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Propaganda inimiga ou em qual realidade vivemos?

Billy Mao
| Tempo de leitura: 4 min

Quando abri os olhos naquela manhã com o telefone tocando, haviam passado apenas duas horas e meia do momento em que desabei na cama, vindo de uma madrugada longa e cansativa de registros e visões. Atendi à ligação e, do outro lado da linha, uma voz um tanto trôpega e cansada me avisava: “A água subiu, já está cobrindo minha casa!” Desabei novamente na cama e parei por alguns minutos para tentar me lembrar de quantas pessoas às quais eu havia informado que aquilo aconteceria.


Eram muitas pessoas, não dava para relembrar o rosto de todos. Tentei então enumerar as pessoas que talvez pudessem ter acreditado naquilo que eu dizia e retirado suas coisas. Contei umas quatro que demonstraram acreditar naquilo, que como louco desvairado eu espalhava: tira tudo enquanto é tempo, a água vai subir...


Cansado, escorreguei da cama rumo ao banheiro. Tomei um banho quente e preparei-me para encarar um dia cheio - literalmente. Sabendo o que encontraria, juntei minhas forças para fazer a única coisa que me restava naquele momento, que era registrar tudo o que estivesse acontecendo nos lugares por onde já havia andado durante toda a madrugada.


Saí, e logo na Vila Contente (Lençóis Paulista), avistei o que já estava anunciando no dia anterior. O rio havia tomado metade do bairro e as pessoas, desoladas, assistiam anestesiadas à água e lama rolar. Confesso: mesmo acostumado a ver cenários tristes, devido à profissão de repórter fotográfico, não consegui conter minhas lágrimas. Todos os rostos que eu olhava eram a mesma imagem. A imagem de desolação diante da força daquela água e da ineficiência daqueles que poderiam minimizar aquela dor.


Continuei meu trabalho e a cada amigo, cada pessoa que havia encontrado na noite anterior, mais meu coração apertava ao saber que não tinham tomado uma atitude com tempo de salvar o que lhes pertencia.


Às 2h25 da madrugada um amigo comerciante me perguntou o que eu achava, se subiria mais a água ou não. Naquele momento a enchente começava a invadir o pátio da rodoviária. Fui sincero e disse que pela quantidade de água que tinha visto em Borebi certamente subiria, e muito mais que o esperado. Ele não me ouviu.  Talvez por também estar anestesiado com  informações nocivas. Talvez pela minha postura verdadeira da realidade em que estávamos.


A aceitação ilusória de que a informação oficial é a única forma possível de dizer a verdade, para quem acredita nela, previne qualquer situação radical das mudanças do que nos atinge. Ainda, mesmo assim, a verdade - aquela que acontece - precisa ser dita, apesar do que a maioria pensa.

E essa verdade - a realidade - que está além da escolha, precisa ser trazida à tona, mesmo em termos políticos - a real situação de um fato, de um governo ou de uma organização não está nela mesma, ao mesmo tempo, não está nas pessoas que participam dela nesses nichos - ela advém de um impulso para incorporar a totalidade de maneira que o que é dito, mesmo se for a voz da minoria numérica, ou, fora da realidade, ainda será uma interpretação do real daquilo que realmente está acontecendo. Por outro lado, o que chamamos de mentira, invenção ou inverdade, ou ainda propaganda inimiga, é a que busca beneficiar interesses escusos ou esconder algo. Mesmo que mostrado como verdade.


Foi o que aconteceu. A informação da real situação das represas de que não suportariam a quantidade de chuva ficou subjetiva e caiu no irreal. Passando a ser mera especulação por parte de quem se manteve na realidade propagada como verdade, aonde as represas sequer existiam.

 

Durante minha ronda reencontrei o amigo comerciante. Havia perdido suas lojas e a água invadido sua casa até o telhado. Parado perto do mesmo local onde tinha aconselhado meu amigo, naquele dia 13, ainda de manhã, vi o sonho de muita gente passar com a correnteza. Uma realidade crua que chocava quem havia perdido algo e chacoalhava quem se quer imaginava aquela possibilidade.

Mais uma vez eu chorei. Chorei porque eu mesmo continuava na mesma realidade que havia vivido nas últimas 48 horas desses dias. Não inventei uma realidade paralela onde pudesse me esconder e onde o que aconteceu foi apenas obra do acaso. Ou da natureza. Não! Como disse o filósofo, a verdade é revolucionária. Mas quem quer revolução?


O autor é jornalista - repórter fotográfico

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