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Política econômica: modelo não poderá ser repetido

Reinaldo Cafeo
| Tempo de leitura: 3 min

Há consenso que a economia brasileira passa por um momento delicado. A estagflação, ou seja, a combinação de recessão, inflação e desemprego, nos colocou no que podemos chamar de “sinuca de bico”. Explico melhor. O crescimento econômico pode se dar pelo aumento da demanda agregada. Para tanto, os investimentos teriam que ser retomados, o consumo estimulado, o governo injetar recursos na dimensão adequada e o setor externo ampliar a exportação brasileira.


Se o pensamento da equipe econômica do governo federal for na via do aumento do consumo, repetiremos o modelo que nos trouxe até aqui. No passado tivemos o ingresso de mais de 30 milhões de brasileiros na chamada classe C, sedenta por consumo, e o governo, sabedor disso, ignorou a crise que o mundo atravessava, e estimulou os gastos das famílias. Isso trouxe um “refresco” para a economia, mas gerou forte desequilíbrio, à medida que a oferta de produtos e serviços não foi ampliada na mesma proporção e os gastos do governo foram potencializados.


O modelo não pode ser repetido. Primeiramente porque não há “novos” 30 milhões de brasileiros para engrossar a classe C, pelo contrário, cerca de 10 milhões estão fazendo o caminho de volta e, com dívidas, portanto, pior do que estavam antes. Segundo porque o nível de endividamento das famílias chegou ao limite. Não há espaço para nenhum gasto extra. Terceiro porque as próprias famílias sentem na pele o desemprego, portanto, perderam renda, e adotaram postura cautelosa quanto ao comprometimento da pouca renda que resta.


Além destes aspectos, estimular o consumo neste momento é realimentar a inflação. Aqui está a “sinuca de bico”. Afrouxar a política monetária, com liberação de compulsório (defendida por alguns), redução dos juros, entre outras, elevaria os preços dos bens financiáveis, que juntamente com a alta de preços dos alimentos, bebidas e produtos importados jogariam os preços dos produtos e serviços em níveis que o descontrole seria total.


Na prática, o governo está adiando demais o ataque à causa raiz do problema: resgate da confiança dos agentes econômicos através de ações que garantam sustentação do crescimento econômico. O primeiro e fundamental passo é controlar as contas públicas. Ninguém em sã consciência consegue provar que gastando mais que arrecada o governo conseguirá recolocar o país nos trilhos do combate à inflação e do crescimento.


O segundo passo é estimular o investimento. Sem e Petrobras atuando no mercado como fazia antigamente (por questões que são do conhecimento de todos), o governo central perdeu fôlego no tocante a injetar recursos e financiamentos na via mais importante que é o investimento produtivo, este capaz de gerar riquezas. Sem o governo atuando e com um setor privado enfraquecido não há força vinda desta variável.


Outro importante setor é o externo. Canalizar esforços para que ao menos o setor exportador possa auxiliar no desempenho econômico, pode garantir milhares de emprego e evitar a quebradeira geral. Observem que os caminhos são: investimentos e exportação, com equilíbrio fiscal, fora isso, já sabemos o que pode acontecer, ou melhor, o que pode piorar. É preciso que a opinião pública fique atenta para evitar decisões “heroicas” que possam piorar ainda mais o cenário econômico. Errar a mão agora é comprometer os próximos anos.


O autor é economista e articulista do JC

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