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O último desafio de Lula

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

O ex-presidente Lula praticamente canonizou a i próprio, na entrevista de quarta-feira concedida a blogueiros amigos: “Se tem alguma coisa que eu me orgulho, neste país, é que não tem uma viva alma mais honesta do que eu. Nem dentro da Polícia Federal, nem dentro do Ministério Público, nem dentro da Igreja Católica, nem dentro da Igreja Evangélica. Pode ter igual, mas mais do que eu, duvido”. Inclua-se nesse rol o Paulo Maluf e o papa Francisco. Se tivesse ouvido estas contundentes declarações de inocência, o personagem de Hamlet repetiria no palco: “Pode estar louco, mas tem seus métodos”. O petismo foi condenado no Mensalão. Luta para se descolar da Lava Jato. Destruiu a Petrobras e vê o país afundar na crise econômica mais grave que a de 1929, a pior enfrentada pelo sistema capitalista. As circunstâncias são tão trágicas que, o único a fazer é o parceiro berrar “truco!”.


Esgotou-se a estratégia do “não sei de nada”. O “fui traído” não cola mais e o “isso nunca existiu“ está difícil de ser engolido. Perguntado sobre o negócio do filho Luís Cláudio, que recebeu R$ 2,5 milhões de um lobista para uma consultoria copiada da internet, Lula criou mais uma - “não fui consultado”. Diante de evidências, o ex-presidente tenta desqualificar as testemunhas: “Delação premiada tem que ter o nome de Lula, senão não vale”. É mais uma aposta na vitimização. Se a polícia e os juízes não derem uma resposta rápida às suas exigências de sair ileso de possíveis acusações, ele será capaz de um último desafio: voltar como candidato.   Na selva da política brasileira, o leão ferido ainda impõe medo. De repente, a militância decide ir às ruas para engrossar o exército vermelho dos Sem Terra. O pobre haverá de se lembrar do paraíso do consumo que começou a desfrutar no início da era petista. É verdade, estamos com 1,5 milhão de desempregados – nunca tantos, desde que o IBGE começou a conta-los, em 1992. Para a companheirada do PT incrustrada no governo o desemprego é zero.  Os que amargam a perda dos postos de trabalho vão entender a culpa da Dilma por não ouvir a receita econômica muito simples do partido: menos ajuste e mais crédito, mais emprego, mais, consumo, mais diálogo político. Só o Lula é capaz de entender os pobres. E os ricos também. A intuição política do ex-presidente fez dos ricos mais ricos, quando estava no poder. Os bancos nunca ganharam tanto. O populismo tem essa fachada de fingir que ajuda os miseráveis para enriquecer o andar de cima.  Por isso mesmo, Lula é o palestrante mais bem pago da história – R$ 13 mil por minuto. Ele mesmo explica o seu sucesso:  tirou os “mais pobres da miséria”. E as empresas precisam de consumidores. Simples assim.


O recado está dado. A aposta pode ser arriscada, mas está lançada. “Parem de me importunar com ameaças de acusações contra minha conduta, porque sou inocente de todos os lados”. Veja o manifesto de 104 advogados penalistas, publicado nos maiores jornais do país. Denuncia violações de direitos humanos, prisões sem nota de culpa, delações sem provas e ameaças à vida democrática. Para os signatários do Manifesto, nem no tempo da ditadura militar aconteceu algo semelhante. Ou até mesmo na Inquisição, quando a Igreja mandava para a fogueira os hereges confessos sob tortura. Ninguém sabe o autor do texto hiperbólico do Manifesto, e muito menos quem pagou as publicações. Estranho que a OAB tenha permanecido quieta diante de acusações tão graves. Um dos mais íntegros advogados da história do país, Sobral Pinto, costumava dizer que “advogado não é comparsa de bandido”. O defensor é o primeiro juiz do fato e precisa ter convicções da inocência do cliente para poder se empenhar de corpo e alma. Caso contrário, nem deve pegar a causa.  Para os críticos, o destampatório dos advogados penalistas tem sua razão de ser. As delações premiadas interrompem processos que poderiam render milhões de reais em honorários.


O discurso da vitimização não deu certo há um ano atrás, quando das grandes manifestações de rua contra o PT. Quem sabe agora cole, num momento em que tudo parece perdido e a população passa a acreditar num Salvador da Pátria, mesmo que seja o mesmo, já usado e remendado. Como diz o gaúcho, “já que não tem tu, vai tu mesmo”.


O autor é jornalista e articulista do JC

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