartida.

A prefeitura não dispõe do dinheiro para viabilizar a obra. Porém, o projeto está cadastrado em linha de financiamento do Ministério do Turismo. “É um programa do Ministério do Turismo para projetos que abrangem a revitalização de locais com atrativos turísticos. O projeto foi cadastrado, mas não é segredo para ninguém a recessão de Brasília, o que segurou os projetos. O que precisamos fazer agora é ir até o Ministério do Turismo e tentar trazer esse recurso. Vamos nos empenhar”, lembra a titular da Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), Lázara Gazetta.

Apresentado pela Semma, ainda sob o comando de Valcirlei Silva, o projeto arquitetônico contempla várias benfeitorias para o entorno da lagoa, como deck para pescaria, ciclovia, pista de caminhada, bicicletário, quiosques, bancos e parques. A iniciativa foi para o papel depois do registro de duas mortes por afogamento no segundo semestre de 2013.

Tempo instável também exige atenção

Em dias chuvosos, o perigo pode vir com as enchentes; quem orienta sobre os cuidados é o Corpo de Bombeiros

Aceituno Júnior
Avenida Nações Unidas, em Bauru, logo abaixo do viaduto da avenida Duque de Caxias; local de constantes alagamentos nos dias de muita chuva

No Interior de São Paulo, verão também é sinônimo de chuva forte e repentina. O mesmo tempo instável exige cuidados específicos, principalmente quando o assunto são as enchentes. As orientações são do Corpo de Bombeiros.

Em Bauru, a corporação se volta para a avenida Nações Unidas, percurso que fica entre o Parque Vitória Régia e a linha do trem na rua Júlio Prestes. “Isso porque é ali que a água vem com força por causa da correnteza. É onde já tivemos casos de morte. Quando a chuva vem forte, posicionamos nossas viaturas nesses e em outros pontos da cidade”, comenta o tenente Victor Félix Tozi Bonfim, do Corpo de Bombeiros.

Segundo ele, placas de alerta e orientação foram espalhadas pelos pontos mais críticos da cidade, com o apoio da Prefeitura Municipal. Além da Nações, as avenida Alfredo Maia, Comendador da Silva Martha, altura da rotatória que dá acesso ao Bauru Tênis Clube (BTC), e a Rodrigues Alves, trecho sobre a Rondon, estão sinalizadas. “Também procuramos posicionar viaturas nesses pontos sempre que possível durante as chuvas”, acrescenta.

Precaução

Consultar a previsão de tempo antes de sair de casa é aconselhável nessa época do ano. Em Bauru, o site do Instituto de Pesquisas Meteorológicas (IPMet), www.ipmet.unesp.br, atualiza os alertas constantemente. Também é importante tomar conhecimento dos pontos de alagamento e fazer rotas alternativas para evitá-los. 

Diante de um temporal, no caso de pedestres pelas ruas, a recomendação é nunca se aventurar por correntezas e inundações e não andar próximo a sarjetas, pois há risco de cair em bueiros abertos. O ideal é andar sempre pelo lado oposto a postes de energia e ficar perto de muros.

Outras recomendações

•Se a água invadir sua casa, saia e procure um lugar seguro.

•Evite passar por pontes ou passarelas improvisadas.

•Mantenha calhas e ralos da casa limpos.

•Não jogue lixo nas ruas para evitar o entupimento de bueiros.

•Programe-se para colocar o lixo em horários próximos da coleta pública; nunca deixe em sarjetas.

•Em casa, fique atento para rachaduras nas paredes ou no chão.

•Procure a prefeitura para saber se a sua residência está em área de risco.

•Em caso de emergência, mantenha a calma, procure um local seguro e acione o 193 (Corpo de Bombeiros).  

Ao dirigir

Motoristas nunca devem seguir pela inundação. O limite de altura da água é a do escapamento do carro ou moto. Caso o alagamento chegue de surpresa, a recomendação é abandonar o veículo e procurar um local seguro. Quedas de árvores são comuns durante temporais, por isso é importante não estacionar sob árvores e não permanecer embaixo delas.

Quinta da Bela Olinda

Na última terça-feira (12), a Secretaria Muncipal de Obras realizou serviços de emergência para a limpeza da Lagoa da Quinta da Bela Olinda. Durante vistoria, técnicos constataram que havia o risco iminente de transbordamento e até de rompimento da barragem da represa. Com máquinas escavadeiras, as equipes retiraram o excesso de lama, sujeira e vegetação para desobstruir os extravasores nas duas extremidades da lagoa e, assim, normalizar o escoamento do excesso de água.

Alerta também vale para as barragens

Bauru tem ao menos 300 represas e lagoas. Mesmo que pareçam seguras, problemas podem surgir com chuvas fortes. O alerta é do coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito.

“Para reduzir o perigo é fundamental manter o sistema de vertedouro sempre limpo e preparado para receber água. A limpeza precisa ser constante”, orienta. O vertedouro (ou extravasor) é uma das partes mais importantes de uma barragem e funciona como um sistema de escape que conduz a água de maneira segura para córregos e rios, por exemplo. Tal sistema é capaz de manter o nível da represa em segurança.

Uma boa medida de segurança é reduzir a capacidade das represas em até 30% no mês de novembro. Elas ficariam mais rasas, voltariam a encher no período chuvoso e, em meados de abril, estariam com seu nível normal novamente, comenta Brito. “Mas as pessoas não tomam essas medidas e muitas das represas da zona rural não têm ao menos um vertedouro. Por estarem em propriedades privadas, muitas vezes a gente não consegue acompanhar e fiscalizar, mas a Defesa Civil pode ser contatada para uma vistoria e a Secretaria Municipal de Agricultura e Abastecimento de Bauru (Sagra) faz a orientação”.

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