Tribuna do Leitor

Pensamentos soltos

Cinthya Nunes Vieira da Silva
| Tempo de leitura: 3 min


Há dias nos quais me coloco à frente do teclado e, enquanto me decido sobre o que escrever, acabo divagando por bastante tempo sobre questões cuja coragem me falta para fazer chegar ao papel. Concluo que há ideias, pensamentos que resistem em existir fora de mim, talvez porque eu  acredite que sejam meus demais ou porque eu não  os queira ver soltos pelo mundo.

Seja como for, hoje estou em um desses dias, cheia de pensamentos soltos, mas também estranhamente aprisionados. Daí começo uma linha, escrevo um parágrafo e, na sequência, apago três. Acordei com os parafusos soltos, como se diz por aí. Uma virada de pescoço e lá se vai a ideia que estava aqui, possuída por outra, igualmente volátil.

Conheço-me o suficiente para saber que não fico assim à toa. Não me perco nas curvas do meu cérebro sem que haja uma razão para isso. Normalmente isso acontece porque estou com algo me perturbando, como um pensamento encravado, que incomoda com o simples piscar de olhos. E assim, fico evitando não apenas escrever sobre o que quer que seja, mas sobretudo sobre o que está me assombrando.

Tenho pensado muito sobre o caminhar do tempo e sobre o tempo que tenho depositado no banco da vida, cujo saldo não me é dado conhecer ou estimar com algum acerto. Fico pensando em como é possível ter certeza de que a maior parte das ocupações humanas é pura tolice e perda de tempo e, ainda assim, continuar sofrendo pelo que nada ou pouco importa.

Olho para trás e me dou conta de quanto tempo perdi com o que não deveria e o quanto desperdicei do tempo de pessoas que já não posso alcançar, exceto nas lembranças, eis que já habitam outro plano e sei que é outra perspectiva, projetada para o futuro, que vem tirando meu sossego e colocando uma lágrima escondida no canto dos meus olhos. Sei que faz parte da vida, mas não acho justo e tenho o direito, inútil, de sonhar que nunca houvessem despedidas.

O que tem me doído, mas que não quero escrever com todas as letras, porque preciso preservar meu coração e acreditar que algo que não exteriorizo, não torno concretamente exposto, pode ficar mais longe de acontecer, é o medo da saudade inevitável, do amor imenso que não aceito viver só em recordações.

Se eu fosse Deus, daria mais tempo de vida aos seres humanos. Já que nos deu o peso da consciência, deveria ter dado a nós um tempo para aprender a viver. Esse espetáculo ao vivo, sem chance para ensaios ou pausas, não nos deixa tempo de qualidade. E enquanto vamos correndo, bobos e sem rumo, o destino nos rouba aqueles que amamos. Para vermos crescer e florescer as gerações vindouras, temos que nos despedir de quem nos antecedeu, estejamos ou não prontos pra isso e eu acredito que nunca é possível estar.

Hoje, enquanto fui fazer a feira, hábito que cultivo há anos, fui até a barraca de um senhor do qual eu compro queijos há uns 7 anos. Hoje reparei que ele está mais frágil, movendo-se com alguma dificuldade. Perguntei sobre a mulher dele, também idosa, que sempre o acompanha e ele me disse que ela dormia no carro, cansada. Pensei em outro casal e meus olhos se encheram de lágrimas. A velhice não é justa, mas não pelas rugas e sim pelas ausências que projeta ou impõe.

Nesse momento, sou incapaz de escrever mais do que isso sobre essa dor que me come pelas beiradas da alma. Não aceito a morte e não aceito mais ainda o fato dela não se importar com meus sentimentos. Quando penso no futuro sem aqueles que amo, compreendo porque o hoje se chama presente. É aqui que quero morar, nesse lugar onde meu coração encontra par, enquanto há quem olhe por mim, enquanto tenho vários lugares para chamar de lar, enquanto sou filha, enquanto ainda tenho a ilusão de que a eternidade é logo ali...

Perdida nos pensamentos que não quero conectar, respiro e resolvo não apagar mais linha alguma desse texto. Hoje, dou-me ao direito de ter a nostalgia como inspiração, mesmo que possa não agradar...

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