Tribuna do Leitor

Ordem natural

Claudia Fonseca Menezes
| Tempo de leitura: 2 min

Entre nós agora existe apenas a lembrança e a fé. Alma esmigalhada com a pedra do egoísmo, capaz de entender a necessidade da libertação para conhecer a Deus e a vontade de ter o corpo para não morrer de saudade. Hoje Deus me despe da ternura conhecida e me purifica com a certeza da eternidade.

Não posso expressar a dor que permeia o peito com frios que só a alma conhece, as palavras não dizem o que o abraço confortou e não existem ensaios de gratidão que alcancem o apoio recebido. Uma palavra, uma figura, um sinal de consolo entrelaça a certeza de que Deus usa cada amigo, conhecido ou companheiro de caminhada para aquietar a dor que insiste em vir à tona em lágrimas quentes e ininterruptas.

Papai se foi como um vento quente no meio da noite, suspirou o último fio de vida para desprender-se da couraça da alma que clamava liberdade. Em casa, amado e cuidado por tantas mãos, deixou seu último posto de servo fiel. Até o final não murmurou! Assinou com o testemunho, por tantos confirmado, seu nome: mansidão. Honrou sua família e seus amigos, deixou a marca do sorriso solto ou do olhar profundo, sustentou com dignidade a graça da vida e alinhavou na sua masmorra paralisada um tempo para que pudéssemos nos despedir dele um pouco a cada dia. Só não nos avisou que o preparo ia se tornar real, vazio. Adeus, como dizer? Não sei!

A ordem natural se cumpriu, o Pai cumpriu seu propósito nele e em nós, ficamos com o exemplo, com a experiência e esta enorme responsabilidade de manter o amor que começou com uma união que excedeu ao tempo, superou os avisos e ousou fazer família onde Deus reina.

Marido exemplar, profissional sem igual, pai e treinador competente que transformou muitas “meninas” num time estruturado, avô doce mais que mel, bisavô coruja e feliz, um paciente que mais parecia mestre, sabia sua postura, reconhecia quem era o Senhor de sua vida. Palavras e multidão de palavras seriam falhas em relacionar seus oitenta e oito anos. Silêncio! Deus o recolheu para Si. Nós somos a reticência de sua história.


 

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