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O mundo tem só duas cidades

Mário Henrique da Luz do Prado
| Tempo de leitura: 2 min

A diversidade cultural é fenômeno natural nas sociedades, e como tal merece – e deve – ser tratada. A multiplicidade de formação das culturas, especialmente em contextos regionais, é fato que, se esquecido, trará imediata perda de identidade histórico-social. E, se ocorrido, será, quase sempre, por fenômeno externo e não natural, já que a preservação da cultura é algo implícito ao homem, pelo instinto de preservação de identidade.


Numa análise histórica, pode-se dizer que, imperiosamente, foi o colonialismo que trouxe a grande forma de manipulação e destruição cultural imposta, literalmente, na base da flecha e do revólver. Vemos nos países colonizados uma contradição e certa bipolaridade que se choca entre a preservação da raiz cultural e a adoção de cultura estrangeira e isto se observa, principalmente nos grandes centros urbanos. E, de forma muito curiosa, na arquitetura urbana.


Vejamos o caso brasileiro. A arquitetura clássica do Brasil é encontrada, com valor cultural, em cidades históricas, que são tidas como verdadeiros museus.  Mas seu valor cultural é folclórico. E tal é o valor dado a tudo que compõe a nossa verdadeira cultura regional.


A cultura regional é preservada como peça de museu, congelada no seu binômio tempo-espaço, como coisa morta. E tal é a sorte da arquitetura clássica, que virou peça de museu, e a casa antiga será demolida para a construção do novo residencial - que provavelmente terá um nome inglês ou italiano, como “new village” ou “nuovo villaggio”.


Até o início do século passado, as cidades queria ser Paris. Hoje, querem ser Nova Iorque. Basta ver a quantidade de arranha-céus de qualquer grande cidade do Brasil. Mas qual o problema disso? Nenhum. A observação que se faz é de que a arquitetura, como toda a cultura, sofre um estrangeirismo que é, nada mais, fruto de uma forçada globalização.


Não se deve condenar a arquitetura “moderna”, mas devemos sim questionar o porquê da adoção de uma arquitetura padronizada, e massivamente copiada, vazia de valor histórico e aceita somente pelo sentimento – tão próprio dos países colonizados – de euro-centrismo e norte-americanização da cultura. Existe uma nítida separação entre a cultura regional e a estrangeira: a primeira é antiga e folclórica, a estrangeira é a civilizada e moderna. A primeira é peça de museu, a segunda é a planta do prédio em construção.


A cultura regional tem puro e pouco valor folclórico, e a cultura estrangeira é a única tida como aceitável. E isto se fez na arquitetura, que hoje se baseia em um equilíbrio entre o clássico parisiense e o moderno nova-iorquino. Fica sem graça conhecer as cidades se elas são todas iguais, sem nenhum (ou com muito pouco) valor histórico de identidade. Pois é. Somos todos Paris e Nova Iorque, as duas únicas cidades do mundo.


O autor é advogado em Bauru

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