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Lençóis recupera 500 obras por ano

Rita De Cássia Cornélio
| Tempo de leitura: 3 min

Divulgação
Rony Luis Milanese é espécie de “cirurgião” na recuperação dos livros do acervo da biblioteca de Lençóis Paulista

Quem entra na sala do agente administrativo de Lençóis Paulista (43 quilômetros de Bauru) Rony Luis Milanese tem a impressão de que ele é um multiprofissional. Tem linha, cola, papel, agulha e livros  danificados. “Trabalho desde 2008 nessa função, apesar de ser agente administrativo. Fiz alguns cursos na Secretaria do Estado de São Paulo de como higienizar, reparar, encadernar livros. Desde então, pelas minhas mãos já passaram em média três mil obras, uma média de 500 a 600 livros por ano.”

Ele ressalta que recupera todos os tipos de livros. “Do acervo circulante que é da própria biblioteca. Eles precisam de recuperação por conta da demanda. A quantidade de usuários alugando o livro é grande e fazemos consertos rápidos. Geralmente é uma capa que está solta. Tudo bem manual, artesanal.”

Como um ‘cirurgião’, ele costura livros. “São dois tipos de costuras, simples e composta. A simples são feitas em livros com um furo passando no outro. Uso linha número 10. Já a composta é feita quando há vários cadernos e a costura junta todos. Os livros mais antigos são melhores trabalhados. Os atuais têm acabamento inferior. Os mais novos são costura simples.”

As obras do acervo circulante são mais fáceis de trabalhar, os mais antigos são mais trabalhados na montagem e encadernação. “Demora mais para fazer a encadernação dele. Tenho que fazer uma costura em cada caderno. Depois, todos os cadernos são emendados para montar o livro. Chamamos a lombada do livro. Na sequência a capa é colada. Os antigos são de capa dura, algumas de couro.”

A prioridade do agente são os livros raros. “Tenho livros no acervo de 1.490, de 1930, 1940, autografados pelo autor, livros de primeira edição. Alguns nem tão antigos, mas por terem a assinatura do autor se tornam raros. Neles são feitos um trabalho minucioso. Muitos não podem ter interferência nenhuma, porque a interferência pode prejudicar mais.”

Nesses casos, a ‘cirurgia’ é maior. “Fazemos uma segunda capa com poliéster que previne a entrada de qualquer pó ou inseto no dorso e também não deixa que as pessoas tenham contato direto com a capa. Mas quando o livro está nessa situação e é um livro raro, faço uma caixa de papelão de 3 milímetros, um material simples. Para encapar usamos papéis especiais como papel tecido.”

Segundo ele, os papéis usados pelos arquivistas são caros e especiais. “São comprados em lojas especializadas. Eles têm PH neutro para não agredir o livro. A cola de PVC normal também tem que ter PH neutro de secagem rápida. As convencionais  são superácidas. Os papéis cartolina uso para fazer contracapa. Nos livros mais antigos quando retiramos a cola fica uma mancha amarelada, quebradiça. É normal porque com o tempo ela vai oxidando e acidificando o papel e  amarela. Elas são usadas na confecção de livros porque são mais baratas. Atualmente a cola usada nos livros parece um silicone, gruda, mas com o tempo solta.”

O agente observa que há livros da década de 50 e 60 que estão em melhor estado do que os do acervo atual. “Pela qualidade dos livros. Caiu muito a qualidade do papel e da tinta. Era uma tinta, agora praticamente um xerox. O livro físico caiu na questão da qualidade para baratear, atualmente temos a concorrência com e-books. Na biblioteca temos de 140 a 150 obras cadastradas. Número duas vezes maior do que o número de habitantes da cidade. Os mais raros não estão cadastrados.”

 

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