Tribuna do Leitor

Os estragos que não vemos, mas vamos sentir

Por Luiz Pires Diretor Zoo | Bauru
| Tempo de leitura: 2 min

Foi e ainda estão sendo enormes os problemas de ordem social e de mobilidade humana causados pelas chuvas fora da normalidade da noite do dia 12 e madrugada do dia 13, que caíram sobre diversos municípios de nossa região. Vidas humanas foram perdidas, danos materiais os mais variados, cidades ilhadas, serviços essenciais (água, luz, esgoto) paralisados, e tudo mais. Porém, o que pouco ou quase nada se mostrou até agora, foram os danos ambientais ocorridos, e aqueles que serão resultantes dessa tragédia.


No rio Batalha, dezenas de hectares de mata ciliar, muitas delas fruto de anos de plantios realizados pelo Fórum Pró Batalha e Instituto Ambiental Vidágua, foram arrancadas pela força d’água, e que agora irão fragilizar ainda mais o nosso já combalido Batalha, que perderá esse filtro natural contra o carreamento de areia das enxurradas, provocando um aumento do assoreamento.


Inúmeras foram as represas que estouraram em todas as microbacias hidrográficas da região, muitas devido à falta de projetos técnicos e sem licenciamento ambiental,  que foram com certeza a causa de grande parte dos estragos referentes às enchentes abruptas nos rios da região. Com esses rompimentos, centenas de milhares de peixes exóticos à nossa região foram lançados nos mananciais, e a partir de agora irão provocar um impacto imensurável à ictiofauna nativa.


Foram milhares de pirarucus, aruanãs e tambaquis, todas essas espécies da bacia amazônica, bagres africanos e tilápias, exóticos e de alta capacidade invasora, híbridos de diferentes espécies como o tambacu, pintado real e outros, que ninguém sabe realmente como irão se comportar em vida livre. São relatos de centenas de porcos criados próximos às margens dos rios, muitos deles sendo mantidos em pocilgas dentro das áreas de preservação permanente (APPs), onde não deveriam ou poderiam estar, e que foram levados pelas águas. Destes, aqueles que sobreviverem poderão se juntar as varas de javaporcos que tantos estragos já estão causando nas matas ciliares, bem como aos agricultores da região.


Estamos em plena época de reprodução das aves e a perda de ninhos e filhotes carreados pela cheia também foi muito grande e o resultado, só o tempo nos mostrará. Também estamos em plena época da piracema, onde os alevinos buscam as lagoas marginais para se desenvolverem, abrigados dos predadores naturais, mas com essa enchente tão grande, as lagoas viraram rio, e estes indefesos alevinos estão agora sem essa proteção natural, o que provocará um baixo índice de sobrevivência que só no futuro será sentido. Não tenham dúvidas de que aquilo que não vimos foi, e com certeza ainda será, muito pior do que foi noticiado e divulgado até agora.

Comentários

Comentários